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Cinemateca teve pedidos de socorro ignorados pelo governo federal desde 2019

Vitor Paiva - 05/08/2021

A dimensão da perda provocada pelo incêndio no galpão da Cinemateca Brasileira ocorrido na última quinta-feira, dia 29, mas uma parte fundamental da origem dessa tragédia que destruiu parte da história do cinema brasileiro é clara. Instituição administrada pela Secretaria de Cultura, desde 2019 que o governo federal ignora denuncias sobre abandono e riscos de danos e incêndio, bem como pedidos de socorro sobre a instituição, e notícias demonstram que o Ministério Público alertou o governo no dia 20 de julho sobre tais problemas, mas nenhuma medida foi tomada.

Incêndio na Cinemateca Brasileira

O galpão guardava uma imensa parte do acervo da Cinemateca © Twitter/reprodução

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O alerta se deu em audiência do MPF, após uma visita ao galpão localizado na Vila Leopoldina, Zona Oeste de São Paulo, quando foi notada a situação de abandono generalizado ao imenso acervo, em grande parte formado por filmes de nitrato, material altamente inflamável. Além dos filmes, no local se encontrava mais de 1 milhão de documentos originalmente da antiga Embrafilmes, como roteiros, artigos e outros materiais – alguns com mais de 100 anos. A sede da Cinemateca está fechada desde agosto de 2020, quando o secretário de cultura Mário Frias tomou as chaves do local com escolta policial.

Incêndio na Cinemateca Brasileira

O local na Vila Leopoldina, em São Paulo, antes do fogo © divulgação

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A visita se deu no contexto do processo que a União responde por abandono da instituição, mas um acordo deu à Secretaria Especial de Cultura mais 60 dias para apresentar medidas de preservação. As acusações incluíam o não recebimento de recursos financeiros destinados à Cinemateca, abandono da instituição e do acervo, bem como irregularidades que incluíam problemas no sistema de refrigeração dos locais devidos, em drama denunciado desde 2019.

Incêndio na Cinemateca Brasileira

Parte da bagunça registrada pelos bombeiros em inspeção no local © Corpo de Bombeiros PMESP

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Segundo constava, então o governo devia mais de 14 milhões de reais à instituição, em valores que não eram repassados justamente desde 2019. Considerada a mais importante instituição de manutenção da história do cinema nacional, a Cinemateca Brasileira abrigava mais de 250 mil filmes, bem como acervos completos de cineastas, críticos e especialistas. Os alertas sobre o risco de incêndio nos galpões abandonados – onde filmes e documentos foram encontrados largados pelo chão e sem qualquer cuidado – vem sendo dados pelo MPF desde julho de 2020, quando foi sugerido que uma nova entidade fosse convocada para gerir a Cinemateca.

O secretário especial de cultura, Mario Frias, ao lado de Jair Bolsonaro

O secretário especial de cultura, Mario Frias, ao lado de Jair Bolsonaro © Marcos Corrêa/Presidência

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Fundada em 1946, a crise na instituição levou a atrasos generalizados no pagamento de salários, atrasos no pagamento de contas de água e luz, fim do contrato com a brigada de incêndio e até mesmo com a equipe de segurança – segundo os bombeiros, o incêndio começou em um ar-condicionado que passava por manutenção. Desde a tragédia que destruiu parte de um dos mais importantes acervos históricos cinematográficos do mundo, o governador de São Paulo, João Dória, pediu ao Governo Federal que a administração do prédio saísse dos poderes da Secretaria Especial de Cultura, dirigida pelo ator Mário Frias, e passasse para uma parceria entre a prefeitura da cidade e o governo do estado.

Incêndio na Cinemateca Brasileira

Ainda não se sabe a dimensão da perda do acervo no local © Twitter/reprodução

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.