Ciência

Curso online explica ciência por trás da crença em fake news e negacionismo científico

Veronica Raner - 12/08/2021

O cérebro humano é capaz de feitos extraordinários, mas também pode pregar peças em todos nós. Uma delas é criar atalhos mentais que nos fazem, por vezes, acreditar em informações que não são verdadeiras. Sim, senhoras e senhores, as fake news são uma pedra de tropeço na qual qualquer um de nós pode cair. É o que explica a pesquisadora e doutoranda em psicologia social Sibele Aquino, do Laboratório de Pesquisa em Psicologia Social (L2PS) da PUC-Rio. Ela é uma das responsáveis pelo curso “Raízes psicológicas da Desinformação”, que acontece no próximo sábado, 14, pela internet.  

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As redes sociais se transformaram em um campo minado de fake news.

Dentro do nosso laboratório de pesquisa, nós começamos a nos questionar sobre os porquês de tantas pessoas reverberarem certos discursos. À medida em que a gente foi lendo e debatendo, vimos como eles apontavam luzes e caminhos para a gente a respeito de tudo: de teoria da conspiração, de negacionismo científico, de fake news, de crença e divulgação de fake news”, explica. 

O curso — ministrado em parceria com o pesquisador Felipe Novaes, também doutorando do L2PS da PUC-Rio, e com a psicóloga Sally Ramos Gomes, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da mesma universidade — pretende jogar luz a questionamentos complexos como: por que algumas pessoas são seduzidas mais facilmente por fake news? Será que a mente está automaticamente predisposta a alimentar crenças que não condizem com evidências cinetíficas?

Ao longo da nossa evolução como humanos, o nosso cérebro foi moldado para que a gente tomasse decisões rapidamente. Esses vieses são atalhos que a gente toma sem nem perceber. Não é uma decisão consciente, em que você reflete se vai escolher o sabor de um chiclete, por exemplo”, explica a pesquisadora. “Existem atalhos mentais e nós estamos andando por eles o tempo inteiro.”

As inscrições ainda estão abertas e podem ser feitas aqui. O valor do investimento é de R$ 125,00, que podem ser divididos em 12 parcelas. 

Confira abaixo a entrevista com a pesquisadora:

Por que as pessoas acreditam em fake news?

Eu vou te dar um exemplo muito recente: o CNPq. A gente teve um problema sério no acesso ao Currículo Lattes e isso mexeu muito com os cientistas porque nós dependemos do CNPq para tudo. Manter o Lattes atualizado é uma prerrogativa importante para pesquisadores participarem de eventos, concursos e por aí vai. O Lattes é um currículo único, não tem em outro lugar no mundo, é um pouco chato de preencher, mas é muito necessário e muito importante para o nosso trabalho. Ele é realmente a fotografia completa do nosso trabalho.

E aí quando o pessoal começou não conseguir acessar, não conseguir pegar o link e não conseguir divulgar, a cabeça de todos os cientistas explodiu e a gente viu as pessoas começarem a compartilhar informações. Pessoas que estão acostumadas a isto porque não é incomum que a gente acesse o site e ele falhe um pouco. Então, conversando com uns colegas, percebemos como os próprios cientistas estavam gerando fake news. É preciso entender que fake news tem vários formatos e que ela se apresenta de muitas maneiras, não necessariamente somente em formato de uma notícia.

Naquele momento, os cientistas, as pessoas mais diretamente atingidas pelo apagão, começaram a gerar informações em cima que ninguém sabia de onde vinha. Havia suposições de que o governo estaria interessado em gerar o apagão, mas faltava a reflexão de por que o governo teria interesse em apagar os dados de cientistas? Muito se falou no sucateamento da ciência, tudo bem. Mas foi uma peça que queimou? Ou não foi nada? “Já me disseram que não tem backup e vão perder tudo!” Começou um rebuliço sobre o assunto, mas ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo.

Em contrapartida saiu a notícia de que a peça que foi queimada seria uma espécie de HD e que todos os dados haviam sido perdidos de fato. Foi uma bola de neve de desinformação que não sabíamos nem de onde vinha. E aí você recebe no WhatsApp, em tese, um e-mail de alguém falando que aconteceu isso e a gente não pagou o que tinha que pagar e estamos sem cobertura, sem o seguro da peça tal… Isso é desinformação. É por aí que a fake news começa a agir. Porque nós temos os nossos vieses, o nosso pensamento, o quanto alguma coisa atinge diretamente a gente ou não. Isso impacta na nossa forma de falar sobre o que aconteceu.

Nós temos uma predisposição a acreditar naquilo que confirma o que nós já acreditamos?

A fake news segue um caminho na nossa mente. O caminho é: o que é confortável para a gente, no que a gente acredita. E ainda quais são as possibilidades daquilo explicar alguma coisa para a gente. Só nesse exemplo simples do CNPq, algo corriqueiro e que acontece o tempo inteiro, a gente vê os caminhos que ela traça. É muito fácil eu acreditar, se eu discordo do governo, que isso tenha uma ação por trás motivada por algum interesse escuso. Na hora do desespero, é fácil eu ir na minha rede social para colocar um desabafo e achar que aquilo não vai reverberar em nenhum lugar: “Isso é um reflexo do sucateamento da pesquisa”, eu escrevo.

Não que não haja um sucateamento, não que a gente não tenha dados e informações que mostrem para a gente que a gente está em um caminho muito triste para a ciência, mas os próprios cientistas caem nesse viés porque é fácil a gente cair.

Em um contexto como o que a gente vive hoje, com excesso de informação, a gente tem acesso a notícias por muitos canais e muitos veículos. Você pode escolher qual é confortável para você, qual é a linha editorial que você gosta mais. Você pode ler aquele artigo do jornalista que você gosta e ignorar o texto daquele que você não gosta. Isso tudo só favorece que a gente se afogue em areia movediça. Quanto mais você mexe, mais você afunda em uma rede de fake news. É muito fácil a gente cair. Todos nós. Você veja que eu falo “a gente” o tempo inteiro, porque é a gente mesmo: seres humanos.

Não é um pouco contraditório que em um mundo com excesso de informações a gente ainda caia e fake news? Por que isso acontece se, em tese, há mais oportunidades de acessar informações checadas?

Há duas coisas que acontecem aí. Vou te dar um exemplo prático: quando você abre um serviço como a Netflix sem saber exatamente o que você vai assistir, o que aquele excesso de opções causa em você? Você fica meia hora tentando escolher alguma coisa e não consegue. Às vezes até acaba desistindo. Isso acontece com a informação também.

Por mais que a gente tenha acesso a muitos canais — e a gente tem muita informação hoje —, isso não garante que a gente seja bem-informado. Não garante que a gente saiba escolher onde vai se informar ou a partir de que lugar a gente vai refletir as nossas decisões políticas, por exemplo. Nós, seres humanos, não conseguimos lidar com o excesso. 

Se você vai a uma pizzaria em que você tem quatro opções de pizza, é muito mais fácil escolher uma ali do que naquela em que o cardápio traz 30 opções e quatro variações de tamanho. A gente fica realmente travado. A nossa mente é maravilhosa, mas também tem limitações. 

A outra coisa que eu acho que tem a ver também com esse excesso de informação é que para lidar com isso, com esse contexto de “muito sabor de pizza e muitas variações de tamanho”, a gente precisa parar e pensar. E isso exige energia, dá trabalho e a gente “não tem tempo para ter trabalho”. Quem tem tempo para ficar avaliando a quantidade de informações que chegam e ponderar sobre cada um? Realmente parece um paradoxo: quando a gente tem mais informação, parece que a gente tem menos.

Muita gente associa a falta de acesso à informação ou a crença em fake news à escolaridade ou classe social. O que você acha sobre isso?

Há muitas diferenças individuais que nos distinguem e que fazem algumas pessoas caírem mais e outras menos. Mas há pouca evidência de que o grau de escolaridade interfira nisso.

O que acontece é que a gente tem diferenças individuais que a psicologia chama de variáveis individuais, que são características que nos distinguem uns dos outros. Embora sejamos todos humanos e que, na média a gente se comporte de forma muito parecida, algumas coisas diferem. 

Uma das diferenças que a gente tem e que está presente em estudos muito interessantes a respeito disso — de fake news e de crença em teorias conspiratórias  — são as tendências a acreditar em pensamentos mágicos. Eu, por exemplo: eu vejo muitas vezes ao longo dos meses a hora 18:11. Quase todo dia, quando são 18:11, eu olho para o relógio. Por que parece que o universo está me mandando um sinal? Porque 18/11 é a data do meu aniversário.

Essa é uma informação que está muito exposta na minha cabeça. Qualquer coisa que tiver os números 18 e 11 na sequência vai me chamar atenção, como um preço de um produto. Óbvio que eu olho a hora no meu celular muitas vezes ao longo do dia ou da semana, mas a única hora que me desperta surpresa é “18:11″, que é o dia do meu aniversário. E aí você fica: “será que é um sinal?”. A resposta é dura: não, não é um sinal. É um pensamento mágico. A gente tem essa tendência a encontrar magia nas coisas.

Algumas pessoas têm essa tendência mais forte a acreditar mais em pensamentos mágicos, outras têm menos, mas em média todo mundo tem um pouco disso. 

O que os estudos dizem sobre o perfil da pessoa que é mais suscetível a acreditar em fake news?

Eu não conheço nenhum estudo que tenha traçado esse perfil, mas a gente sabe, por exemplo, que pessoas que tendem a ter uma personalidade com fator de alta abertura às experiências, como a gente chama, são pessoas que tendem mais a cair e se envolver em teorias conspiratórias. Elas têm muita curiosidade, são pessoas que gostam de experimentar coisas novas e que se jogam em novidades antes de todo mundo. Esse modelo teórico de personalidade é chamado de “Big Five”. Ele diz que todos nós temos um grau de abertura à experiência, mas pessoas que tendem a ter um grau muito alto nesse fator de personalidade tendem também a se envolver mais. Isso explica bastante coisa. Personalidade é um fator que interfere muito nas nossas decisões e em tudo que a gente faz, porque determina o padrão do nosso comportamento e como a gente age.

Então fator de personalidade de alta abertura é uma das coisas que é muito consensual em estudos que atestam isso. Eu não saberia te dizer se é um perfil específico assim porque há muitas variáveis envolvidas. São as nossas diferenças individuais, há o próprio contexto e também o posicionamento político, por exemplo.

Que tipo de outros atalhos a nossa mente cria?

Eu vou citar um que eu gosto bastante porque ele acontece muito comigo também, que é o efeito halo. Ele é exatamente o que eu falei quando citei a Pasternak. Eu conheço uma coisa da Natália só, não conheço mais nada. Mas, a partir daquilo que eu conheço e que eu super valorizo, eu já acho que todos os comportamentos futuros dela — todos os depoimentos e todas as falas dela — vão ser maravilhosos. Digamos que eu seja fã da Beyoncé e que a única informação que eu tenho dela é que ela é incrível, a mulher que mais ganhou Grammys na História.

Em algum momento a Beyoncé dá uma opinião a respeito de um assunto que eu não domino. Eu vou dar todo o crédito à Beyoncé só porque ela é a mulher que mais ganhou Grammy na História. Esse é o efeito halo. A gente conhece uma coisa positiva da pessoa e aquilo tende a se alastrar para qualquer coisa que a pessoa fale ou faça. “A Beyoncé nunca vai falhar” porque eu credito a ela aquela bonança que ela me provocou de primeira. A primeira impressão foi boa, gostei dela, sou fã, então tudo o que ela falar vai ser positivo para mim. O contrário também acontece, é o efeito horn. São atalhos e nós estamos tomando o tempo inteiro.

 

 

 

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Fotos: Unsplash


Veronica Raner
Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.