Inspiração

Dupla maternidade: o amor lésbico na gestação e criação dos filhos

Veronica Raner - 29/08/2021 | Atualizada em - 30/08/2021

A enfermeira obstétrica Mariana Castello Branco (@2maeseummundo), de 39 anos, e a psicanalista Lizandra Hachuy, de 41, ainda se divertem quando falam de como construíram a família que têm. Há seis anos juntas, as duas compartilham a dupla maternidade de quatro filhos — Miguel, Manuela (os dois do primeiro casamento de Mari), Maitri e Moana — e são o exemplo vivo de como a maternidade lésbica jamais será o bicho de sete cabeças que a parte homofóbica da sociedade propõe. 

Mari e Liz com Moana, a filha mais nova, no sling.

As duas se conheceram na cidade de Botucatu, no interior de São Paulo, por conta de um encontro profissional. Na época, Mari estava casada com um homem há 10 anos e as duas se identificaram logo. “Eu estava num relacionamento muito difícil de conviver e eu me abri de cara com a Liz. Eu não sei o que acontece com a relação hétero que a gente não pensa em se separar. Eu não estava mais feliz e nem ele“, relembra.

Aos poucos e de forma velada, as duas perceberam que estavam apaixonadas uma pela outra, mas demoraram ainda para deixarem o sentimento às claras. De um lado, Liz não queria incentivar Mari a se separar e, por vezes, a aconselhou a lutar pelo casamento. De outro, Mari foi percebendo que o que sentia por Liz era algo muito maior do que só amizade, mas achava que a amiga não nutria do mesmo sentimento justamente por ela apoiar a reconciliação de Mari com o marido. 

Eu jamais admitiria uma traição, o budismo não ia me permitir isso nunca. O karma ia voltar para mim, então eu ficava disfarçando, falando para ela se lembrar de quando se apaixonou por ele e resgatar essa paixão“, diverte-se Liz. 

Eu sentia muita raiva quando ela falava isso porque aquilo me confundia. Eu me perguntava se estava vendo coisa onde não tinha“, responde Mari. 

Algum tempo depois, durante um encontro com outras duas amigas, as duas viram que não tinha mais para onde fugir. Depois de um momento de “quase beijo” — que não aconteceu —, Mari decidiu que não havia mais o que fazer a não ser deixar o marido, em janeiro de 2015. 

A ideia não era ser amante e viver às escondidas. Eu não queria uma aventura. Eu estava pensando no meu desejo de ser mãe, de ter uma família”, diz Liz. 

Mari então alugou outra casa na cidade para morar com os filhos, Miguel e Manuela. Ela só não esperava que assim que chegassem na casa, as duas crianças, com apenas uma pergunta, mudariam tudo. “Eles amaram a casa nova, mas olharam para mim e falaram: ‘Se a gente vai morar em outra casa, por que não vai todo mundo morar junto na casa da tia Liz?’. Eles não sabiam de nada ainda. Eu pensava que primeiro seria importante eles entenderem a separação para depois, com tempo, apresentar uma nova relação“, justifica Mari. 

‘A maternidade lésbica era um grande desafio para mim’

Liz abraçou os dois filhos de Mari como também dela, mas todo processo exigiu das duas uma série de desconstruções sobre a existência de uma família com duas mães. 

Eu sonhava com uma família, mas eu tive que fazer todo um movimento na minha vida para assumir para mim que era possível construir uma família com uma mulher”, diz a psicanalista. “Eu tinha essa visão dentro de mim de que lésbica não faz família, de que não tinha como duas lésbicas terem uma família bonita e feliz. Quantas vezes eu não me relacionei com um cara esperando dele uma família? A maternidade lésbica para mim era um grande desafio.

Apesar dos pensamentos que afligiam Liz, Mari se orgulha de como a mulher abraçou o papel de mãe sem qualquer porém. As duas compartilharam os prós e os contras da maternidade desde o início e logo Manuela e Miguel já falavam na escola, com orgulho, que tinham duas mães. 

A Liz investiu nisso demais, ela ia nas reuniões da escola, ela bancou as crianças emocional e financeiramente. A maternidade aconteceu pelo investimento e pelo desejo de se criar um laço, não foi algo dado“, observa Mari. 

Mari, Maitri e Liz: “Forte como as minhas mães”

‘Eu não me senti mãe dele de cara, mas investi no desejo de ser’

Quando decidiram ter mais filhos, as duas concordaram que seria Liz aquela a engravidar. Era desejo dela passar pelo processo de gestação. Ao mesmo tempo, Mari ainda encontrava dificuldades em se perceber mãe de uma criança que não havia sido gerada nela. Como ela mesma admite, o sentimento era um reflexo das vivências heteronormativas que havia mantido até ali. 

Naquela época, eu relacionava o ser mãe com a questão da gestação, da amamentação, que era o que eu tinha vivido. Foi um lugar bem inseguro para mim no começo“, explica.

Para a gravidez de Maitri, o método escolhido foi a fertilização in vitro. As duas decidiram que Mari doaria os óvulos e Liz gestaria a criança. “Hoje eu olho para trás e vejo que esse era um pensamento muito heteronormativo“, reflete a enfermeira. 

Quando o Maitri nasceu, eu tive crises existenciais de choro porque ele não me reconhecia como sendo a mãe dele“, lembra Mari. “Algo em mim falava que ele não me reconhecia como mãe. Ele chorava e ia para o colo dela. Eu não me senti mãe dele de cara, mas eu investi no desejo de ser mãe dele. A maternidade não é algo instintivo, é uma relação que deve ser cultivada como qualquer outra. Nós entendemos que a maternidade não tem nada a ver com genética, com biologia ou com amamentar. Ela é uma relação construída como qualquer outra. O Maitri veio dessa maneira.” 

Durante a pandemia, o casal viveu a experiência desafiadora de gerar outra vida. Após três tentativas frustradas e muitas lágrimas, Liz engravidou de Moana, que completou o quarteto de Ms. Aquela casa de Botucatu em que antes vivia apenas uma mulher lésbica, desacreditada de construir uma família que refletisse sua identidade, seus valores e seus desejos, hoje abriga duas mães felizes e seu lindo quarteto de Ms. 

Eu não acredito que a maternidade por ser uma dupla maternidade vai ser assim ou assado. Ela é daquele encontro daquela dupla, daquele quarteto ou daquela avó. Para mim, a maternidade está em um lugar de construção, de parentalidade. Somos pessoas que criamos sujeitos para o mundo, para a vida. O que nos toca mais do que sermos duas pessoas cis do gênero feminino é que somos duas pessoas que pensamos muito parecido nesse lugar de ser a tutela de alguém que pode se pensar e se rever nesse mundo“, finaliza Liz. 

 

Na dupla maternidade, há espaço para um pai? 

A inserção da lógica heteronormativa na maternagem lésbica é uma experiência compartilhada por várias mulheres que vivem a realidade da dupla maternidade. Mas quem define o que é ser mãe ou o que é ser pai? Ser mulher obrigatoriamente te torna mãe no caso de uma gestação? Ser homem obrigatoriamente te faz pai nessa mesma situação? 

Diferente dos casos de Mari e Liz, em que as quatro se reconhecem como mães, está a história da psicanalista e pensadora Letícia Lanz, de 70 anos. Autora do livro “O Corpo da Roupa” e ex-candidata à prefeitura de Curitiba pelo Psol, ela se reconhece como uma mulher lésbica e… Pai. 

Não sou ‘pãe’, contração esdrúxula e frankensteiniana de pai e mãe. Nem sou uma “segunda mãe” para a minha filha e os meus dois filhos. Nem “avó” para os meus três netos e duas netas. Muito menos “marida” da minha companheira. Sou pai, sou avô e sou marido, sim. Jamais teria sido de outra forma“, escreve em seu blog.

A psicanalista e pensadora Letícia Lanz: mulher trans lésbica e pai.

Casada há 45 anos com a arquiteta Ângela, Letícia explica que desempenhar o papel de pai nunca foi um problema para ela. “Eu tinha problemas com a minha identidade de gênero, não com a minha esposa ou com os meus filhos. Eu não vou mexer em algo com o que eu não tenho problemas. Quem transicionou fui eu, não eles. Se o carro está com problema no pneu, você não troca o motor“, diz.

A psicanalista, que se prepara para lançar o segundo livro em outubro — “A Construção de Mim Mesma: uma História de Transição de Gênero”, pela editora Objetiva —, acredita que sua decisão em ainda se reconhecer como pai mesmo depois de uma transição de gênero foi uma desconstrução.

Primeiramente, da ideia de que se você transiciona, você tem que se enquadrar no binarismo de gênero que você quer fugir. É como querer entrar em um clube que nunca te quis como sócio“, explica. 

Por outro lado, ela observa que há uma ortodoxia e um radicalismo nos movimentos sociais nesse sentido. “Eles não aceitam de maneira nenhuma a diversidade que pregam. Eu só reconheço como diversidade a minha identidade?“, questiona. 

Rever esses títulos e as relações sociais presentes neles são dois pontos que Letícia considera importantes para o futuro do movimento. Ela considera essa atitude uma forma de “implodir com a tal família tradicional”.

É ela (a ‘família tradicional’) que defende que o papel de pai seja do homem e o de mãe seja da mulher. Eu acho que isso é papel de ambos e cada um determina de acordo com o que a sociedade chamou de pai e mãe. Quando eu falo de maternidade, eu falo dentro de um sistema binário, como se fosse algo intrínseco da mulher pela função que ela tem na procriação, já que ela que vai gestar por 9 meses. No entanto, paternar é uma tarefa de quem for: de homem, de mulher, de trans… Nós temos que criar o indivíduo para viver na coletividade e a noção de família quando não se estende na coletividade ela é um reflexo do egoísmo.” 

 

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Fotos: Arquivo pessoal


Veronica Raner
Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.