Arte

Filmes brasileiros: ‘Edifício Master’, de Eduardo Coutinho, é suprassumo do cinema documental

Vitor Paiva - 20/08/2021 | Atualizada em - 23/08/2021

Superando com muito suor e talento os altos e baixos econômicos e políticos que tanto afetaram a indústria ao longo das décadas, o cinema brasileiro se afirma desde seus distantes primórdios como um dos mais criativos e importantes do mundo. Em uma história que remonta ao início do século XX com Os Estranguladores, filme realizado em 1908 por Francisco Marzullo e Antônio Leal como a primeira película ficcional do Brasil, e em seguida com O Crime dos Banhados, filmado por Francisco Santos em 1914 para se tornar o primeiro longa nacional, passando pelos grandes estúdios do passado como Vera Cruz e a Cinédia e chegando ao Cinema Novo, aos grandes sucessos da comédia e aos blockbusters mais recentes, trata-se de uma trajetória repleta de obras-primas e grandes nomes, com profusão de qualidade inversamente proporcional aos poucos incentivos que o cinema nacional recebeu ao longo dos anos.

Icônica cena de "Limite", de Mário Peixoto, considerado o melhor filme brasileiro de todos os tempos

Icônica cena de “Limite”, de Mário Peixoto, considerado o melhor filme brasileiro de todos os tempos © reprodução

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Assim como se deu na música popular, o cinema dos anos 1960 é visto como uma espécie de auge dessa sétima arte em todo o mundo. E no Brasil não foi diferente: além de obras como O Pagador de Promessas, dirigido por Anselmo Duarte em 1962 e que se tornaria o único filme brasileiro a conquistar a palma de Ouro no Festival de Cannes e o primeiro filme sul-americano indicado as Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o Cinema Novo, o Cinema Marginal e outros movimentos da década reúnem as principais obras da história do cinema nacional. Ainda que o topo da lista dos 100 melhores filmes da história do cinema brasileiro seja sempre ocupado por Limite, filme dirigido por Mario Peixoto em 1931, quase todo o restante dos dez primeiros colocados é ocupado por filmes dos anos 1960.

O maior documentarista do Brasil

Foi nessa década, afinal, que obras imortais como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, bem como Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, São Paulo Sociedade Anônima (1965), de Luís Person, e Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, foram filmados. Na seleção dos 100 maiores filmes nacionais de todos os tempos levantada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) em 2016, há, porém, um fundamental e espetacular corpo estranho entre os mais importantes diretores da nossa história, por se tratar do único documentarista entre os mais bem colocados da lista: o cineasta paulista Eduardo Coutinho.

O documentarista Eduardo Coutinho

O documentarista Eduardo Coutinho © Guillermo Giansanti/Divulgação

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O filme apontado na seleção é a obra-prima Cabra Marcado para Morrer, um dos mais importantes documentários no mundo e em todos os tempos, mas a presença de Coutinho é massiva na lista – com 3 filmes, ele fica atrás somente de Nelson Pereira dos Santos, com 4, e Glauber, com 5. E se com toda justiça o documentário Jogo de Cena, de 2007, se encontra também na seleção, é possível afirmar que sua terceira obra escolhida seja uma das que melhor explicam o gênio que fez de Coutinho o maior documentarista brasileiro da história: tendo vindo do jornalismo para o cinema documental, focando na seleção de temas inusitados, o interesse profundo pelas pessoas e suas história, e a permissão de se fazer presente e se misturar com o objeto de seu interesse – tudo que faz de Edifício Master, filme de 2002, também uma obra de um gênio.

Eduardo Coutinho em 1987

Coutinho em 1987 © Zeca Guimarães

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Fazer de um documentário sobre um tradicional e imenso edifício em Copacabana – com 276 apartamentos conjugados e cerca de 500 moradores – uma obra efetivamente tocante é trabalho de intelecto, coração e brilhantismo, e Edifício Master é um mergulho fundo no interesse de Coutinho pelo ser humano: pela pessoa comum, pelo brasileiro.

O Brasil inteiro em Edifício Master

Uma das moradoras - e personagens - de Edifício Master

Uma das moradoras – e personagens – de Edifício Master © reprodução

O Edifício Master visto de fora

O Edifício Master visto de fora © reprodução

Para realizar o documentário e mostrar a delicadeza e força das pessoas que dividiam então a vida no prédio, o diretor e sua equipe efetivamente se mudaram para o Edifício Master, onde viveram durante todo o período de realização. Diverso e profundo, o filme se baseia fundamentalmente em entrevistas de fundo, que simplesmente faz o trabalho de se interessar e revelar aquelas vidas com afeto e franqueza – para se tornar um dos mais celebrados e premiados documentários brasileiros de todos os tempos. Assim, Edifício Master se encaixou ao lado de outras obras imortais como Peões, Um Dia na Vida, Babilônia 2000, Santo Forte e As Canções, bem como as já citadas, com perfeição à filmografia de um dos maiores artistas do cinema nacional e do país em todos os tempos.

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.