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Hip Hop: arte e resistência na história de um dos movimentos culturais mais importantes do mundo

Vitor Paiva - 09/08/2021 | Atualizada em - 01/09/2021

Se hoje o Hip Hop é o estilo musical mais popular e comercialmente bem-sucedido do mundo, a história do gênero é de superação e resistência como um verdadeiro estilo de vida – ligado diretamente à afirmação da identidade da juventude negra nas periferias dos EUA e de outras grandes cidades do mundo. Pois, para além do seu aspecto musical, o hip hop se construiu, cresceu e ganhou o mundo como um movimento de fato: uma cultura ampla e plural, com braços artísticos que envolvem a música (historicamente chamada de Rap, ainda que hoje o termo “hip hop” seja aplicado para se referir ao estilo como um todo, e englobe a afirmação geral do movimento), a dança e as artes plásticas como o grafite.

Jovens nas ruas do Bronx no início da década de 1970

Jovens nas ruas do Bronx no início da década de 1970 © Getty Images

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Ainda que quase sempre seja impreciso determinar objetivamente onde, quando e como um movimento artístico nasce, o caso do hip hop é diferente: é justo afirmar que tal cultura nasceu no bairro do Bronx, em Nova York, no dia 11 de agosto de 1973, no número 1520 da avenida Sedwgwick. E se é possível apontar um “pai fundador” do hip hop, esse título é comumente oferecido ao jamaicano Clive Campbell, mais conhecido como DJ Kool Herc. Foi nesse dia e nesse local que ele primeiro colocou duas vitrolas lado a lado, isolando porções instrumentais de discos de funk – em especial de James Brown – e de disco music e, trocando de uma para outra, conseguiu alongar os trechos e batidas.

DJ Tony Tone e DJ Kool Herc em 1979

DJ Tony Tone e DJ Kool Herc em 1979 © Getty Images

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Segundo consta, tal momento fundador aconteceu no Bronx em agosto de 1973 quando Kool Herc tinha 18 anos, e sua forma de comentar e exaltar os dançarinos – a quem chamava de “break-boys” e “break-girls”, ou “b-boys” e “b-girls” – durante seus sets em festas, mantendo uma fala ritmada ao microfone junto do beat que ele próprio tocava enquanto incentivava a pista, foi chamado de “rapping”. Nos primórdios do hip hop o DJ Kool Herc não buscou caminhos comerciais para lançar uma carreira, mas seu estilo influenciaria direta e radicalmente o trabalho de nomes como Grandmaster Flash e Afrika Bambaataa, dois dos primeiros artistas realmente populares do gênero.

festas de hip hop

As festas de rua foram cenário do surgimento do movimento no bairro

B-boys em festa no Bronx nos anos 7

B-boys em festa no Bronx nos anos 70 © Rick Flores

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O impacto de Herc foi tamanho na “cena” que rapidamente todos os DJs nas festas disco e funk passaram a buscar novas formas de incendiar a festa – e, da mesma forma nas pistas, com o surgimento do “break” como parte fundamental do movimento nascente. Uma das partes mais lendárias do início do hip hop remonta a 1977, quando um apagão deixou toda a cidade no escuro: diversas lojas de equipamento de som foram saqueadas na escuridão – e, no dia seguinte, as festas de rua que antes se contavam nos dedos de uma mão se multiplicaram em dezenas.

A polícia em NY diante de uma loja arrombada no dia seguinte ao apagão, em 1977

A polícia em NY diante de uma loja arrombada no dia seguinte ao apagão, em 1977 © Getty Images

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Ao mesmo tempo que tais tendências começaram a dominar as boates na segunda metade da década de 1970, os artistas também realizavam imensas festas ao ar livre – como fazia Grandmaster Flash, antes mesmo do primeiro disco de rap ser lançado. As festas reuniam multidões em uma cena fervescente e fadada a tomar o país – o mundo – em pouco tempo: tal tomada efetivamente começou em 1979, quando Sugarhill Gang lançou “Rapper’s Delight”, oficialmente reconhecido como o primeiro disco de rap da história.

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A música ficou entre as mais tocadas do país, abrindo assim uma janela que só cresceria a partir de então – como, por exemplo, com o clássico “The Message”, de Grandmaster Flash. O canto falado, o ritmo marcado puxando a gravação, a letra comentando ao mesmo tempo a realidade e o próprio ato de cantar e dançar, tudo que viria a determinar o estilo já estava lá, e assim os EUA e em seguida o mundo eram apresentados a um gênero e um movimento que se tornariam um dos mais importantes de todos os tempos – bem como aos desejos, jeitos anseios e discursos de uma parcela da população que jamais voltaria a se calar.

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Ao longo da década de 1980 o sentido urbano e social viria a se afirmar como partes essenciais do estilo, e algumas das mais importantes bandas de rap de todos os tempos conquistaria o público a partir de então – nomes como o Public Enemy, Run DMC, Beastie Boys e NWA formaram uma espécie de época de ouro do movimento. Nos anos 90 tais bandas ganhariam sucesso de massa, e novos nomes como MC Hammer, Snoop Dogg, Puff Dady, Wu-Tang Clan, Dr. Dre, além de Tupac Shakur e Notorious B.I.G. – representando a histórica rivalidade entre os rappers da costa oeste e da costa leste que terminaria em tragédia com o assassinato dos dois últimos –confirmariam o hip hop como o gênero mais popular do país: o estilo que tomava o lugar do rock como o mais vendido dos EUA e do mundo.

Public Enemy

Public Enemy © divulgação

Run DMC

Run DMC © Wikimedia Commons

No Brasil

O caminho do hip hop no Brasil é semelhante ao original estadunidense, vindo das periferias negras para tomar o mercado com o passar dos anos – mas seu surgimento já se dá no início dos anos 80, como influência direta do movimento dos EUA. A primeira cena brasileira é em São Paulo, em especial nos encontros na rua 24 de maio e no metrô São Bento, de onde alguns dos maiores nomes do gênero no país saíram, como os pioneiros Thaíde e DJ Hum, Sabotage e os Racionais MCs, maior banda do estilo no Brasil. Nos últimos anos, nomes como MV Bill, Negra Li, Emicida, Criolo, Djonga, Baco Exu do Blues, Rincon Sapiência e Mariana Mello, entre muitos outros, confirmam que o hip hop brasileiro vive processo semelhante ao crescimento nos EUA – para se tornar um dos mais influentes e populares gêneros no país.

Os Racionais MC's são o maior nome do hip hop nacional

Os Racionais MC’s são o maior nome do hip hop nacional © divulgação

Mercado bilionário

Hoje os maiores artistas de música do mundo são oriundos do hip hop – e o movimento cresceu ao ponto de se tornar seio de uma indústria efetivamente bilionária, que inclui a produção de um sem-fim de produtos e mercados. Nomes como Drake, Kendrick Lamar, Cardi B, mas principalmente Kanye West, Jay-Z e Beyoncé se tornaram gigantes da indústria cultural dos EUA, capazes de movimentar a economia e alterar o cenário cultural do país como somente o rock um dia foi capaz.

DJ Kool Herc em 2019

DJ Kool Herc em 2019 © Getty Images

Jay-Z e Beyoncé

Jay-Z e Beyoncé © Getty Images

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Kanye West em show no Chile em 2011

Kanye West em show no Chile em 2011 © Getty Images

O gênero que nasceu no Bronx como um grito que ecoou pelas periferias do mundo é hoje o mais importante gênero musical e braço da indústria cultural do planeta – e o que o futuro reserva é ainda incerto: mas provavelmente virá do talento, das palavras, do ritmo e da vontade e necessidade de um jovem periférico de falar, ritmado, sobre uma batida irresistível e furiosa.

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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