Ciência

Jazigo de 1.000 anos de indivíduo não binário de alta elite é descoberto

Gabryella Garcia - 19/08/2021 | Atualizada em - 23/08/2021

Uma descoberta de trabalhadores e pesquisadores finlandeses pode mudar tudo o que se sabe sobre as identidades de gênero na Escandinávia Medieval. No mês de julho foi publicada uma pesquisa pela European Journal of Archeology que afirma que uma pessoa da alta elite que viveu na região poderia ter se identificado como não-binária na época.

A descoberta do jazigo aconteceu há bastante tempo, em 1.968, quando trabalhadores faziam uma escavação para colocar um cano subterrâneo e descobriram o cabo de uma espada de bronze. A descoberta levou a revelação de um túmulo de 1.000 anos na cidade de Hattula, na Finlândia. A hipótese de ser um indivíduo não-binário, entretanto, só se tornou possível recentemente após a conclusão de algumas pesquisas.

Espada Finlândia não-binária

Espada encontrada intrigou pesquisadores, uma vez que mulheres não eram enterradas com armas, e a pessoa usava roupas femininas

Dentro do túmulo foi encontrada uma pessoa vestida com roupas consideradas femininas, mas que carregava uma espada. Isso intrigou os pesquisadores uma vez que as mulheres não eram enterradas com armas na Escandinávia e, tampouco, os homens com roupas femininas. Surgiu então a dúvida se poderia ser uma mulher guerreira, algo bastante incomum, ou então uma dupla sepultura de um casal.

Agora, 53 anos depois da descoberta, os pesquisadores conseguiram fazer uma análise do sequenciamento do DNA e acreditam que o túmulo pode realmente ser de uma pessoa não-binária. Uma hipótese levantada pela equipe, embora sem certeza absoluta, é que a pessoa poderia ter a síndrome de Klinefelter.

A maioria dos homens carrega um cromossomo X e um Y, com o X herdado de sua mãe e o Y de seu pai. A maioria das mulheres tem dois cromossomos X, um de cada um dos pais. No entanto, combinações diferentes dessas duas podem ocorrer e pessoas com síndrome de Klinefelter são portadoras de dois cromossomos X e um cromossomo Y.

Masculino, feminino ou nada disso: nesses lugares, o terceiro gênero é uma realidade perfeitamente aceita

Muitas pessoas com síndrome de Klinefelter são designadas como homens ao nascer, têm anatomia masculina e podem nem mesmo saber que carregam um cromossomo extra. No entanto, o X extra pode causar alguns efeitos como níveis baixos de testosterona, testículos que não desceram e seios aumentados. Por esse motivo, a pessoa encontrada pode ter apresentado características sexuais secundárias associadas tanto a homens quanto a mulheres.

Mas, como pessoas com a síndrome de Klinefelter podem possuir qualquer identidade de gênero, são os itens encontrados do enterro que realmente dão mais força para a possibilidade de uma identidade não-binária. As roupas femininas, combinadas com a espada, joias e ricas peles, sugerem um indivíduo de elite respeitado na comunidade e isso levanta uma importante para a compreensão das noções escandinavas de gênero.

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Fotos: Reprodução da Agência Finlandesa do Patrimônio/Veronika Paschenko


Gabryella Garcia
Gabryella Garcia é paulista, mulher trans, transfeminista e jornalista pela Unesp. Começou a carreira escrevendo horóscopos para o João Bidu e agora foca em escrever sobre direitos humanos e recortes de gênero. Já passou por veículos de São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo e também colaborou para veículos como Ponte Jornalismo, Congresso em Foco e Elle Brasil. Atualmente, além de produzir o podcast "Prosa", para o Hypeness, também colabora com o UOL. Além disso atua como voluntário no Projeto Transpor, um projeto que oferece consultoria profissional gratuita para pessoas transgêneros com montagem de um currículo assertivo, Linkedin e simulação de entrevistas de emprego.