Debate

Karapiru Awá sobreviveu a massacre e 10 anos sozinho na Amazônia, mas não a covid

Redação Hypeness - 02/08/2021

Karapiru Awá é um nome de resistência. Com data de nascimento desconhecida, Karapiru faleceu na última sexta-feira, dia 16 de julho de 2021, em decorrência de complicações causadas pela covid-19. E a triste perda do Brasil como um todo mostra a gravidade da pandemia, que segue a passos largos no Brasil.

Karapiru morava no oeste do Maranhão e por lá passou boa parte de sua vida. Vivia bem como caçador-coletor com seus comuns, que não se contatavam com os brancos. Mas entre o fim dos anos 60 e o início dos anos 70, o empreendimento em busca de ouro no interior do estado começou a criar problemas. Os brancos criaram uma estrada de ferro para conectar suas minas ao mar, bem por onde os Awá viviam.

– Covid-19 mata último homem do povo Juma; indígenas convivem com falta de dados e proteção

Os brancos não aceitavam os Awá e um dia sacaram as armas e os cachorros contra os indígenas. O pai de uma filha e um filho viu (quase) todos os companheiros de vida foram assassinados em um ato terrível do contínuo genocídio contra os povos originários. Karapiru – que significa gavião na língua awá – fugiu, sozinho.

Karapiru Awá era um símbolo de resistência dos povos isolados no Brasil

“Sua história resume o que o povo awá e outros grupos isolados enfrentaram, especialmente por ser uma fronteira em constante movimento. Ele é um símbolo de toda a luta e da saga desse povo, definitivamente de tudo o que eles passaram”, explica Louis Forline, antropólogo da Universidade de Nevada, em Reno, nos Estados Unidos, à National Geographic.

Por uma década, Karapiru perambulou pela Amazônia Oriental completamente sozinho. Sobreviveu em sua própria companhia na mata. Caçou e continuou andando, até chegar em locais onde não havia mais o que caçar. A paisagem era outra.

– Evangélicos missionários defendem que índios não tomem vacina contra covid-19

Carapiru passou a ver que havia animais em fazenda e os caçou. Um dia, flechou um porco. O dono da fazenda foi atrás dele. O encontrou e o chamou para comer com eles. Não sabia que língua falava aquele homem e chamou a Funai.

O então chefe da Funai, Sylvio Passuelo, foi à Bahia para tentar entender quem era Karapiru. Não conseguiu entender sua língua e o levou para Brasília. Suspeitava de que se tratava de um Awá e convocou um jovem indígena para estabelecer contato com o indígena.

Tiramukum começou a conversar e eles rapidamente se entenderam. E entenderam logo de cara que o encontro era de um pai e de um filho. Tiramukum também havia sobrevivido a emboscada. “Eles mataram minha irmã. Minha mãe estava morta. Achei que meu pai estivesse também. Vi que ele havia levado um tiro nas costas”, contou o filho à National Geographic.

Depois do reconhecimento, Karapiru voltou para seu povo, onde casou-se novamente, teve filhos e netos e viveu bem. Até que a doença trazida de avião pelos brancos lhe acometeu.

– ‘Respira Xingu’ alerta para pico de infecções e mortes por Covid-19 no coração da Amazônia

“Em minha visão, Karapiru representa o melhor que um ser humano pode ser, por conta de sua amicalidade e tranquilidade. É um grande exemplo de como podemos ser resistentes nas situações mais extremas”, explica Marina Magalhães, linguista que estuda o povo Awa.

Publicidade

Fotos: Reprodução/Youtube


Redação Hypeness
Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.