Diversidade

Filósofas negras fundamentais para a compreensão da diversidade social

Redação Hypeness - 19/08/2021 | Atualizada em - 23/08/2021

Mulheres negras sempre estiveram agindo e pensando dentro da sociedade. Apenas os olhos acadêmicos evitavam olhar para essas estudiosas como não apenas filósofas, mas como peças fundamentais para a compreensão da diversidade, do feminismo e das estruturas racistas de poder.

Qual é a aparência de um filósofo? Inevitavelmente, nossas imagens mentais são moldadas pelas estruturas racistas que logo nos enviam bustos masculinos de mármore branco da antiguidade greco-romana – Platão, Aristóteles, Cícero, Sêneca – e seus herdeiros europeus modernos – Descartes, Locke, Rousseau…

Mesmo hoje, a filosofia ocidental é predominantemente masculina e predominantemente branca – cerca de 97% nos EUA, perto de 100% na Europa. Assim, se faz ainda mais necessário diversificar o campo, expandir nosso imaginário mental e corporal, pensar através de outras perspectivas – muitas vezes mais conectadas com nossa própria realidade.

Repensar e agir para mudar as estruturas sociais é urgente. Listamos aqui algumas das grandes filósofas e pensadoras negras dos nossos tempos às quais todos devemos prestar (mais) a devida atenção:

1. Lélia Gonzalez (1935 – 1994)

Mineira nascida em Belo Horizonte, Lélia foi uma antropóloga, professora e filósofa ativamente engajada na construção do movimento negro no Brasil, sendo uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU) e do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN). As ideias e reflexões de Lélia Gonzalez partem do princípio da interseccionalidade, levando em consideração o racismo, o capitalismo e o patriarcado como problemas estruturais da sociedade. O termo Amefricanidade, cunhado pela filósofa, traz as influências indígenas e africanas para o foco da nossa formação histórica e cultural.

Ao reivindicar nossa diferença enquanto mulheres negras, enquanto amefricanas, sabemos bem o quanto trazemos em nós as marcas da exploração econômica e da subordinação racial e sexual. Por isso mesmo, trazemos conosco a marca da libertação de todos e todas. Portanto, nosso lema deve ser: organização já!

Foto de Lélia Gonzalez sentada e sorrindo para a câmera

2. Conceição Evaristo (1946)

Professora, linguista, pesquisadora e escritora, .Conceição Evaristo é uma das mais influentes figuras do movimento pós-modernista no Brasil. Nascida em Belo Horizonte, é participante ativa dos movimentos de valorização da cultura negra em nosso país e estreou na literatura em 1990, quando passou a publicar seus contos e poemas na série Cadernos Negros.

O olho do sol batia sobre as roupas estendidas no varal e mamãe sorria feliz. Gotículas de água aspergindo a minha vida-menina balançavam ao vento. Pequenas lágrimas dos lençóis. Pedrinhas azuis, pedaços de anil, fiapos de nuvens solitárias caídas do céu eram encontradas ao redor das bacias e tinas das lavagens de roupa. Tudo me causava uma comoção maior. A poesia me visitava e eu nem sabia…

3. Angela Davis (1944)

Um dos primeiros nomes citados quando falamos em feminismo negro, Angela Davis é filósofa e ativista política norteamericana que documenta e debate sobre questões que envolvem os direitos das mulheres, raça, classe e o estado do sistema de justiça criminal na América do Norte. Sua atuação começou na década de 60, ainda dentro dos movimentos dos Panteras Negras e Black Power. Marxista e  abolicionista, Angela cinco livros publicados, entre eles “Mulheres, Raça e Classe”.

Cadeias e prisões são projetadas para quebrar seres humanos, para converter a população em espécimes em um zoológico – obedientes aos nossos tratadores, mas perigosos uns para os outros

4. Omolara Ogundipe-Leslie (1940-2019)

Omolara Ogundipe-Leslie foi uma feminista, poetisa, crítica e editora nigeriana cujo trabalho se concentrava principalmente na opressão das mulheres africanas. Ela liderou os estudos feministas e de gênero na África, escrevendo para várias publicações acadêmicas e gerais.

Minha própria definição de feminista é um homem ou uma mulher que diz, sim, há um problema com o gênero como é hoje e devemos consertá-lo, devemos fazer melhor. Todos nós, mulheres e homens, devemos fazer melhor

5. Bell Hooks (1952)

Nascida dos Estados Unidos como Gloria Jean Watkins, Bell Hooks é uma feminista americana que escreve sobre a interseccionalidade de raça, capitalismo e gênero. Ela publicou mais de 30 livros, bem como uma série de artigos acadêmicos, além de figurar em documentários e palestras. Defende a multiplicidade do feminismo, além de ver no ensino uma ferramenta essencial no combate ao racismo estrutural.

É óbvio que muitas mulheres se apropriaram do feminismo para servir a seus próprios interesses, especialmente aquelas mulheres brancas que estiveram na vanguarda do movimento; mas, em vez de me resignar a essa apropriação, escolho reapropriar o termo “feminismo”, eu escolho focar no fato de que ser “feminista” em qualquer sentido autêntico do termo é desejar a todas as pessoas, mulheres e homens, a libertação dos padrões de papeis sexistas de dominação e opressão

6. Sueli Carneiro (1950)

Nascida em São Paulo, Sueli é filósofa, escritora e ativista antirracista do movimento social negro brasileiro. É Doutora em Filosofia pela USP e fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, em 1988, sendo considerada uma das mais relevantes pensadoras do feminismo negro no Brasil. Em 2018, a filósofa e ativista Djamila Ribeiro, cria o selo editorial Sueli Carneiro, inaugurado com uma coletânea em sua homenagem, em reconhecimento à importância de suas ideias e atuação.

Indignação sempre foi a palavra que mais me impulsionou. Odeio injustiça. Luto pela construção de uma sociedade multirracial e pluricultural, onde a diferença seja vivida como equivalência e não mais como inferioridade

7. Patricia Hill Collins (19)

Socióloga, filósofa e ativista, a estadunidense Patricia Hill Collins assina a autoria de “Pensamento Feminista Negro”, uma das principais obras que analisam a ligação entre gênero e raça como estrutura das opressões na sociedade. Já no livro “Interseccionalidade como Teoria Social Crítica”, ela explora os paralelos entre os desafios enfrentados pelos ativistas intelectuais dentro do conceito de interseccionalidade. É professora universitária e a primeira mulher a integrar  Associação Americana de Sociologia.

Suprimir o conhecimento produzido por qualquer grupo oprimido torna mais fácil para os grupos dominantes governar, porque a aparente ausência de dissidência sugere que os grupos subordinados colaboram voluntariamente em sua própria vitimização. Manter a invisibilidade das mulheres negras e nossas ideias, não apenas nos Estados Unidos, mas na África, no Caribe, na América do Sul, na Europa e em outros lugares onde as mulheres negras vivem agora, tem sido fundamental para manter as desigualdades sociais

8. Djamila Ribeiro (1980)

Filósofa, professora, escritora e ativista, Djamila Ribeiro é uma das principais representantes do feminismo negro e da luta antirracista no Brasil de hoje. É autora dos livros “O que é lugar de fala?” e “Quem tem medo do feminismo negro?”, entre outras obras sobre o tema. Mestra em Filosofia Política pela Unifesp, ela amplifica seu trabalho pela internet, atingindo milhares de pessoas de todas as idades e se tornando referência quando falamos de feminismo negro.

Esse regime de autorização discursiva impede que esses considerados ‘outros’ façam parte desse regime e tenham o mesmo direito à voz – e não no sentido de emitir palavras, mas de existência

Djamila Ribeiro

9. Maya Angelou (1928 – 2014)

Escritora e poeta estadounidense, Maya foi uma das primeiras mulheres negras a entrar para a lista de best sellers no país com “Eu sei porque o pássaro canta na gaiola”, livro onde conta sua própria trajetória de violências, abusos e superações. Publicado no livro And Still I rise (1978), o poema “Still I Rise” é seu texto mais conhecido e símbolo do movimento negro americano.

Ainda me levanto (And Still I rise)

Podes inscrever-me na História
Em mentiras amargas e retorcidas.
Podes espezinhar-me no chão sujo
Mas ainda assim, como a poeira, vou-me levantar.

Minha impertinência incomoda?
Por que ficas soturno
Ao me ver andar como se tivesse em casa
Poços de petróleo jorrando?

Como as luas e como os sóis,
Como a constância das marés,
Como a esperança alçando voo,
Assim me levanto.

Querias ver-me alquebrada?
Cabeça pensa e olhos baixos?
Ombros caídos como lágrimas,
Enfraquecida de tanto pranto?

Minha altivez o ofende?
Não leve tão a peito assim:
Eu rio como quem minera ouro
Em seu próprio quintal

Podes fuzilar-me com palavras
Podes lanhar-me com os olhos
Podes matar-me com malevolência
Mas ainda assim, como o ar, eu me levanto

Minha sensualidade perturba?
Por acaso te surpreende
Que eu dance como quem tem diamantes
Ali onde as coxas se encontram?

Do fundo das cabanas da humilhação
Me levanto
Do fundo de um pretérito enraizado na dor
Me levanto
Sou um oceano negro, marulhando e infinito,
Sou maré em preamar

Para além de atrozes noites de terror
Me levanto
Rumo a uma aurora deslumbrante
Me levanto
Trazendo as oferendas de meus ancestrais
Portando o sonho e a esperança do escravo
Ainda me levanto
Me levanto
Me levanto

Tradução de Walnice Nogueira Galvão

10. Hortense Spillers (1942)

Hortense Spillers é uma crítica literária americana, estudiosa do feminismo negro e professora. Seu trabalho se concentra no feminismo negro e na literatura afro-americana, com ênfase especial à estrutura familiar matriarcal nas comunidades negras. Ela é mais conhecida por seus ensaios sobre a literatura afro-americana, coletados em “Black, White e In Color: Essays on American Literature and Culture” (2003) e “Comparative American Identities: Race, Sex and Nationality in the Modern Text“(1991).

11. Dra. Kathryn Gines (1978)

Filósofa americana com trabalho centrado no aumento da diversidade dentro da Filosofia, reconhecendo a identidade feminina negra em relação à superação da opressão. É a fundadora do Collegium of Black Women Philosophers, uma organização criada para tornar as mulheres negras visíveis no campo da filosofia e permitir maiores oportunidades de networking e orientação para essas mulheres.

12. Joyce Mitchell Cook (1933-2014)

Cook foi a primeira mulher negra nos Estados Unidos a receber um PhD em filosofia em 1965 em Yale. Ela foi editora-chefe da Review of Metaphysics, lecionou na Howard e trabalhou na Casa Branca como redatora e editora de Jimmy Carter. Sua área de interesse é a ética e a filosofia social e política e ela estava trabalhando em um manuscrito sobre o conceito da experiência negra.

13. Dra. Anita Allen

Allen é a primeira mulher afro-americana a ter um JD e um PhD em filosofia, com especialização em filosofia política e jurídica. Em 2010, ela foi nomeada pelo presidente Obama para a Comissão Presidencial para o Estudo de Questões Bioéticas.

“A voz situada de Allen é consistente com as vozes retumbantes das mulheres negras ao longo da história americana que se recusaram a ficar em silêncio diante da hipocrisia e da desumanização. Sua experiência fala da mentira daqueles filósofos que se consideram divinos e estão além do corpo; funciona como um alerta para qualquer pessoa que tenha a ilusão de que o campo profissional da filosofia é aquele onde reina a razão pura, o sexismo e o racismo não têm lugar e onde as pessoas de cor são tratadas com o máximo respeito”, Yancy, 2008.

14. Kimberlé Crenshaw

Acadêmica e escritora pioneira sobre direitos civis, teoria crítica da raça, teoria jurídica feminista negra e raça, racismo e a lei. Além de sua posição na Columbia Law School, ela é uma distinta professora de direito na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. O trabalho de Crenshaw tem sido fundamental na teoria racial crítica e na “interseccionalidade”, um termo que ela cunhou para descrever o duplo vínculo do preconceito racial e de gênero simultâneo.

Em cada geração, em cada esfera intelectual e até mesmo em cada momento político, existiram mulheres afro-americanas que se articularam a partir da necessidade de pensar e falar sobre raça através de uma lente que observe a questão de gênero, ou pensar e falar sobre femininsmo através de uma lente que observe a questão de raça. Portanto, esse conceito é uma continuidade disso

Publicidade


Redação Hypeness
Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.