Ciência

Nordeste abriga deserto do tamanho da Inglaterra criado pela destruição da Caatinga

Vitor Paiva - 17/08/2021 | Atualizada em - 20/08/2021

Se quando pensávamos em um deserto costumávamos vislumbrar regiões da África ou do Oriente Médio, as queimadas, o desmatamento, as mudanças climáticas e o impacto da ação humana fazem com que hoje o deserto seja cada vez mais aqui no Brasil. É o que comprova o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) de 2021, criado pela ONU, que tragicamente mostra como o impacto da ação humana mudou o cenário da região do Semiárido, englobando o norte de Minas Gerais e uma parte imensa do Nordeste que, somando as secas intensas e temperaturas mais altas com o vasto desmatamento, vem enfrentando um processo intenso de desertificação.

Quadro de desertificação na região registrado por satélites é o pior do período histórico

Quadro de desertificação na região registrado por satélites é o pior do período histórico © Google/reprodução

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O deserto brasileiro já é tão grande que equivale em dimensões ao tamanho da Inglaterra, superando limites de quase 130 mil quilômetros quadrados onde simplesmente não há mais atividade biológica nos solos: em tais condições, micro-organismos fundamentais para a sobrevivência das plantas não resistem, e assim vem acabando a vida na terra da região. Com temperaturas que se aproximam dos 50 graus, há partes do Semiárido em que nem mesmo as chuvas podem mais salvar – que já se tornaram desertos de fato.

deserto no semiárido do Brasil

Em muitas partes do deserto nordestino o solo se encontra essencialmente morto © Getty Images

-Indonésia reduz desmatamento em 75%

O relatório lembra não só que o nordeste brasileiro é a área seca mais densamente povoada do mundo, como aponta um futuro ainda pior: segundo o IPCC, na década de 2030 o aumento na temperatura médio deve chegar a 1,5ºC, e na região do Semiárido o verão será frequentemente acima dos 40ºC. O quadro, porém, é de tal forma agravado pelas mudanças climáticas e o desmatamento que acaba, no Brasil, que até mesmo os paradigmas do que formam um deserto se alteram diante do que ocorre no Semiárido brasileiro.

Deserto mesmo com chuva

Pois tecnicamente as regiões de clima desértico são aquelas onde o nível anual de chuvas é inferior a 250 mm pelo período. Essas, porém, não são as condições climáticas de nenhuma região do Brasil, nem do semiárido, onde chove em média entre 300 a 800 mm por ano. O deserto brasileiro, portanto, é definido pelo impacto das mudanças e o desmatamento desenfreado na caatinga, ecossistema natural da região, em quadro de desertificação que, após a pior seca registrada na história ao longo dos últimos anos, afeta 94% do semiárido no país.

Mapa mostrando os diferentes níveis de desertificação na região

Mapa mostrando os níveis de desertificação na região © Universidade Federal de Alagoas

-A história pouco contada dos campos de concentração da seca no Nordeste 

A caatinga é o quarto maior bioma do Brasil, cobrindo cerca de 11% do território nacional, mas possuindo hoje menos da metade de sua vegetação original – estima-se que 53,5% dessa cobertura tenha se perdido nas últimas décadas, em especial desde 1985 pra cá. A situação de desertificação da região semiárida brasileira careceria não só de intenso combate ao desmatamento, mas também de alto investimento que não ocorre para ser recuperada, e a ausência de políticas públicas pela reversão pode tornar tal trágico quadro em permanente no norte de Minas e no Nordeste do país.

deserto no semiárido do Brasil

O nordeste brasileiro é a região seca mais populosa do mundo © Getty Images

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.