Ciência

Nos EUA, 99% de mortes por covid são de pessoas que não se vacinaram

Vitor Paiva - 06/08/2021

Os evidentes – e trágicos – efeitos do negacionismo e do movimento antivacina já são medidos em todo o mundo, e nos EUA já se diz que uma nova onda da pandemia vem se dando de forma inclemente e ao mesmo tempo localizada: exatamente entre aqueles que se recusaram a tomar o imunizante devido. No país que vacinou completamente metade de sua população, ainda que o número de casos letais venha caindo de modo geral justamente por conta da vacinação, os números de infecções vêm crescendo nas últimas semanas, e provocando mortes desenfreadas justamente nas regiões onde a resistência à vacina é maior.

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O preocupante quadro pandêmico atual nos EUA foi reportado pela BBC, mostrando que hoje a pandemia cresce e se espalha em especial nos estados reconhecidamente mais conservadores – em fenômeno que o que assessor da Casa Branca para doenças infecciosas, Anthony Fauci, chamou recentemente de uma “pandemia entre os não vacinados”. Segundo o médico Vivek Muthy, porta-voz do país para saúde pública, no momento 99,5% das cerca de 3 mil mortes semanais que ainda sucedem nos EUA por conta da Covid-19 se deram entre pessoas que não foram ainda vacinadas.

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Os EUA atualmente contabilizam cerca de 165 milhões de pessoas totalmente vacinadas – cerca de 50,4% da população – e 192 milhões com pelo menos uma dose – equivalente a 58,7% da população total –, algumas regiões hoje veem os números de casos e óbitos voltarem a sair do controle. De maioria republicana, estados como Alabama, Misisipi, Arkansas, Georgia, Tennessee, Oklahoma têm menos de 40% da população completamente vacinada, e apresentam crescimento intenso em casos e óbitos – especialmente comparados, por exemplo, a estados como Vermont e Massachusetts, onde a imunização supera a cada dos 65%, e a situação se apresenta consideravelmente mais controlada.

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A propagação da variante Delta no país torna tal quadro ainda mais grave. Por se tratar de uma forma mais contagiosa e letal, a situação pode se tornar realmente emergencial em tais regiões e entre as populações. Aos poucos, as medidas de afrouxamento e mesmo de retirada dos protocolos que começavam a ser colocadas em prática no país vão sendo retomadas, e o uso de máscaras e distanciamentos novamente vão sendo exigidos enquanto a vacinação não avança ainda mais e mais rápido: algumas agências e empresas estão exigindo que seus funcionários tomem a vacina.

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A situação nos EUA é um importante alerta não só para o país, mas para o resto do mundo: segundo dados oficiais, mais de 104 milhões de pessoas já tomaram a primeira dose no Brasil, em número equivalente a cerca de 49,14% da população do país. Em situação de completa imunização, porém, com duas doses tomadas, o número cai para pouco mais de 43 milhões de pessoas, equivalentes a 20,61% da população. Assim, é inevitável concluir que, se a vacinação não se acelerar por aqui, o futuro próximo será de uma “pandemia entre os não vacinados” em solo brasileiro.

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© fotos: Getty Images


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.