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Gatilho:‌ ‌como‌ ‌o‌ ‌’conto‌ ‌da‌ ‌barriga‌ ‌chapada’‌ ‌pós-parto‌ ‌afeta‌ ‌emocional‌ ‌de‌ ‌puérperas‌

Redação Hypeness - 26/08/2021 | Atualizada em - 29/08/2021

A aceitação do próprio corpo não costuma ser tarefa fácil. Especialmente entre as mulheres, o processo tende a levar tempo, reflexão e entendimento. Se enxergar no espelho com olhos amorosos diante do que se vê é um desafio dentro de uma sociedade que ainda é regida por parâmetros impostos pela “ditadura da beleza” e pelo machismo. 

Padrões de beleza: as consequências graves da busca por um corpo idealizado

No caso de mulheres que acabaram de passar por uma gravidez, o percurso é ainda mais complexo. O nascimento do bebê é um momento de muita alegria, mas também de muita vulnerabilidade quando se fala das puérperas. As mudanças que a gestação inflige ao corpo são notórias e passam longe do que as influencers do Instagram mostram ou capas de revista consideram o mais bonito. 

A “barriga chapada”, que muitas famosas ostentam, não é problema algum. Há pessoas que têm uma tendência natural maior a retomar a forma física depois de uma gravidez, por exemplo. O problema está em fazer dessa barriga chapada um objetivo a qualquer custo ou um gatilho de insegurança. 

Colocar o corpo da mulher como ator principal de um pós parto é, de certa forma, negligenciar aquela nova vida que foi gerada e também o novo momento que uma família abraça. 

Mulheres estão postando fotos de seus corpos pós-parto para celebrá-los ao invés de esconder

A psicóloga Marinalva Callegario alerta que comparar o seu corpo com outros corpos é um perigo que leva as pessoas à insatisfação. Ela também destaca o papel que a pandemia exerceu para piorar essa conjuntura. 

A pandemia afetou isso porque as pessoas passaram muito mais tempo nas redes sociais. Houve um momento em que as pessoas não puderam sair ou fazer qualquer outro tipo de atividade, com tudo fechado. E aí vai para as redes sociais vivendo uma vida virtual e não verdadeira”, reflete. 

Em entrevista ao jornal “Metrópoles”, o psiquiatra Fábio Aurélio Leite chamou de “doentio” esse tipo de comportamento da estética e da beleza sobre um “corpo atlético, mas não saudável”. “Isso pode ser patológico e requerer um tratamento“, alerta.

Devemos promover comportamentos saudáveis, fazer o que é certo. Mesmo mulheres que trabalham e contam com uma boa renda não terão isso. A licença-maternidade poderia ser também uma licença da rede social, para que as pessoas priorizassem outras coisas. Quando elas postam isso, prestam um desserviço para a sociedade”, observa. 

A autora e palestrante americana January Harshe criou uma página no Instagram para falar sobre a realidade do corpo da mulher e da vida após o nascimento de um bebê. Cada relato e cada foto publicados ali revelam testemunhos sinceros e incentivadores para quem quer que esteja passando por momentos de insegurança no puerpério. 

Como alguém pode achar isso feio? Isso é a maternidade. É a minha história marcada, literalmente, no meu abdômen. Isso é o que dois bebês saudáveis e dois abortos em 11 anos parecem para mim“, escreveu uma das mulheres do projeto, ao publicar sua foto com a barriga flácida e cheia de marcas, ao lado dos dois filhos.

Isso é pós-parto. À primeira vista, minha conversa negativa consigo mesmo pensa que esta é provavelmente a foto mais desfavorável já tirada de mim. Vejo queixo duplo, uma barriga que parece que ainda abriga um bebê, estrias, celulite e muito peso extra. Deixe de lado essa conversa autodepreciativa e essa foto feita pelo meu marido me faz sentir muitas coisas. Nunca me senti mais forte, guerreira e mamãe princesa do que nesses primeiros minutos e horas pós-parto (sim, mesmo com a fralda gigante de adulto)”, colocou outra puérpera. 

Crescer e dar à luz um pequeno humano é um ato tão cru, transformador, totalmente milagroso, e mal posso acreditar como meu corpo é forte e incrível. E este pequeno humano que criamos… O amor é avassalador, totalmente alucinante!

As mulheres são realmente incríveis (os homens também são ótimos), e nunca devemos duvidar de nossa força e poder ou deixar que a nossa cabeça nos faça sentir nada menos do que as deusas que somos!“, finalizou. 

 

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Fotos: TakeBackPostpartum/Instagram


Redação Hypeness
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