Ciência

Proporção áurea: suposta descoberta matemática grega pode ter raízes africanas

Vitor Paiva - 17/08/2021 | Atualizada em - 19/08/2021

A proporção áurea é a aplicação matemática e gráfica de uma assimetria encontrada em diversos elementos e estruturas da natureza – e se a origem grega de tal cálculo sempre foi reconhecida, novas investigações sugerem que as raízes dessa premissa que determinou diversas tradições europeias clássicas do design e da arte podem estar, me verdade, em diversos países do continente africano. Estudos históricos diversos sugerem que os gregos antigos tinham sim conhecimento de tal cálculo, mas que este não era aplicado na arquitetura e na arte grega, mas sim, encontrado em construções e mesmo em técnicas de tecelagem no continente africano por volta do século XIII.

Representação gráfica e matemática da Proporção Áurea

Representação gráfica e matemática da Proporção Áurea

-A proporção áurea está em tudo! Na natureza, na vida e em você

A aplicação dessa proporção determinada costumeiramente pela letra grega phi, e que utiliza uma espécie de simetria espiral para tornar projetos visuais e mesmo arquitetônicos mais atraentes: a partir de uma proporção determinada em um raio de 1: 1.618 aproximadamente, o resumo mais simplificado possível seria partir de um retângulo e dividi-lo em versões menores dele mesmo para que essas subdivisões estejam como que “embutidas” dentro do formato maior – criando assim uma espiral. O cálculo é baseado na Sequência de Fibonacci, também uma sequência encontrada em toda a natureza e determinada pelo matemático italiano do século XIII Leonardo Fibonacci: teria sido ele o responsável por levar a proporção áurea da África para a Europa.

A proporção áurea em um fóssil de uma concha de milhares de anos

A proporção em um fóssil de uma concha de milhares de anos

A proporção áurea em flores

A proporção também é notada em diversas plantas e flores

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Na tradição grega prevalecia, até mesmo pelas noções de perfeição platônicas, os cálculos e números exatos, e não uma proporção dita quebrada como a do valor aproximado de 1: 1.618 – na África, porém, o uso de tal proporção e muito anterior aos registros europeus é fartamente documentado. O Palácio do Sultão de Logone-Birni, em Camarões, é um exemplo histórico precioso, e o mesmo vale para técnicas de tecelagem Kente antigamente usada por reis em Gana, utilizada para a confecção de togas e outros usos do tecido na região – a técnica é essencialmente baseada naquilo que se tornaria o cálculo da tal Sequência de Fibonacci.

O Palácio do Sultão de Logone-Birni, em Camarões

O Palácio de Logone-Birni, em Camarões, projetado em precisa proporção áurea 

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O templo de Karnak e diversas vilas no Egito eram também projetadas pela sequência e nas noções áureas – e se os registros da proporção na literatura científica europeia são posteriores, é impossível não lembrar que o matemático italiano estudou justamente no norte da África. Reconhecer a origem de tal importante noção matemática, arquitetônica e visual é ao mesmo tempo potencialmente contrariar visões preconceituosas historiográficas sobre o continente, bem como evidenciar tal racismo e ampliar ainda mais a importância dos conhecimentos africanos apagados ao longo dos anos.

Os tecidos Kente, em Gana, são feitos a partir da Sequência de Fibonacci

Os tecidos Kente, em Gana, são feitos a partir da Sequência de Fibonacci há séculos

Sem a proporção áurea não haveria, por exemplo, a revolução da escola moderna suíça de design, considerada uma das mais importantes e influentes da história, que se revelaria, no início do século XX, base para algumas das mais importantes escolas de design e arquitetura modernas no mundo.

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© fotos: Getty Images


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.