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‘Rota do Absinto’ esconde garrafas da bebida em floresta suíça

Vitor Paiva - 09/08/2021 | Atualizada em - 01/09/2021

Na região onde a bebida mais forte do mundo foi criada, hoje existe uma “trilha alcoólica” na qual garrafas de absinto são escondidas entre árvores – ofertadas pela “fada verde” aos passantes, sedentos por sabor e intensidade, como parte de uma tradição de mais de dois séculos. Pois o absinto é uma bebida de alto teor alcoólico, criada na cidade suíça de Colvert no final do século XVIII para servir como remédio, tendo o anis e ervas diversas como base. Sua popularização, porém, não se deu como medicamento, mas sim como drinque, em intensidade tamanha que se crê que ela ajudou a tornar o alcoolismo um problema endêmico que, depois de abalar a Europa da Belle Époque, acabou proibida na Suíça em 1908 – e em seguida no resto do continente.

absinto

O absinto é comumente servido com um torrão de açúcar sobre o copo © Getty Images

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Com teores entre 65% a até mais de 75%, a lenda reza que o absinto – apelidado justamente de “fada verde” – provocava alucinação, epilepsia, loucura e levava ao suicídio: segundo consta, Van Gogh estaria sob o efeito da bebida quando agrediu Gauguin e quando cortou a própria orelha, assim como estaria o poeta Paul Verlaine quando atirou em Rimbaud durante uma discussão. Verdade ou exagero, é fácil de compreender o motivo pelo qual a proibição durou quase um século: o absinto só voltou a poder ser produzido e vendido na região do vale de Val-de-Travers, onde a bebida foi criada, em 2005 – e com isso nasceu a rota do absinto pelas montanhas do Jura, na fronteira entre a Suíça e a França: é lá que as garrafas “nascem” na floresta.

"Rota do Absinto"

A “Rota do Absinto” é atração em Val-de-Travers © Flickr

Rota do Absinto

A bebida também costuma ser servida com gelo moído © Nicolas Giger

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A rota atravessa a floresta da região onde outrora se localizavam as destilarias e hoje se encontram as chamadas “fontes geladas”, que remontam o clima de mistério e embriaguez que por tanto tempo marcou a produção e o consumo de absinto – e é nesse caminho que se encontram as garrafas escondidas. “Às vezes somos nós que substituímos as garrafas vazias, às vezes é a própria fada verde”, brinca Yann Klauser, diretor do Museu do Absinto, inaugurado em 2014 no município de Môtiers – as garrafas guardadas nas árvores é um hábito que se iniciou na região ainda no século XIX, como oferta aos trilheiros nos caminhos gelados de Val-de-Travers.

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Nas “fontes” escondidas costuma se oferecer também água limpa © Nicolas Giger

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Fonte “A Louis” – onde a garrafa fica escondida na caixa de correio © Cecilia Haynes

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Essa tradição se tornou uma espécie de peça de resistência durante o período de proibição, quando os produtores de absinto permaneceram clandestinos – apesar do interdito, a bebida jamais deixou de ser fabricada e consumida por lá, em tradição que se valeu do isolamento do local para poder se manter. Hoje as garrafas e a produção regional são atrações turísticas, e a intensidade e a qualidade da bebida são devidamente controlados – mas o mistério permanece: os pontos exatos onde as fontes se encontram são segredos até mesmo entre os locais, mantido pelo seleto grupo de destiladores, que prometem passeios guiados para quem quiser cruzar a rota – e às profundezas dos embriagantes efeitos do absinto.

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Em alguns casos a bebida é servida com o torrão em chamas © Getty Images

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.