Arte

Roteiro de estátuas e monumentos sobre ícones da cultura negra em São Paulo

Redação Hypeness - 23/08/2021 | Atualizada em - 26/08/2021

O debate sobre a remoção de estátuas ofensivas como a de Borba Gato e as recentes pesquisas mostrando a falta de representatividade negra nas ruas de São Paulo, levaram a prefeitura a anunciar a instalação de estátuas e monumentos homenageando importantes representantes da cultura negra.

Hoje, a cidade conta com 367 monumentos, dos quais 200 representam figuras humanas. Destes, apenas 6 – um total de 2% – são pessoas negras. A conta fica pior quando separamos por gênero. São 24 representações femininas contra 169 masculinas, sendo apenas 1 mulher negra.

Outro dado (que deveria, mas não) choca é a localização dessas esculturas. Enquanto 39 distritos da cidade não têm nenhum monumento, 10 distritos têm mais de 10. Os que contam com estátuas em maior número são Moema (44 monumentos), Sé (43 monumentos), República (37 monumentos), Jd. Paulista (24 monumentos) e Consolação (23 monumentos).

 

Mapa dos monumentos de São Paulo | Crédito: Instituo Pólis

Enquanto aguardamos a instalação das novas peças em homenagem a escritora Carolina Maria de Jesus, o atleta Adhemar Ferreira da Silva, os cantores e compositores Itamar Assumpção e Geraldo Filme e a sambista e ativista Madrinha Eunice, listamos os sete monumentos que homenageiam pessoas negras na cidade e suas localizações.

Quase todas as estátuas, com excessão de Marighela, estão no centro da cidade e podem ser visitadas em um passeio de bicicleta de 24 minutos. De metrô, comece o passeio pela Praça da Sé.

Vamos nessa!

Tebas

Praça Clóvis Beviláqua – Sé
Na Praça integrada à Sé está a escultura de Joaquim Pinto de Oliveira, mais conhecido como Tebas. O arquiteto viveu no século 18 e foi responsável pela fachada de diversas igrejas de São Paulo e pelo primeiro chafariz público da cidade. Sua escultura tem 3,6 metros de altura e 1,5 metros de largura.

Joaquim era tão bom no que fazia que ganhou do povo o apelido de Tebas, termo na língua quimbundo sinônimo de quem exerce seu ofício com louvor. O monumento foi projetado por Lumumba Afroindíngena e pela arquiteta Francine Moura e entregue em 20 de novembro de 2020. A obra fica em frente a Igreja da Ordem 3ª do Carmo, no centro de São Paulo.

O engraxate e o jornaleiro

Praça João Mendes – Sé
A escultura “Contando a féria” ou “O Engraxate e o jornaleiro”, foi criada pelo italiano Ricardo Cipicchia e inaugurada em 1950, sendo uma das mais antigas da cidade. Feita em bronze, a peça retrata duas profissões muito comuns na primeira do século 20 nas cidades brasileiras: engraxate e vendedor de jornais. A obra foi derrubada por um temporal em 2002 e só voltou ao local em 2008 por ação da advogada Carmem Patrícia Coelho Nogueira, integrante do movimento “Ação Local João Mendes”, filiado ao “Viva Centro”.

Zumbi dos Palmares

Praça Antônio Prado
O líder do Quilombo de Palmares ganhou uma pequena (tanto que quase passa despercebida) homenagem de 2,2 metros de altura, em 2016, feita pelo artista plástico José Maria Ferreira dos Santos. Sua figura é apresentada em posição de alerta, portando uma arma de defesa chamada mukwale, símbolo de poder, usada por grandes guerreiros africanos. O local foi escolhido para homenagear este ponto que abrigava antigamente a primeira Igreja Rosário dos Homens Pretos, que foi removida em 1903 pelo então prefeito Antônio Prado para dar lugar à Bolsa de Café, antiga Bovespa, hoje B3.

Mãe Preta

Largo do Paissandú – Republica
A estátua sugerida pelo Clube 220, entidade que reunia a “família de cor” de São Paulo, por meio de seu presidente, Frederico Penteado, foi instalada em 1955 ao lado da Igreja Nossa Senhora Rosário dos Homens Pretos. O monumento que apresenta uma ama de leite, escrava que amamentava os filhos das famílias brancas, foi desenhado por Julio Guerra (1912-2001), artista descendente de família nobre que também projetou a bizarra estátua do Borba Gato. Ainda que a estátua de cabeça pequena e mãos, pés e seios desproporcionais, ela é um importante ponto para movimentos negros e feministas. Tanto a Marcha das Mulheres Negras de São Paulo quanto o bloco afro Ilu Obá de Min terminam seus cortejos nela.

Gari, copeira, faxineira e jardineiro

Praça Marechal Deodoro
Inaugurado no aniversário de São Paulo, em 25 de janeiro de 2011, o monumento foi oferecido à cidade pelo Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Prestação de Serviços de Asseio, Conservação e Limpeza Urbana de São Paulo (Siemaco). A obra do artista plástico Murilo Sá Toledo tem 1,65m de altura e é um conjunto de quatro esculturas que representam algumas das categorias representadas pelo sindicato: o gari, a copeira, o jardineiro e a faxineira.

Luiz Gama

O jornalista, advogado e escritor Luiz Gama foi um dos maiores intelectuais e abolicionistas do século 19. Escravo liberto, Doutor Gama foi responsável por libertar mais de 500 pessoas escravizadas nos tribunais. Seu busto feito por Yolando Mallozzi foi instalado em 22 de novembro de 1931, por iniciativa do Jornal Progresso, veículo da imprensa negra, e se tornou o primeiro monumento público em homenagem a um líder negro na cidade. Ainda que pequeno e em meio à outras estátuas colocadas na mesma praça, a de Gama olha atentamente para a Rua Rego Freitas, que faz referência a um juiz com quem travou dezenas de batalhas jurídicas pela libertação de negros.

Carlos Marighella

Alameda Casa Branca, 817, Jardim Paulista
Um pouco mais distante das demais e colocada em um dos bairros mais elitizados da cidade está a estátua do guerrilheiro Carlos Marighella, um dos principais líderes da luta armada contra a ditadura. Em meio aos Jardins, a pedra foi instalada em 1999 com os escritos: “aqui tombou Carlos Marighella em 4/11/69, assassinado pela ditadura militar”. Meio apagada pelo mau trato dos passantes que a usam como banheiro para cães pomposos de apartamento, ela é constantemente depredada. O último ataque aconteceu em julho de 2021, quando o memorial foi coberto de tinta vermelha.

Qual a chance da polícia paulistana investigar e prender o vândalo responsável pelo ato? Algumas coisas não mudam na metrópole e a preferência por assassinos, desde que brancos, é uma das provas.

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Redação Hypeness
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