Criatividade

Transição de carreira depois dos 30: medos, incertezas, conquistas e satisfações

Gabryella Garcia - 19/08/2021

A transição de carreira nada mais é do que o movimento no qual um profissional decide mudar sua área de atuação ou até mesmo o posicionamento dentro de uma mesma área. Essa movimentação geralmente é considerada quando a pessoa não está muito satisfeita com os rumos de sua vida profissional. Mas essa decisão de mudança radical também vem acompanhada de muitos medos, incertezas e dilemas. Para nos ajudar a entender quais são as principais nuances de movimentação profissional, o ‘Prosa’ convidou a ex-administradora e professora universitária, e atual artesão, Fernanda De Nadai, a ex-veterinária e atual confeiteira, Suellen Paganini e o ex-físico e músico e atualmente padeiro, Ramiro Murillo, para um debate.

Muitas questões de insatisfação em uma antiga carreira podem estar relacionadas a empregabilidade e salário, ou então questões mais pessoais como motivação ou até mesmo um propósito de vida. Entretanto, durante a pandemia, com muitas pessoas perdendo seus empregos ou tendo salários reduzidos, a transição de carreira também se tornou de certa forma uma necessidade ou alternativa para manter um padrão de vida ou renda.

As razões podem ser diversas, mas é fato que é necessário muita coragem e certeza para fazer esse tipo de movimentação, uma vez que as pessoas também carregam um fardo social muito grande sobre qual carreira devem seguir. Para Ramiro, a história de que uma pessoa tem apenas uma profissão é uma ilusão, na verdade nenhuma pessoa faz uma coisa só.

“Comecei seguindo um pouco das indicações do meu pai com a física e ciência, e depois me firmei nas artes, onde fiquei muitos anos. Na física conheci muito músicos e depois passei também pela dança e yoga até que o pão junto tudo. A sala de padaria é uma sala de laboratório, um ateliê, uma sala de experimentos, de meditação e também uma loja. Eu entendi que é algo que me move e também tem o trabalho manual que eu acho fundamental para a mente”.

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Já Fernanda, apesar de uma mudança radical na carreira, desde criança já flertava com sua veia empreendedora. Aos 10 anos começou a comprar bijuterias para vender na escola, onde também vendia desenhos. Mas, a vida acabou lhe levando para outros caminhos até que teve o insight de voltar às origens e ao que realmente gostava.

“Sempre senti um bem-estar quando estava conectada com artes manuais e com empreendedorismo. Mas no momento que precisei escolher uma formação, por pressão da família e outras pessoas ao redor, acabei fazendo administração. Depois me envolvi com o ensino que também sempre foi uma paixão e comecei uma carreira acadêmica, com as artes manuais ficando apenas como hobby. Fiquei muitos anos como professora universitária e chegou o momento que comecei a perceber que estava vivendo no piloto automático e trabalhando das 5h até quase meia noite. Nessa hora disse que deveria colocar o pé no freio e voltar para mim, fazer o que eu gostava. Aí pedi demissão, deixei as aulas e parti para o artesanato e o empreendedorismo”.

Suellen, por outro lado, seguiu uma de suas paixões de infância. O problema, ou nessa caso sorte, era que na verdade eram duas diferentes paixões que lhe acompanhavam desde criança. Depois de se formar e atuar como veterinária, até por uma dificuldade financeira, passou a fazer doces para completar a renda e, pouco depois, o que era complemento acabou se tornando a principal fonte de renda.

transição de carreira pão padaria

Depois de se arriscar na física, música, dança e yoga, Ramiro Murillo se encontrou na padaria

“Fui uma criança apaixonada por animais, como a maioria dos veterinários, mas também era apaixonada por programas de culinária. Ajudava minha mãe fazer bolos e os primeiros contatos com a cozinha são da infância. A veterinária entrou na minha vida pelos animais de estimação que criei uma relação de amor, e quando minha cachorrinha partiu eu falei que iria estudar veterinária para salvar os animais. Ainda na faculdade fiz cupcakes para vender, depois de formada fazia brigadeiros para vender no hospital e foi um sucesso. Eu não queria acreditar na transição de carreira, tinha medo e vergonha, mas se tivesse feito antes seria muito mais feliz. Na época eu pensava muito no que as pessoas iam pensar ou falar”.

Momento da transição de carreira

Fernanda também destacou durante a prosa que é muito importante que a pessoa se conheça e saiba seus valores para tomar esse tipo de decisão, sem se importar com o que as outras pessoas possam pensar. “Alguns pontos para pensar na transição são a flexibilidade de horário, o reconhecimento dos outros, a liberdade e também o impacto social do trabalho. A ideia de que o registro em carteira ou uma carreira tradicional é mais segura já caiu por terra e hoje vemos que não existe emprego seguro”.

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Há também questões sociais e de oportunidades que podem influenciar, facilitando ou dificultando, esse tipo de decisão. Ramiro pontuou que foi uma pessoa que teve um privilégio muito grande de poder escolher e mudar de carreira mais de uma vez, mas que grande parte das pessoas precisam trabalhar para se sustentar e manter uma estabilidade e não tem essa opção. “Existem muitas situações diferentes de acordo com históricos pessoais e até mesmo localidades e tudo isso acaba influenciando nessa decisão”, completou.

Por outro lado, Sullen afirmou que não pensou muito nas possibilidades e acabou tomando uma decisão completamente passional. Ela também contou que teve apoio da sua mãe desde o início e que seu pai, que foi reticente no início, até ajudou com entregas e vendas de porta em porta até o negócio engrenar. “Quando começou a dar certo meu marido também abandonou a veterinária e começou a se envolver na produção, foi muito libertador tudo isso”.

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O episódio também abordou questões como a equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, rotina, relação com os filhos, motivações, pandemia e muito mais!

Ficou curioso para saber o que mais rolou nessa prosa? Então aperta o play, sinta-se em casa e vem com a gente! Ah, também guardamos dicas culturais incríveis para você nesse episódio enquanto aprecia um café com BIS Xtra, que tem muito mais chocolate e traz o descontrole na dose certa, afinal, é impossível comer apenas um!

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Fotos: Getty Images e Arquivo Pessoal


Gabryella Garcia
Gabryella Garcia é paulista, mulher trans, transfeminista e jornalista pela Unesp. Começou a carreira escrevendo horóscopos para o João Bidu e agora foca em escrever sobre direitos humanos e recortes de gênero. Já passou por veículos de São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo e também colaborou para veículos como Ponte Jornalismo, Congresso em Foco e Elle Brasil. Atualmente, além de produzir o podcast "Prosa", para o Hypeness, também colabora com o UOL. Além disso atua como voluntário no Projeto Transpor, um projeto que oferece consultoria profissional gratuita para pessoas transgêneros com montagem de um currículo assertivo, Linkedin e simulação de entrevistas de emprego.