Arte

Adeus a Melvin Van Peebles: como o cinema ‘Blaxpolitation’ abriu espaço para os negros em Hollywood

Vitor Paiva - 30/09/2021 | Atualizada em - 04/10/2021

Foi o diretor estadunidense Melvin Van Peebles que iniciou o movimento conhecido como Blaxploitation, através do qual a cultura negra, artistas negros e temas pungentes da realidade racial da época tomaram as telas de forma contundente e sem pedir licença. Van Peebles faleceu no último dia 22 de setembro, aos 89 anos, como um dos mais originais e influentes nomes do cinema dos EUA: surgido no início dos anos 1970 como uma forte e influente novidade estética e política, o Blaxploitation é considerado inaugurado pelo filme Sweet Sweetback’s Baadasssss Song, dirigido por Van Peebles em 1971.

O icônico diretor Melvin Van Peebles

O icônico diretor Melvin Van Peebles, falecido aos 89 anos © Melvin Van Peebles/Divulgação

-O maior superpoder no cinema é levar a representatividade às telas

“Temos a tristeza de anunciar a morte de um gigante do cinema americano, Melvin Van Peebles, que faleceu durante a noite em sua casa, com sua família, aos 89 anos”, escreveu seu filho, o ator Mario Van Peebles, em comunicado. “Em uma carreira incomparável, Van Peebles deixou uma marca indelével no cenário cultural internacional. Sua falta será profundamente sentida”, seguiu o texto. Melvin Van Peebles escreveu, dirigiu, financiou e estrelou Sweet Sweetback’s Baadasssss Song como um filme de baixo orçamento, exibido inicialmente somente em duas salas, mas que alcançou grande sucesso e arrecadou mais de 15 milhões de dólares – além de iniciar o movimento que influenciou diretamente nomes como Barry Jenkins e Spike Lee, entre muitos outros.

Peebles atuando em cena do filme

Peebles atuando em cena do filme © reprodução/divulgação

-Série de fotos histórica escancara o racismo nos EUA da década de 1950

O filme se tornou a obra independente mais rentável da história à época ao contar a história de um homem que trabalha com shows eróticos mas que acaba matando dois policiais que antes agrediram um membro dos Panteras Negras. Violência, sexo e racismo eram, portanto, temas tratados de forma frontal, levando a linguagem e a realidade das ruas para as telas: o Blaxploitation foi também alvo de muitas críticas, que afirmavam que o gênero reafirmava estereótipos sobre a comunidade e a cultura negra no país.

O diretor e ator Martin Van Peebles diante de um pôster à época em que o filme estava em cartaz

O diretor e ator, diante de um pôster à época em que o filme estava em cartaz © Melvin Van Peebles/Divulgação

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Além dos temas, o estilo era marcado por incríveis trilhas sonoras: o filme Shaft, de 1971 e também considerada obra fundante do gênero, é o perfeito exemplo, com uma das trilhas mais incríveis da história do cinema, assinada por Curtis Mayfield. No filme de Van Peele, a trilha foi realizada pela banda Earth, Wind & Fire e acabou tendo uma função além de simplesmente oferecer a brilhante música para compor o filme: como não tinham dinheiro para maiores publicidades, o lançamento do disco foi realizado antes do filme, como forma de divulgar a obra.

Melvin Van Peebles junto de seu filho, Mario

Melvin Van Peebles junto de seu filho, Mario © Wikimedia Commons

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Em evento realizado quatro dias após o falecimento de seu pai para exibição de cópia restaurada de Sweet Sweetback’s Baadasssss Song no New York Film Festival, Mario Van Peebles ofereceu, em discurso, a dimensão do impacto da obra. “Esse filme foi realizado em uma época em que não se viam pessoas negras com pelos faciais nas telas, ainda mais com as loucuras que meu pai faz no filme”, afirmou Mario. “Os brancos assistiram os movimentos de paz e liberdade refletidos um pouco em filmes como ‘Easy Rider’, mas nós não tínhamos isso, então ele fez ‘Sweetback’ e colocou o ‘Black Power’ nas telas pela primeira vez”, concluiu.

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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