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Adultos e crianças instáveis: o que a pandemia fez com a saúde mental de pais e filhos?

Veronica Raner - 23/09/2021 | Atualizada em - 26/09/2021

Era para ser só duas semanas“, mas já estamos no 18º mês — e contando. A pandemia chegou no Brasil no começo de março do ano passado e ainda nos deixa preocupados, temerosos e exaustos. Se o cenário é ruim para todos, ele é especialmente cruel com mães e pais que, em meio à crise sanitária, econômica e social que o país enfrenta, ainda precisam manter a sanidade não só por si, mas pelas crianças que precisam criar.

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Há vários relatos de pais e mães que estão com depressão, que desenvolveram transtornos de ansiedade e burnout. Nós tivemos um aumento das questões psiquiátricas e de saúde mental nessa parcela da população“, alerta a psicóloga Tauane Gehm, doutora em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo (USP).

Durante quase todo o ano de 2020, aqueles que exercem papéis de maternidade e paternidade tiveram que lidar com o fechamento de creches e escolas. A presença ininterrupta das crianças em casa, fosse em tempo livre ou estudando à distância, gerou uma sobrecarga de trabalho doméstico extremamente complexa. 

Os pais tiveram que lidar com os filhos em casa, tiveram que virar professores, às vezes assumindo funções de monitoria dos filhos. Isso ainda está inserido em um contexto em que eles tiveram que manter a carga de trabalho ou até aumentá-la com medo de perder o emprego“, explica. 

Outro ponto que desestabilizou pais e mães foi a ausência de uma rede de apoio próxima. Por conta dos perigos inerentes ao Sars-CoV-2, boa parte dessas pessoas se viu distante dos avós de seus filhos. São eles que, no geral, prestam auxílio em momentos de necessidade. 

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Preocupação com a saúde mental dos filhos prejudicou a própria saúde mental

Para a educadora Carol Lunardi, o cenário ainda teve um agravante: ela havia acabado de começar em um emprego novo, quando as escolas fecharam. Com o filho de quatro anos em casa, Carol se viu com medo de ficar desempregada, ao mesmo tempo em que se culpava por impedir Benjamin de sair de casa. 

O pior não foi ficar sem meu forró. O mais difícil foi estar com uma criança em um apartamento, sem ninguém, sem socialização, vendo pessoas morrendo. Eu não tinha coragem de levá-lo ao parquinho“, conta. “Chorava muito ao pensar que com quatro anos eu estava brincando na rua e o meu filho estava em uma pandemia com gente morrendo o tempo inteiro.

Ela conta que, em determinado momento, Benjamin se sentia tão sozinho que perguntou à mãe se era possível “comprar um amiguinho para brincar“.

A maquiadora Maria Sousa viveu algo semelhante com o pequeno Nicolas. Aos cinco anos, o menino passou quase metade da vida dele preso dentro de casa, em um contexto de pandemia. Durante esse período, o que mais preocupou Maria foi vê-lo sem conviver com outras crianças. 

Eu me cobrava muito porque não tinha didática de professora para ensiná-lo em casa. Me cobrava muito e eu ainda estava sem dinheiro porque trabalho com casamentos e o mercado havia parado. Foi muito difícil me manter sã para dar conta“, diz. 

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A maquiadora Maria Sousa e o filho, Nicolas.

Diante das cobranças que ela mesma fazia, o ponto de virada para Maria veio quando ela percebeu que a situação era completamente nova e que não havia um protocolo para ser seguido naquele contexto. 

Eu nunca tinha vivido isso: nem a maternidade, nem a pandemia. Os dois então… Eu tinha acabado de me separar e voltei a morar com a minha mãe, algo que foi obra de Deus. Eu pensei: ‘Deixa eu me entender emocionalmente com a minha rede de apoio primeiro’. Se eu tivesse fechado contrato para morar sozinha com ele no começo da pandemia, eu teria surtado.

Volta às aulas: um misto de sentimentos

O retorno às atividades escolares deixou muitos pais aliviados, mas uma parcela deles ficou receosa com a possibilidade de seus filhos estarem mais expostos ao vírus. 

A volta à escola foi um misto de sentimentos porque há a preocupação com relação à contaminação, mas ao mesmo tempo um alívio porque eu precisava de silêncio na minha cabeça“, desabafa Maria, que buscou na meditação um alento para se manter no eixo, como ela mesma diz. 

O momento, segundo Gehm, é de atenção tanto para os responsáveis quanto para as crianças. 

Com o retorno das escolas, nós estamos em um outro momento da pandemia. Esses pais e essas mães ainda estão muito cansados e também há todo um processo de readaptação das crianças à rotina da escola que deixa os pais preocupados“, diz a psicóloga.  

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Ela explica que há uma necessidade, por parte das crianças, de voltar a compreender a rotina escolar de realizar tarefas, fazer provas e conviver entre si. “Você imagina que há crianças que entraram na pandemia entrando no 5º ano e agora estão na metade do 6º. Eles foram atingidos pela pandemia. Esses alunos estão com alguma dificuldade no processo de readaptação e os pais estão preocupados”, pontua. 

Como a pandemia vai afetar as crianças no futuro?

A psicóloga infantojuvenil e psicopedagoga Helen Mavichian acredita que as crianças, assim como os pais, foram bastante afetadas pelas consequências psicológicas da pandemia. 

Querendo ou não, os pais tinham alguma distração de trabalho, fosse conversar com um amigo, fosse tomar uma taça de vinho. As crianças não. As que não eram expostas às telas, passaram a ser e isso se tornou uma atividade maçante que gerou um quadro de irritabilidade muito grande. Isso tudo é potencializado se nós imaginarmos que a maioria dessas crianças ainda não sabe lidar com as emoções.

Ela ressalta que, em contrapartida, apesar dos pais terem tido mais opções para se distrair no dia a dia de isolamento, havia a preocupação crescente com relação a trabalho, ao confinamento do home office e ao fato de ainda terem que exercer o papel de educador com as aulas online. 

A união de crianças que ainda não sabem lidar com sentimentos e adultos exaustos e impacientes não resulta em uma combinação saudável. “Um adulto instável com uma criança instável piora todo o quadro. Um adulto que não está bem não vai motivar a criança a fazer suas atividades. Se o adulto responsável por uma criança não está bem, ela não vai estar bem“, alerta Helen.  

O cenário de incerteza e instabilidade preocupa Maria. Ela percebe que os 18 meses longe do contato diário com outras crianças tornou Nicolas mais individualista. O comportamento é observado em outras crianças que convivem com o menino na escola. 

No parquinho ou no feedback da escola, você vê que as crianças estão com traços muito fortes de egoísmo, de não saberem dividir ou compartilhar porque passaram um tempo muito longo isolados, a maioria com adultos e com muitas telas. Isso é algo que precisamos estar atentos porque pode transformar essa geração“, opina. 

 

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Destaques: Getty Images // Fotos: 


Veronica Raner
Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.

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