Futuro

Animais enfrentam mudanças no corpo por causa do aquecimento global, diz estudo

Vitor Paiva - 14/09/2021 | Atualizada em - 16/09/2021

O aquecimento global vem alterando de forma perigosa e intensa o planeta, mas não somente: o corpo de alguns animais, especialmente pássaros, vem apresentando transformações alarmantes provocadas diretamente pelo aumento da temperatura média em todo o mundo ocorrida como efeito da ação humana. A conclusão foi apresentada como dado de estudo realizado por cientistas ligados à Universidade Deakin, na Austrália, com diversas espécies ao longo de décadas, e publicado recentemente na revista “Cell”, e revela que alguns pássaros, principalmente os de bico longo, alteraram o funcionamento de seu sistema circulatório para controlar a temperatura corporal elevada.

Cacatua-de-gangue

A Cacatua-de-gangue foi uma das espécies que o estudo comprovou mudanças no corpo © Wikimedia Commons

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Segundo o estudo, o fato de o bico dos pássaros possuir correntes sanguíneas é o que favorece os animais com bicos mais extensos: o calor intenso nos habitats faz com que os animais direcionem o sangue para o bico, a fim de dissipar o calor e equilibrar sua própria temperatura. De acordo com os pesquisadores Sara Ryding e Matthew Symonds, que conduziram a pesquisa juntos a outros cientistas da universidade, diversas espécies apresentaram aumento em seus bicos desde 1871 entre 4% e 10% – e o mesmo foi notado entre pássaros da América do Norte, em que a mudança corporal se mostrou diretamente ligada a extremos de temperatura em regiões comumente frias.

A transferência de calor da espécie geospiza fuliginos registrada pelo estudo

A transferência de calor da espécie geospiza fuliginos registrada pelo estudo © Wikimedia Commons/Universidade Deakin/Reprodução

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Se o impacto é mais perceptível entre os pássaros, a pesquisa revela que metamorfoses são também já notadas, e pelo mesmo motivo, também em mamíferos. Alguns tipos de camundongo apresentam caudas mais longas; o musaranho mascarado, uma pequena espécie de toupeira encontrada principalmente nos EUA e no Canadá, apresentou aumento na cauda e nas pernas, e algumas espécies de morcego demonstraram crescimento na dimensão das asas, em período estudado desde os anos 1950. De acordo com os cientistas, outros efeitos serão visíveis no futuro, como elefantes com orelhas ainda maiores, mas novos estudos são necessários para esclarecer quais espécies podem ter sido afetadas, e quais outras motivações podem ter provocado as metamorfoses.

O mesmo processo, registrado em estudo da espécie geospiza fortis

O mesmo processo, registrado em estudo da espécie geospiza fortis © Wikimedia Commons/Universidade Deakin/Reprodução

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Ainda que o estudo mostre que algumas espécies vêm conseguindo se adaptar ao aumento de temperatura provocadas pelo aquecimento global, a necessidade de reduzir a emissão de gases é urgente, a fim de combater o efeito estufa e, assim, o aquecimento global, já que outros animais podem simplesmente desaparecer por conta de tais transformações. “Embora nossa pesquisa mostre que alguns animais estão se adaptando às mudanças climáticas, muitos não irão”, escreveram os cientistas. “Por exemplo, alguns pássaros podem ter que manter uma dieta específica, o que significa que não podem mudar o formato do bico. Outros animais podem simplesmente não ser capazes de evoluir com o tempo”, afirmam os cientistas.

O papagaio-ruivo

O papagaio-ruivo também vem apresentando mudanças corpóreas por conta do aquecimento global © Wikimedia Commons

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.