Ciência

Asteroide em forma de ‘osso de cachorro’ é analisado em imagens inéditas

Vitor Paiva - 14/09/2021

O motivo por trás do apelido de “osso de cachorro” dado ao asteroide 216 Cleópatra tornou-se ainda mais visível e reconhecível diante das novas imagens reveladas recentemente pelo Observatório Europeu do Sul (ESO). Localizado na região central do cinturão de asteroides, apesar de se tratar de um dos primeiros asteroides descobertos, ainda no final do século XIX, o formato singular desse corpo rochoso que orbita ao redor do sol só foi revelado 20 anos atrás, a partir de observações realizadas por radar: as novas imagens, porém, confirmam com qualidade inédita  detalhes nunca antes reparados sobre o formato do “osso de cachorro”.

O asteróide 216 Cleópatra

O asteróide 216 Cleópatra em posições diversas registradas em 2017 e publicadas recentemente © ESO/Reprodução

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As imagens são parte de dois novos estudos sobre o 216 Cleópatra, publicados entre maio e agosto na revista científica Astronomy and Astrophysics, e foram captadas entre 2017 e 2019 utilizando o poder do sistema ótico do Very Large Telescope (VLT) para corrigir deformações e imprecisões de imagens anteriores do asteroide, localizado entre Marte e Jupiter, a cerca de 200 milhões de quilômetros da Terra. As novas imagens revelaram que um dos dois lóbulos, posicionados nas extremidades de um “pescoço” mais fino ao centro, é maior do que outro, em comprimento de cerca de 270 km no total do corpo.

Modelo 3D reconstruído do 216 Cleópatra

Modelo 3D reconstruído do Cleópatra © Wikimedia Commons

O asteróide 216 Cleópatra

As novas imagens detalharam o formato do asteróide em qualidade inédita © ESO/Reprodução

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Outra correção se deu a respeito das duas luas que orbitam Cleópatra: batizadas como AlexHelios e CleSelene em homenagem aos filhos da rainha egípcia, as novas imagens corrigiram o trajeto das órbitas das luas, descobertas em estudo de 2008. “Isso precisava ser resolvido, porque se as órbitas estivessem erradas, todo o resto também estaria, incluindo a massa de Cleópatra”, afirmou o cientista Miroslav Brož, da Universidade de Charles, na República Tcheca, e um dos líderes de um dos estudos. A partir da nova conclusão, determinou-se que a massa de Cleópatra é 35% mais baixa do que se pensava.

O ESO comparou em montagem a dimensão do asteróide com partes da Terra - como, na imagem, região do Chile

O ESO comparou em montagem a dimensão do asteróide com partes da Terra – como, na imagem, região do Chile © ESO/Reprodução

Outra comparação entre o Cleópatra e o norte da Itália

Outra comparação entre o Cleópatra e o norte da Itália © ESO/Reprodução

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Cleópatra 216 foi descoberto em abril de 1880 pelo astrônomo austríaco Johann Palisa, e sua recém confirmada densidade menor sugere que a composição metálica do asteroide possua uma estrutura porosa, possivelmente formada por acúmulo de material a partir de um impacto – a inauguração de um Extremely Large Telescope (ELT), novo equipamentos do ESO, em 2027, promete agora trazer os próximos passos para futuras descobertas sobre o “osso de cachorro” e demais asteroides do nosso sistema. “Cleópatra é realmente um corpo único no nosso Sistema Solar”, afirma Franck Marchis, líder do outro estudo sobre o tema. “A ciência progride muito graças ao estudo de objetos estranhos, e acredito que compreender esse asteroide pode nos ajudar a entender mais coisas sobre o Sistema Solar”, concluiu.

O movimento do asteróide, ao redor do sol, entre Marte e Júpiter

O movimento do asteróide, ao redor do sol, entre Marte e Júpiter © Wikimedia Commons

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.