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Cangaço: Moreno e Durvinha e a história do último casal do grupo de Lampião

Vitor Paiva - 22/09/2021 | Atualizada em - 23/09/2021

Na vasta mitologia nordestina o bando de Lampião e Maria Bonita ocupa um ponto central, como personagens que ajudaram a definir diversos aspectos do imaginário da região e mesmo nacional – vistos como bandidos sanguinários por alguns, mas como heróis por grande parte da população, lutando contra os mais ricos e defendendo a honra e o senso de justiça dos cangaceiros. E se o bando encerrou suas atividades em 1938, quando boa parte de seus membros foi executada pela polícia, dois personagens de um dos mais poderosos grupos banditistas do século XX sobreviveram para cumprirem uma longa vida: Moreno e Durvinha se conheceram e se apaixonaram no cangaço, se casaram e só vieram a falecer recentemente, já em pleno século XXI.

Moreno e Durvinha

Moreno e Durvinha, em foto para o documentário filmado em 2006 e lançado em 2011 sobre o casal © Imovision/divulgação

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O casal se tornou tema central do documentário “Os Últimos Cangaceiros”, dirigido por Wolney Oliveira e lançado em 2011 para, através da história de Antônio Ignácio da Silva e Durvalina Gomes de Sá, mais conhecidos como Moreno e Durvinha, contar a história do cangaço. Moreno nasceu em Tacaratu, município do estado de Pernambuco, em 1909 e, na juventude trabalhava como barbeiro mas sonhava em se tornar policial. Seu sonho virou do avesso quando foi injustamente preso, acusado de roubar um carneiro, e espancado pelos oficiais na cidade cearense de Brejo Santo: ao ser libertado, matou o homem que o denunciou, que seria o ladrão de fato, e se integrou em seguida ao bando através de Moderno, cangaceiro que era cunhado de Lampião.

Lampião

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião © Wikimedia Commons

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Já Durvalina nasceu na cidade baiana de Paulo Afonso em 1915, e se juntou ao bando aos 15 anos, por vontade própria, após se envolver com Moderno. Foi nesse contexto que, nos anos 1930, após a morte do cunhado de Lampião, que Durvinha e Moreno se apaixonaram. Os dois permaneceram com Lampião até o fim do bando, derrotado na cidade sergipana de Poço Redondo em 28 de julho de 1938 – em uma das cenas mais emblemáticas do filme “Lampião, o rei do cangaço”, filmado em 1937 por Benjamin Abrahão como único documento a mostrar o bando em movimento, Durvinha caminha em direção à câmera empunhando uma arma: consta, porém que na vida real ela não gostava de atirar.

Durvinha, à esquerda com a arma na mão, na clássica cena do filme

Durvinha, à esquerda com a arma na mão, na clássica cena do filme © Wikimedia Commons

Durvinha e Moreno dançando, também em cena de "Lampião, o Rei do Cangaço"

Durvinha e Moreno dançando, também em cena de “Lampião, o Rei do Cangaço” recuperada no novo documentário © Imovision/divulgação

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Após a queda do “império” de Lampião, Moreno e Durvinha conseguiram escapar e se esconderam na mata: durante a fuga ela deu à luz ao primeiro filho e, após 30 dias de nascimento, o bebê foi deixado com um padre para ser criado, já que seu choro poderia denunciá-los em seus esconderijos. Em 1940 o casal conseguiu enfim chegar a Minas Gerais, onde estabeleceram nova vida, mudaram de nomes – ela passou a se chamar Jovina Maria da Conceição Souto e ele, José Antônio Souto –, tiveram cinco outros filhos e, por mais de seis décadas, conseguiram manter o passado escondido de todos, temendo represálias ou mesmo a prisão.

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Somente em meados dos anos 2000, quando enfim o primogênito, Inácio Carvalho Oliveira, foi reencontrado, o casal enfim revelou sua história à família, poucos antes do falecimento de Durvinha, em junho de 2008, aos 93 anos. Dois anos depois, deprimido pela morte da esposa, Moreno também veio a falecer, em setembro de 2010, aos 100 anos de idade – Em 2014, José Alves de Matos, mais conhecido como “Vinte e cinco”, veio a falecer aos 97 anos, encerrando então a vida do último do bando.

O bando de Lampião, em 1936

O bando de Lampião, em 1936 © Wikimedia Commons

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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