Inspiração

Como é passar uma semana usando bicicleta como meio de transporte em São Paulo

Gabriela Rassy - 30/09/2021

O Dia Mundial Sem Carro é celebrado em 22 de setembro e, aproveitando a Semana da Mobilidade, encarei o desafio de deixar o carro de lado e testar a bicicleta (e minhas próprias pernas) como meio de transporte no dia a dia.

A proposta veio da Nuffic Neso Brazil, fundação sem fins lucrativos subsidiada pelo Ministério holandês da Educação, que organiza uma série de atividades todos os anos para incentivar a mobilidade sustentável e discutir formas menos segregadoras do uso do território urbano.

Antes de mais nada quero deixar claro que eu tenho uma bicicleta, mas que uso mais para lazer do que qualquer outra coisa. Durante boa parte da minha vida, como muitos paulistanos, fui bastante dependente do carro.

São Paulo é uma cidade montanhosa, cheia de ladeiras íngremes, e tem uma cultura do carro já enraizada – além de estar associada diretamente à uma ideia de sucesso. Por esse motivo também, a cidade foi avessa a qualquer política favorável aos pedestres, ciclistas e mesmo para quem usa o sistema de transporte público.

Depois de algumas gestões mais voltadas para a ocupação do espaço público urbano, a cidade chegou nos seus 681 km de extensão em malha cicloviária. Essas vias incluem ciclovias segregadas, ciclofaixas permanentes e alguns quilômetros de ciclorrotas, o que coloca São Paulo no posto de cidade com mais ciclovias no Brasil.

A mobilidade no Brasil e no mundo

Em setembro de 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que devem ser implantados por todos os países do mundo até 2030.

A ideia é criar uma agenda que ajude as nações a desenvolverem iniciativas para reduzir a pobreza, impulsionar a prosperidade e o bem-estar dos cidadãos e proteger o meio ambiente.

De acordo com o estudo Mobility Futures 2021: The Next Normal, da empresa de consultoria Kantar Insights, o maior aumento do uso de transportes sustentáveis, como bicicletas, patinetes e caminhadas foi observado na Europa, onde o salto foi de 4,8% entre 2019 e 2020.

Reconhecida como um dos 10 países que mais se destaca para implementar os objetivos da ONU, a Holanda investe pesado em energias renováveis, smart cities e é referência mundial quando o assunto é bicicleta, como constatou pesquisa da Fundação Bertelsmann Stiftung.

O país lidera o ranking global de bikes per capita com cerca de 16 milhões de unidades – uma para cada habitante. Quando falamos em ciclovias, o país tem uma extensão de 20 mil km, o equivalente a metade da circunferência da Terra. Bicicletas são utilizadas em aproximadamente 25% de todos os deslocamentos, e são o meio preferido para distâncias de até 7,5 km.

No Brasil, nos últimos anos, o setor de mobilidade passou por inegáveis avanços, mas ainda são inúmeros os desafios. Existem ainda muitos obstáculos a serem superados, como calçadas precárias, falta de acesso ao transporte coletivo, pouca infraestrutura para o uso da bicicleta e segurança.

Ainda assim, felizmente vemos o número de ciclistas nas principais capitais crescer a cada ano e os adeptos garantem que não se arrependem da escolha. Dados da Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike) revelam que apesar da pandemia, o ano de 2020 trouxe bons resultados para o mercado de bicicletas, com média de 50% de aumento nas vendas em comparação ao ano anterior.

O desafio

Nesse desafio, a ideia era experimentar os benefícios de pedalar ou circular a pé pela cidade. E devo dizer que é uma experiência deliciosa. Caminhar, correr e pedalar funcionam para a movimentação necessária, mas com uma dose extra de felicidade.

Depois que deixei o carro de lado, o primeiro ponto positivo que senti foi financeiro. O preço da gasolina nunca esteve tão alto e muitas vezes não vale nem a pena tirar o carro da garagem. Fora que o próprio carro é um gasto constante. A cada dia ele desvaloriza na sua mão e continua exigindo manutenção, seguro e estacionamento – sem contar as multas!

Passei a repensar como fazer os trajetos e descobrir novas ruas e lugares nesse caminho.

Hoje sinto que a cidade está mais preparada para ser ocupada por seus moradores e visitantes. Temos mais ciclovias, pontos de aluguel de bike, lojas especializadas, bicicletários e mesmo os motoristas já tão mais acostumados com os ciclistas – muito diferente de 2015, quando comprei minha magrela.

Claro que o terreno da cidade de São Paulo é bem desafiador, com muitas subidas e descidas, além do trânsito intenso. Mas o desafio me provou que sim, é possível usar a bike como meio de transporte do dia a dia. É um meio mais sustentável e uma forma importante de ocupação do espaço urbano.

Também a convite da Nuffic Neso Brasil, durante a semana do Dia Mundial Sem Carro de 2020, cinco adeptos da mobilidade ativa compartilham suas vivências em diferentes trajetos de bike, de skate e de transporte público no plano piloto de Brasília – outra cidade conhecida por ser feita para carros. Confira o documentário “Desacelerando: de bike por Brasília”:

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Fotos: Getty Images e Arquivo Gabriela Rassy


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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