Ciência

Crânio de 7 mil anos achado na Indonésia pertence a jovem de sociedade perdida

Vitor Paiva - 08/09/2021 | Atualizada em - 09/09/2021

As análises de material genético encontrado no crânio de 7 mil anos descoberto na ilha de Sulawesi, na Indonésia, revelaram que a ossada pertencia a uma adolescente pertencente ao povo da cultura Toalean, um misterioso grupo de caçadores-coletores que viveu na região.

Trata-se de peça arqueológica sem precedentes, representando o único esqueleto de tal povo já descoberto, bem como a primeira vez que algum DNA ancestral é encontrado em humanos da idade da pedra na região da Wallacea, grupo de ilha da Indonésia ao qual pertence a Sulawesi.

A ossada fossilizada encontrada na ilha indonésia

A ossada fossilizada de Bessé, encontrada na ilha indonésia © Universidade de Hasanuddin

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A descoberta do fóssil aconteceu em 2015 na caverna Leang Panninge, e o artigo descrevendo a pesquisa foi publicado recentemente na revista Nature. Segundo o texto, a adolescente tinha entre 17 e 18 anos quando faleceu, e foi encontrada no local em posição fetal – os pesquisadores a chamaram de Bessé.

O material genético descoberto no crânio foi coletado no osso interno do ouvido, e revelou que a jovem dividia ancestrais com humanos da Nova Guiné, bem como com aborígenes da Austrália e com os Denisovanos, espécie de hominídeos que existiu entre 500 a 30 mil anos.

Detalhe do crânio encontrado na ilha

Detalhe do crânio encontrado na ilha de Sulawesi © Universidade de Hasanuddin

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Junto da ossada foram também encontradas ferramentas da cultura Toealen, como pontas afiadas. “Eles fizeram ferramentas de pedra altamente distintas (incluindo pontas de flechas minúsculas e bem trabalhadas conhecidas como ‘pontas de Maros’) que não são encontradas em nenhum outro lugar da ilha ou na Indonésia.” afirmou Adam Brumm, professor de arqueologia no Centro de Pesquisa Australiano para Evolução Humana da Griffith University e um dos autores do estudo.

Algumas das ferramentas Toalean encontradas junto ao crânio

Algumas das ferramentas Toalean encontradas junto ao crânio © Adam Brumm

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A importância da descoberta está principalmente no fato de se tratar do primeiro material genético encontrado de uma linhagem humana que não existe em nenhum outro lugar do mundo.

“Nós descobrimos o primeiro DNA humano antigo na região insular entre a Ásia e a Austrália, conhecido como ‘Wallacea’, fornecendo uma nova visão sobre a diversidade genética e a história da população dos primeiros humanos modernos nesta parte pouco conhecida do mundo”, afirmou Brumm, confirmando que o crânio revela “humanos antigos até então desconhecidos”.

Entrada da caverna caverna Leang Panninge, onde a ossada foi encontrada em 2015

Entrada da caverna caverna Leang Panninge, onde a ossada foi encontrada em 2015 © Leang Panninge Research Project

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Não se sabe o que aconteceu com a cultura Toalean e com seu povo, e a descoberta é, portanto, peça fundamental para compreender as primeiras páginas da história dos seres humanos no sudeste da Ásia. “Essa nova peça do quebra-cabeça genético de Leang Panninge ilustra acima de tudo o quão pouco sabemos sobre a história genética dos humanos modernos no sudeste da Ásia”, afirmou Cosimo Poth, outro pesquisador que trabalhou no estudo, em comunicado. O artigo publicado na revista Nature pode ser lido em inglês aqui.

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.