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Escravidão viva nos EUA: refugiados haitianos são chicoteados por guardas a cavalo na fronteira

27 • 09 • 2021 às 10:24 Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Chocaram o mundo as imagens reveladas recentemente de diversos agentes da fronteira dos EUA com o México sobre cavalos, perseguindo refugiados, em maioria haitianos, com um chicote nas mãos, açoitando os migrantes no município de Del Rio, no Texas. As cenas agravam o cenário de crise vivido pelo país em sua fronteira, onde mais de 12 mil pessoas que tentavam entrar no país foram detidas em um acampamento montado em improviso debaixo de uma ponte que conecta o município texano a Ciudad Acuña, no México na semana passada.

Patrulheiros agredindo haitianos na fronteira dos EUA

O tratamento desumano oferecido aos migrantes causou escândalo até mesmo entre apoiadores do governo Biden

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Segundo as autoridades locais, o acampamento foi montado em um local de sombra, a fim de evitar o sol e o calor enquanto os refugiados aguardam para serem levados pela patrulha na fronteira do país, enquanto multidões de haitianos vêm sendo deportadas. De acordo com a imprensa dos EUA, as cenas de violência foram registradas enquanto algumas pessoas retornavam do México, após comprarem comida e água, para o acampamento a fim de reencontrarem suas famílias. No momento do retorno, os refugiados foram “caçados” e chicoteados pelos guardas como se estivessem tentando novamente “invadir” o país.

Patrulheiros agredindo haitianos na fronteira dos EUA

As imagens das cruéis “caçadas” ocorreram na cidade de Del Rio, no Texas

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A secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, afirmou que as imagens mostram um comportamento “obviamente horrível” por parte dos guardas e que, mesmo não tendo o contexto completo, não conseguia imaginar explicação alguma que pudesse tornar as medidas razoáveis. “Não acho que alguém que veja essas imagens as ache aceitável ou apropriado”, afirmou. A congressista democrata Ilhan Omar, porém, foi bastante mais incisiva, e apontou os tratamentos como “cruéis, desumanos e uma violação das leis nacionais e internacionais”, em claro caso, segundo Omar, de “abusos aos direitos humanos”.

A crise no Haiti

Diante da atual situação de miséria e crise social que o Haiti enfrenta, a decisão de deportar milhares de haitianos por parte do governo Biden foi de tal forma vista como desumana que o representante do Departamento de Estado dos EUA enviado para o país, Daniel Foote, renunciou ao cargo para, segundo comunicado, não se associar “à decisão desumana e contraproducente dos Estados Unidos de deportar milhares de refugiados haitianos e imigrantes ilegais ao Haiti”. Não bastasse o assassinato do presidente Jovenel Moïse no dia 7 de julho – que atirou o país a uma profunda crise política –, um terremoto atingiu a ilha caribenha em agosto, seguido de uma forte tempestade tropical que destruiu parte do país e custou a vida de milhares de habitantes.

Patrulheiros agredindo haitianos na fronteira dos EUA

Os seres humanos foram acampados embaixo de uma ponte para serem deportados

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Segundo Alejandro Mayorkas, secretário de segurança interna dos EUA, as cenas de violência contra os migrantes na fronteira com o México serão investigadas e os responsáveis serão punidos, mas recomendou em aviso que as pessoas que não possuem os documentos devidos evitassem tentar entrar no país. “Se você vier ilegalmente para os Estados Unidos, será devolvido”, afirmou. “Sua viagem não será bem-sucedida e você estará colocando sua vida e a de sua família em perigo.”

Patrulheiros agredindo haitianos na fronteira dos EUA

Mais de 12 mil pessoas encontram-se nos acampamentos da fronteira na região

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© fotos: Getty Images


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