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‘Já acabou, Jéssica?’: meme rendeu depressão e abandono escolar a jovem: ‘Inferno na vida’

Redação Hypeness - 01/09/2021

“Já acabou, Jéssica?”. Essa frase com certeza desbloqueou uma memória para você, não é? Omeme de 2015 surgiu de um vídeo que registrou uma briga que aconteceu no horário da saída da escola no pequeno município de Alto Jequitibá, emMinas Gerais. O conteúdo viralizou, esteve nos quatro cantos na internet e, depois, foi esquecido, superado. Menos para quem o protagoniza. 

Uma Lara da Silva de apenas 12 anos aparece nas imagens desafiando a “oponente” com a pergunta.“É uma coisa que eu ainda não aceitei totalmente. Se eu parar pra pensar demais nisso, me faz mal. Não é algo que eu goste, mas é uma coisa que aconteceu, não tem como voltar atrás”, disse Lara em entrevista exclusiva à BBC News Brasil.

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Divulgação do vídeo online virou caso de justiça

Depressão pós-meme

Jéssica passou a conviver com o bullying, abandonou a escola, passou a se cortar e começou um tratamento psiquiátrico. O quadro de depressão se formou após o retorno à sala de aula depois da briga. 

“Ninguém nunca me perguntou como tudo isso me impactou”, declarou Jéssica à BBC ao justificar a decisão de falar sobre o assunto seis anos depois do ocorrido. E aos 18 anos de idade, ela conta, ainda precisa lidar com a repercussão enorme do vídeo que se tornou um tormento. 

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Jéssica se tornou alvo de ofensas de outros alunos, que sempre a ofendiam usando a pergunta famosa: “Já acabou Jéssica?”, que passou a ser repetida massivamente em todo o país, uma vez que a briga das estudantes foi um dos assuntos mais comentados nas redes sociais naquele período. 

O vídeo original, com o título “Já acabou, Jéssica?”, alcançou milhões de visualizações e foi reproduzido por sites de humor e perfis no Facebook. Lara foi proibida pela mãe de acessar a internet ou assistir televisão, tudo isso para que a menina ficasse blindada do risco de acompanhar comentários sobre a briga. Ela mudou de escola e parou de frequentar locais públicos, tendo contato apenas com parentes ou fazendo compras em mercadinhos na região em que morava.

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Mas, mesmo com os cuidados da família, já era tarde demais. O isolamento intensificou a depressão de Lara, que já pensava em automutilação antes mesmo do meme, demonstrando tendência à depressão. O acontecido apenas incentivou os impulsos negativos na jovem. 

“Eu já costumava me culpar por tudo de ruim que acontecia comigo ou com meus pais. Quando aconteceu isso (o vídeo viralizou), eu não sabia o que era pior: que a minha mãe continuasse me prendendo em casa, como ela começou a fazer, ou me deixasse sair na rua”, revelou à BBC.

O recomeço 

Lara e a mãe passaram a enfrentar uma viagem de cerca de duas horas, três vezes por semana, em uma ambulância que levava os moradores de Alto Jequitibá que precisavam de ajuda médica em outro município. Logo chegaram os diagnósticos: depressão, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e transtorno de ansiedade. 

Lara enfrentou altos e baixos durante o tratamento e diz que já chegou a tomar sete remédios por dia para lidar com os transtornos. Hoje, ela trabalha como auxiliar de limpeza e cuidadora de idosos e planeja cursar farmácia ou enfermagem, a fim de ajudar pessoas doentes. Lara também está concluindo o ensino médio, que já deveria ter terminado, mas precisou passar um ano fora da sala de aula.

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Assim como a Jéssica do vídeo, Lara e a família enfrentam batalhas judiciais contra emissoras, empresas da internet (como Facebook e Google) e outros veículos que colaboraram com a disseminação do vídeo. O tratamento psiquiátrico é destacado pela defesa de Lara nas ações movidas na Justiça, que pedem que o conteúdo seja completamente retirado da internet.

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Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/BBC Brasil


Redação Hypeness
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