Futuro

Mobilidade e segregação: na semana do Dia Mundial Sem Carro, como a mobilidade urbana pode afetar as cidades

Vitor Paiva - 27/09/2021

Durante a Semana da Mobilidade Urbana de 2021 acontece, em 22 de setembro, o Dia Mundial Sem Carro, data celebrada no mundo inteiro com atividades para estimular o debate a respeito do uso dos automóveis e seus impactos gerais – ambientais, sociais, econômicos e mais.

A ideia para 2021 é olhar principalmente o tema da mobilidade urbana, em defesa do meio-ambiente, da saúde e qualidade de vida: um assunto tão importante que afeta diretamente até mesmo a geração de empregos nas grandes cidades, podendo agravar as já extensas dificuldades das regiões e populações mais pobres das metrópoles brasileiras. Em suma, a mobilidade urbana é também instrumento fundamental para combater a desigualdade social

O raríssimo ônibus que transporta a população da Comunidade do Sol Nascente, em Brasília

Um dos raríssimos ônibus que transportam a população da Comunidade do Sol Nascente, em Brasília © Flickr/CC

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A fim de demonstrar os efeitos de uma mobilidade frágil em uma cidade grande e complexa como Brasília, a Nuffic Neso Brazil, fundação sem fins lucrativos subsidiada pelo Ministério holandês da Educação, foi até a comunidade do Sol Nascente, na capital, para conversar com moradores, e transformar os relatos na matéria-prima de um curta-documentário.

Pois a região é um perfeito exemplo de como um sistema de transporte falho pode atrapalhar diretamente o acesso da população à cultura, à educação e até mesmo ao emprego – tanto para a manutenção de um trabalho, quanto para simplesmente conquistar uma vaga. 

Congestionamento no Vale do Anhangabaú, em São Paulo

Congestionamento no Vale do Anhangabaú, em São Paulo © Wikimedia Commons

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Tal situação, é claro, não se restringe à comunidade na capital: o centro de São Paulo, por exemplo, concentra 64% dos empregos da cidade, mas apenas 17% dos residentes. Com isso, grande parte da população gasta de 2 a 3 horas diárias no trânsito para simplesmente poder trabalhar.

Já no Rio de Janeiro, um estudo confirma que um terço da renda dos trabalhadores que vivem nas regiões periféricas da cidade é comprometido pelo custo com passagens de ônibus. E estes são somente dois outros exemplos: em média, o brasileiro perde cerca de 32 dias por ano no trânsito – um desperdício de tempo que é também traduzido em impacto negativo sobre a economia e o meio ambiente.

Esperando o Pôr do Sol Chegar

Localizada a somente 35 km do Palácio do Planalto e do Congresso Nacional, a comunidade do Sol Nascente começou a crescer nos anos 1990, foi reconhecida como região administrativa do Distrito Federal em 2008, e desde então sua expansão só acelerou: hoje o local já supera os 100 mil habitantes em uma área total de cerca de 40 quilômetros quadrados.

Apesar da imensa dimensão de uma das maiores comunidades de toda a América Latina, somente uma companhia de ônibus atende boa parte da região. Tal quadro, portanto, é uma perfeita ilustração de uma situação de segregação socioespacial: a precariedade no transporte dificulta radicalmente o acesso aos chamados “direitos básicos”, em quadro que afeta a população e também à cidade, que perde em talentos, potenciais, qualidades e criatividades.

Ponto de ônibus no Sol Nascente

Ponto de ônibus no Sol Nascente © Flickr/CC

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É essa, portanto, a questão central do curta-documentário “Esperando o Pôr do Sol Chegar”, dirigido por Aristides Morgão e realizado pela Nuffic Neso Brazil como ação da fundação para a semana do Dia Mundial Sem Carro – cujo o tema em 2021 é justamente “Mobilidade e Segregação”.

No filme, moradores relatam o impacto da mobilidade precária que acaba por determinar a qualidade de vida da região, impossibilitando a frequência em cursos e trabalhos, afetando suas vidas nos mais diversos sentidos – do profissional ao pessoal. 

Cena do filme "Esperando o Pôr do Sol Chegar"

Cena do filme “Esperando o Pôr do Sol Chegar”

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Com atuação nacional, a Nuffic Neso Brazil tem entre seus objetivos centrais o incentivo à aproximação acadêmica entre o Brasil e os Países Baixos, através da promoção de oportunidades de estudo e bolsas para brasileiros na Holanda, bem como a realização de eventos e atividades norteando sempre o intercâmbio de conhecimentos entre os dois países. 

“Esperando o Pôr do Sol Chegar” está disponível no canal da fundação no Youtube.

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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