Viagem

O mais antigo cinema ao ar livre do mundo fica numa cidade praiana da Austrália

Vitor Paiva - 14/09/2021 | Atualizada em - 16/09/2021

A casa estava cheia quando o cinema Sun Pictures Gardens foi inaugurado, em 9 de dezembro de 1916, na cidade praiana de Broome, na Austrália, como um dos primeiros cinemas ao ar livre do mundo. O primeiro filme exibido no local foi o britânico “Taça de Beijos”, de 1913, ainda durante a era do cinema mudo, e somente em 1933 o local passaria a exibir filmes com som. O que provavelmente os presentes na abertura não previam era que o simpático local se tornaria não somente um dos mais charmosos espaços de exibição do mundo, como o mais antigo cinema ao ar livre em atividade hoje, mais de 100 anos após sua inauguração.

A entrada do Sun Pictures, na Austrália, com seu charmoso letreiro luminoso

A entrada do Sun Pictures, na Austrália, com seu charmoso letreiro luminoso © Facebook/Sun Pictures Gardens

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Pois desde 1916 o Sun Pictures Gardens segue em plena atividade, exibindo mais de um filme por noite, com capacidade de acomodar, em todos os espaços, até 320 pessoas. E se hoje o local combina tecnologias modernas na tela e no equipamento de exibição com clima e cadeiras de praia e descontração em sua disposição – o jardim onde os filmes são exibidos é original – ao longo de sua história o espaço apresentou diversas singularidades – a começar pelo fato de que durante décadas o local costumava ser inundado pela alta das marés todas as noites, de tal forma que a lenda reza que era possível pegar peixes com as mãos no chão do cinema durante a exibição de filmes.

O Sun Pictures Garden, na Austrália

O espaço hoje combina equipamentos mais modernos com cenário e estrutura antigas © Facebook/Sun Pictures Gardens

Alagamento no Sun Pictures Gardens, na Austrália

Os alagamentos faziam parte da “programação” diária do cinema até o início dos anos 70 © Broome Historical Society

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Como em todo espaço centenário, a própria história do país e da humanidade, com suas tantas mudanças e contrariedades, atravessa o Sun Pictures Gardens na costa da Austrália Ocidental. Durante a Segunda Guerra mundial, quando o país foi atacado pelas tropas japonesas, o equipamento de exibição foi vandalizado, mas rapidamente consertado para ser utilizado para diversão do próprio exército durante o confronto. Outro aspecto sombrio da realidade também se faz visível local, já que até meados dos anos 1960, a disposição do público no espaço era segregada entre europeus, asiáticos e negros – um boicote foi mobilizado, e novas leis encerraram tais divisões a partir de 1967.

Sun Pictures Gardens

O cinema é parte da comunidade de Broome há mais de um século © Broome Historical Society

Sun Pictures Gardens com público segregado

O público assistindo o filme quando a sala ainda era segregada racialmente © Broome Historical Society

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Uma obra em 1974 passou a impedir a maré de invadir o cinema, e no final dos anos 1980 o espaço foi tombado pelas autoridades australianas, determinando que o cinema possa ser somente reformado, mas jamais demolido ou alterado em sua aparência essencial ou função. Em 2002 uma sala fechada foi construída nas acomodações, e em 2004 o Sun Pictures Gardens foi reconhecido pelo Livro dos Recordes – e o espaço segue em plena atividade, com dois filmes por noite, ao vento praieiro e com vasta programação, divulgada pelo perfil do mais antigo cinema ao ar livre do mundo no Instagram.

O espaço segue com programação diária e público fiel

O espaço segue com programação diária e público fiel © Facebook/Sun Pictures Gardens

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.