Diversidade

Palavra, racismo e intolerância linguística: como o falar se movimenta com o tempo

Kauê Vieira - 09/09/2021 | Atualizada em - 13/09/2021

A palavra é como a transformação constante que faz a natureza ser a grande exuberância da vida na Terra. Fluida e sempre se modificando conforme a mudança cultural dos quatro cantos do mundo, a palavra é tudo menos estática

A verdade é que a palavra que sai da boca se confunde com os seres humanos. Afinal, mesmo que não pairem dúvidas, estamos em constante transformação. Se o ser humano se tornou bípede, porque ele não é capaz de rever certas palavras que compõem o vocabulário? 

A investigação, sobretudo entre pessoas negras da história única contada por séculos sobre como se deu a escravidão no Brasil, provocou um debate intenso sobre o uso de determinadas palavras. Você já deve ter se deparado com alguém sendo repreendido por usar o termo “denegrir” – diretamente associado com a escravização brasileira. 

A discussão, no entanto, não é bem aceita em todos os tecidos sociais. Há quem diga se tratar de um revisionismo histórico ou até uma tentativa de censura. Para compreender melhor os, parafraseando o professor Kabengele Munanga, usos e sentidos da palavra, o Hypeness conversou com Gabriel Nascimento, linguista e professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e autor do livro “Racismo Linguístico”, que começa o papo propondo uma visão menos ortodoxa e mais alinhada com o social da linguística.

“Minha opinião diz respeito a pensar quais símbolos linguísticos são trazidos e coisificados – tornados naturalizados na estrutura social e racial brasileira. A língua, a linguagem é parte concisa, diretamente envolvida nesse sistema de poder. Então, ao invés da gente tratar muitas vezes a língua como aquela que conscientiza a vida, a gente tem que pensar a língua também como produzida através de uma série de relações sociais”.

O professor explica ao Hypeness como os processos de mudança social refletem no questionamento da associação de determinadas palavras com a escravidão. 

“Por que só nesse momento passamos a questionar coisas como “denegrir” ou “ovelha negra”? Por que nós não questionávamos tempos antes? Porque nós estamos questionando nós mesmos a própria noção de língua. Então, a noção de questionamento do racismo linguístico não está distante do nosso questionamento de língua”, ressalta.  

Gabriel Nascimento complementa, “o período da escravidão deve ser rechaçado na língua, porque é um período que passou a ser naturalizado. E mesmo o pós-escravidão, que foi muito traumático para as populações pretas, sobretudo as populações pretas portadoras de traços negroides como a cor escura -, foi um filme de terror para essas pessoas do ponto de vista destes termos, que naquela fase alguns já eram profundamente naturalizados e outros nem tanto”.

A palavra se manifesta de diferentes formas

Ocupando espaços 

A transformação social vivida pelo Brasil nos últimos 20 anos mudou, mesmo que de certa forma, o cenário nacional. Sim, academia e todos os espaços de decisão são formados majoritariamente por homens brancos das classes dominantes – como a própria foto de funcionários, todos caucasianos e do sexo masculino, de uma empresa de investimentos de São Paulo comprovou

Mas, é preciso reconhecer os avanços dos últimos tempos – grande parte deles calçados em investimentos em educação e cultura. O nome de Djamila Ribeiro figura há algum tempo na lista de livros mais vendidos. 

O portal Publishnews aponta que o “Pequeno Manual Antirracista”, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Ciências Humanas, foi o sexto livro de não ficção mais vendido do Brasil em 2020. Ela é responsável também pela coleção “Feminismos Plurais”, que vendeu mais de 120 mil cópias físicas. 

Para Gabriel Nascimento, autor de “Racismo Linguístico”, não se trata de fingir que estes termos nunca existiram, mas, sim, olhar para novos horizontes. “Então, é preciso não jogar fora no sentido de rejeitar, porque parece que a gente simplesmente tem o poder de rejeitar. Mas, simplesmente, passar a administrar uma situação de modificação da própria estrutura da língua falada no Brasil”.

O falar do negro no Brasil incomoda?

Recentemente, um texto publicado por uma página no Facebook viralizou questionando a ligação de algumas palavras com a escravdião. O autor, que se apresenta como um interessado em linguística, etimologia e latim,  chega a classificar o debate como censura. 

“Já falei aqui de outras lorotas divulgadas massivamente nas redes sociais como ‘feito nas coxas’, ‘criado-mudo’, ‘doméstica’ e ‘meia-tigela’, mas parece um esforço de remar contra a correnteza. Para cada explicação lógica e embasada, aparecem outras dez reforçando a censura baseada no ‘porque sim’, ‘porque me disseram’ ou ‘porque dói’”, diz um trecho do artigo que usou referências apenas de intelectuais brancos.

O professor da Universidade do Sul da Bahia não quis confrontar diretamente o trabalho do autor do texto citado, mas enfatizou ser “necessário colocar que vários destes termos são sim oriundos da escravidão e desse período mais cruel da escravidão, sobretudo a partir do século 18, quando se produz um série de naturalizações sobre o racismo”. 

Ainda sobre palavra e política. Quem mandou matar Marielle Franco?

Gabriel Nascimento complementa ressaltando que seu trabalho não é de etimologia, “é importante que a gente tenha isso bem colocado”. O professor pontua que determinados termos não dependem de sua origem para se concectarem com qualquer tipo de preconceito. Lembra da palavra em movimento no início da reportagem?

É muito comum que vários desses textos que não têm uma autoria só sejam usados para distinguir ou para marcar o corpo negro africano. Essa explicação por si só se basta sobre que, talvez, a gente não possa pensar o racismo linguístico a partir de uma teoria de origem. Porque se fosse assim, denegrir não seria uma palavra racista, razão pela qual a palavra vem do latin denigrare, que é manchar – quando não existia a escravidão.

O autor de “Racismo Linguístico” dá o exemplo do termo “feito nas coxas” como uma palavra que provavelmente não surgiu durante a escravidão, mas que ganhou outro significado no período.

“Não é só a origem. Há vários aspectos descontinuados em torno do fenômeno de um dado termo, uma dada expressão na história. Fazendo nas coxas é um outro exemplo bem interessante porque muito provavelmente, isso é uma hipótese, é um termo usado em algum momento ligado ao estupro de mulheres negras. Mas isso não quer dizer que esse termo tenha surgido com o estupro de mulheres negras”. 

O professor da Universidade do Sul da Bahia continua seu raciocínio. “Ou seja, em que pese um termo não tenha surgido de um dado fenômeno raciológico, ele pode se acoplar, se assimilar dentro da base linguística àquele fenômeno raciológico. A nossa opção tem que ser, sim, por não usar ou pelo menos começar a problematizar esse termou ou esse conceito ou essa expressão. Razão pela qual essa discussão se abre”.

Falando diretamente sobre a postagem que viralizou no Facebook, Gabriel Nascimento demonstra como a língua tem que estar aberta a se transformar de acordo com a ordem do dia. 

Eu não quero responder ao autor [da postagem no Facebook]. O que eu acho problemático é que essa discussão sempre se volta para uma taxonomia, uma fraseologia ou no máximo para uma etimologia. Ela nunca pensa a língua como fenômeno analisado mais do que uma coisa linear. Língua não é linear. A língua nunca será linear. A visão de língua como linear é que deveria estar sendo discutida por nós, porque ao falar de racismo linguístico a gente fala de tudo, menos de linearidade.

A palavra reflete também a luta pela liberdade

Intolerância linguística e raça

A discriminação se manifesta de várias formas em uma sociedade preconceituosa como a brasileira. A intolerância linguística é, talvez, uma das marcas mais características do imaginário popular do Brasil. Enquanto os sotaques do paulistano e do carioca são elogiados ou passam  no mínimo sem grandes questionamentos o Nordeste, pelo menos aos olhos do Centro-Sul do país, é visto como um grande bloco de pessoas que falam igual. 

Mais, migrantes de estados do Nordeste que ajudaram a construir cidades como São Paulo e Rio de Janeiro foram a vida toda alvos de falas discriminatórias dos chamados sudestinos. Isso se deu até no campo político, quando em 2002 o então candidato à presidência Luís Inácio Lula da Silva teve colado nas costas o estigma de “falar errado”. 

E como a intolerância linguística afeta a comunidade negra? O professor Gabriel Nascimento nos explica.

“Essa ideia trazida pela intolerância linguística diz respeito a fenômenos muito pontuais. Como no caso da pronúncia do léxico pela população negra. Importante ressaltar que a comunidade negra é impactada por isso porque normalmente a forma de conjugar, de falar, tudo isso vai passar ao léu, ou seja, vai ser despercebido quando produzido por uma pessoa branca, que guarda em si a imagem do padrão. Seria importante provocar nessa discussão a ideia de que o padrão linguístico é branco. Nos Estados Unidos, eles têm um termo para isso que é o ‘white listening subject’, que é ‘sujeito branco falante ouvinte ideal’. Seria para pensar que as próprias populações negras precisam conviver com essas normas”.  

O desafio para o futuro da palavra no Brasil passa pela compreensão de todos os envolvidos na discussão da urgência de encarar questionamentos da comunidade negra não como ataques pessoais, mas como um grito para que a escravidão seja, de uma vez por todas, encarada de frente. Trocando em miúdos, não negros precisam deixar de levar tudo para o pessoal. Gabriel Nascimento analisa essa recusa.  

O racismo é uma estrutura que parece lembrar o passado. As pessoas negras são constituídas como pessoas do passado e o racismo parece um retrato do passado porque se não existem pessoas negras no Brasil mais, quer dizer, até se aceita a existência de pessoas negras, mas a população preta é tomada já como objeto do passado – ou seja, passível de substituição na história.

A palavra que preserva tradições

O autor continua, ainda em fala ao Hypeness, sua reflexão sobre o efeito causado pela falta de responsabilização dos não brancos sobre os efeitos de atos do passado na realidade dos dias atuais.   

Parece que o racismo só se confunde com a escravidão. E não é verdade. Quanto mais aprofundados na democracia, mais nichos de racismo são representados em uma sociedade livre. A própria constituição da sociedade livre traz essa retórica, já que ela é construída para não negros, ou seja, ela é construída para pessoas claras e brancas. As pessoas brancas se desresponsabilizaram pelo passado colonial. Elas se vêem em um espaço universal, que não precisa ser falado de lugar nenhum. É um espaço que não tem culpa nenhuma pelos fenômenos que foram natualizados na história sejam eles o nazismo ou a escravidão. Então é preciso reprensar, talvez, que essas pessoas ao não quererem ver estes termos sendo repensados, são pessoas produtoras de uma realidade que também no inglês se chama de mundo pós-racial, ou seja, elas querem esquecer o errado, o ruim que fizeram no passado. E que seus ancestrais diretos também fizeram no passado.

Algumas conclusões podem ser tiradas se você chegou até aqui. Já dá para perceber que a língua é viva e, portanto, pode ser usada inclusive por instrumentos de intolerância. Da mesma forma que tem grande valor para a luta política. Para encerrar esse bate-papo, Gabriel Nascimento, professor de linguística da Universidade Federal do Sul da Bahia, ressalta como a língua atua na luta contra o racismo. 

“Não tem uma receita, mas podemos falar de instrumentos políticos importantes como o movimento hip hop. Como arte de rua, como os movimentos negros e a consolidação das artes negras no Brasil. Como a própria valorização de um pensamento hegemônicamente heterogêneo nos movimentos negros – todos eles são representativos de uma visão de domínio absoluto do papel da língua”.

Gabriel Nascimento chama a atenção para a  importância da língua na ancestralidade negra e exemplifica mostrando como a palavra serviu para que homens e mulheres escravizadas lutassem por suas liberdades.

Eu destacaria só mais um ponto,  que eu acho ser meu objeto base quando vou falar, que são as revoltas negras. A maneira como os africanos e seus descendentes diretos e indiretos estavam lidando com a escravização nos 388 anos escravização no Brasil diz respeito genuinamente a uma edição da língua a seu favor, como por exemplo a edição de manifestos em árabe para enganar o monolinguismo do colonizador que só sabia português e também a construção de cartas, inclusive no próprio português em algumas revoltas para reivindicar direitos. Isso desmoraliza totalmente a discussão de que a escolarização é o único lugar de construção de um uma espécie de erudição do africano ou do negro no país, porque esse negro africano no país ele tem uma trajetória muito maior de edição e de uso da língua a seu favor.

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Fotos: Getty Images


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.