Futuro

Rio Paraná enfrenta seca histórica que pode afetar indústria e agricultura

Vitor Paiva - 16/09/2021 | Atualizada em - 20/09/2021

Com quase 5 mil quilômetros que vão desde o Brasil até o Rio da Prata, sendo o oitavo maior rio do mundo e o segundo maior da América do Sul, atrás somente do Amazonas, o Rio Paraná está secando – e os trágicos desdobramentos de tal processo impactam frentes diversas, desde a energética até sobre a vida de trabalhadores e populações que dependem de suas águas para viver. Além de alimentar o funcionamento da Usina Hidrelétrica de Itaipu, a estiagem do Paraná afeta não só a crise de energia atual, como também pescadores, populações ribeirinhas, operadores logísticos, profissionais das hidrovias e ao agronegócio – afetando, com isso, toda a população brasileira e mesmo de outros países vizinhos, como Argentina e Paraguai.

A seca quase completa do Rio Paraná na altura da cidade argentina de Rosário

A seca quase completa do Rio Paraná na altura da cidade argentina de Rosário © Getty Images

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Diversos relatórios de órgãos especializados internacionais, como o último levantado pelo Painel Intergovernamental sobre o Clima da ONU, apontam as mudanças climáticas provocadas pela ação humana, bem como desmatamento descontrolado, a crise climática e mesmo ciclos naturais como causadores do quadro de estiagem do Rio Paraná. A partir de tais previsões para o território da América do Sul, o Brasil vive a pior seca registrada em 91 anos, mas uma mudança agrava o quadro de forma radical: hoje a população é consideravelmente maior, tanto no país de modo geral quanto diretamente nos territórios à beira do rio, e com isso a dimensão do impacto também se amplia, se comparada ao quadro de seca de quase um século atrás.

Rio Paraná seco

Em alguns pontos onde antes corra o rio largo, agora é possível atravessar a pé © CESP

Pesca no Rio Paraná seco

A pesca é uma das atividades mais diretamente afetadas pela seca do Rio Paraná © CESP

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Milhares de famílias, tanto no Brasil quanto no lado argentino do Paraná, vivem em colônias de pescadores que dependem da pesca e do turismo pesqueiro para viver – toneladas de peixes já tiveram de ser resgatadas e transportadas para partes ainda não afetadas pela seca no rio. Em 2021 o quadro de seca também impede atualmente que a hidrovia Tietê-Paraná funcione, impedindo que cerca de 4 milhões de toneladas de produtos agropecuários sejam transportadas pelas águas anualmente, em impacto econômico de cerca de 3,5 bilhões de reais para a economia brasileira, e sobre 1.500 pessoas empregadas no funcionamento de tal hidrovia – a produção agrícola do Paraguai e da Argentina também dependem diretamente do transporte pelas águas, cada vez mais escassas, do Rio.

A bacia do Rio Paraná, desde o Brasil até o Paraguai, o Uruguai, a Argentina e a Bolívia

A bacia do Rio Paraná, desde o Brasil até o Paraguai, o Uruguai, a Argentina e a Bolívia © Wikimedia Commons

Seca no Rio Paraná

Em diversos pontos do rio atingiu níveis inéditos de seca durante o período histórico © Getty Images

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Não é por acaso, portanto, que o Brasil, que produz mais de 63% de sua energia a partir de hidrelétricas, vive sua pior crise energética desde 1930: a seca do Rio Paraná é parte determinante dessa triste conta, como a bacia de maior capacidade instalada de geração de energia hidrelétrica no país. em cerca de 60%. A quantidade de água que atravessa as turbinas da usina, bem como a altura das águas do rio, determina diretamente a potencia de geração de energia – tal cálculo impacta, por exemplo, o preço da conta de luz, que sofrerá aumento já anunciado pelo governo, apesar de grande parte do consumo de água ser, em verdade, da indústria agropecuária. A seca do Rio Paraná, portanto, afeta o país de modo geral: desde as populações ribeirinhas e pescadoras, desde o preço até a própria produção de energia, que pode chegar a um apagão, dos produtos indiretos, e sobre a economia do país e de países vizinhos.

A Usina Hidrelétrica de Itaipu com o Rio em cheia

A Usina Hidrelétrica de Itaipu com o Rio em cheia © Getty Images

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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