Sustentabilidade

Tráfico para a China ameaça a onça-pintada em todo continente latino-americano

Vitor Paiva - 14/09/2021 | Atualizada em - 16/09/2021

Enquanto as queimadas, os desmatamentos, as mudanças climáticas, a redução no habitat e nas ofertas naturais de alimentos ameaçam a onça-pintada à extinção por toda América Latina, outro elemento direto da ação humana vem ameaçando o maior felino do continente: o tráfico de partes do animal, especialmente da Bolívia para o mercado ilegal da China. Tal assunto é o centro de reportagem da BBC, mostrando como a venda de presas e peles principalmente envolve organizações criminosas chinesas em uma estrutura de tráfico internacional, que ameaça não só os animais como os guardas e ambientalistas que trabalham pela proteção da onça-pintada.

Onça-pintada descansando em floresta no Peru

Onça-pintada descansando em floresta no Peru © Getty Images

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A reportagem mostra que, entre 2014 e 2019, foram apreendidas aproximadamente 760 presas do felino, em dado apresentado pela entidade ambiental boliviana Associação Savia, em dado que sugere a morte de 200 onças ou mais, já que nem sempre os quatro caninos conseguem ser extraídos corretamente. Segundo investigação realizada em 2020 pela ONG Earth League International (ELI) em parceria com o comitê holandês da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), as organizações responsáveis pelas capturas, mortes e o tráfico de partes estão também envolvidas em outras atividades criminosas na Ásia, ligadas diretamente ao crime organizado local, incluindo um conhecido braço mafioso em Hong Kong.

Presas de Onças-pintadas apreendidas na Bolívia, antes de serem revendidas para o mercado internacional

Presas de Onças-pintadas apreendidas na Bolívia, antes de serem revendidas para o mercado internacional © ELI

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De acordo com o relatório, as partes do animal são mandadas pela Ásia principalmente a partir de rotas saídas do Suriname e da Guiana, mas até mesmo a carne do animal é vendida para restaurantes na cidade boliviana de Santa Cruz. Os ossos e os órgãos genitais do animal são também vendidos no mercado clandestino internacional, como amuletos e joias, em quadro que é também apontado em outros países do continente, como Panamá, México, Peru, Guiana e o Brasil, onde vive a maior população de onças-pintadas no continente.

Presas de onça-pintada

As partes dos animais são vendidas como joias, amuletos ou mesmo matéria-prima para supostos medicamentos © ELI

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O assunto é também tema do documentário Tigre Gente, que estreou recentemente no festival Tribeca, de Nova York. Dirigido pela bióloga e documentarista estadunidense Elizabeth Unger, o filme mostra não somente a questão do tráfico internacional, mas também a importância da conservação do animal para o meio-ambiente e a cultura local. Para mostrar também a forma como a prática ameaça a vida de pessoas que trabalham pela conservação da onça-pintada, o filme é focado em Marcos Uzquiano, chefe de proteção ambiental do Parque Nacional Madidi, na Bolívia, e na jornalista chinesa Laurel Chor, que investiga a prática pelo lado asiático.

Cenário amazônico do Parque Nacional Madidi, na Bolívia

Cenário amazônico do Parque Nacional Madidi, na Bolívia © Wikimedia Commons

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Ponto importante da reportagem lembra que os traficantes propriamente são o elo mais fraco de um imenso mercado, que movimenta prática que só pode ser efetivamente interrompida a partir de uma grande cooperação internacional, já que as entidades ambientais não possuem meios financeiros nem poder de ação para tal. O investimento em políticas e na educação ambiental é, portanto, determinante para a vida – ou a morte – do maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo em um futuro que cada vez mais parece curto para o animal. A reportagem da BBC pode ser lida na íntegra aqui.

Onça-pintada

Estima-se que em quatro anos o tráfico tenha matado ao menos 200 onças-pintadas na região © Getty Images

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.