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True crimes: por que crimes reais despertam tanto interesse nas pessoas?

Gabryella Garcia - 24/09/2021

Seja através de filmes, livros, séries ou podcasts, True Crime é um gênero cada vez mais presente no mundo do entretenimento. Feminicídios, crimes em série, desaparecimentos e até mesmo assassinatos infantis são alguns dos variados temas abordados nessas histórias, que em sua maioria, conversam muito com um conteúdo jornalístico. Recentemente séries e documentários como Elize Matsunaga, O Assassino de Golden State, o Filho de Sam e o culto Nxvim ganharam destaque e prenderam a atenção do público por longas e longas horas. Mas afinal, por que há tanto interesse nesse conteúdo e nessas histórias de crimes reais? Para nos ajudar a entender as nuances, e também um pouco da origem desse grande interesse, o ‘Prosa’ convidou o especialista em Psicologia Jurídica e pós graduando em Psicologia Investigativa e Criminal, Matheus de Oliveira Silva, a responsável pelo podcast Crime Mania, Rafa Rosso, e a responsável pelo podcast Apenas um Podcast, Marisa Ricci para um bate papo.

Para Rafa, há três principais fatores que fazem o público se interessar tanto por esse tipo de conteúdo: dicas, prevenção e também uma espécie de conforto. “A primeira coisa que nos faz querer escutar essas histórias é uma questão de dica, porque você escuta uma história real e consegue pegar dicas de coisas que aconteceram ali para se prevenir, principalmente como mulher. A segunda é a terapia à disposição, que é basicamente você olhar cenários que podem acontecer com você e se proteger, e também projetar cenários que ainda ainda nem aconteceram. A terceira coisa acho que é a questão de ter um conforto, sabendo de uma narrativa que pode acontecer e saber identificá-la, como uma situação de manipulação, por exemplo. É um conforto de saber o que pode acontecer com você”.

Já o psicólogo Matheus apontou a midiatização dos casos e o chamando “efeito CSI” como grandes propulsores do interesse do público. O efeito CSI, inclusive, possui um fator positivo que é o interesse das pessoas nessa realidade, que acaba trazendo uma valorização para as profissões de perícia e investigação criminal. O efeito negativo, entretanto, é que as pessoas tentam trazer a ficção para a realidade.

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“Acaba até prejudicando porque as pessoas chegam exigindo que o caso seja resolvido em 45 minutos porque o caso dela é parecido com o que ela viu na série e lá foi resolvido nesse tempo, esse é o ônus que o efeito CSI acaba causando”.

A podcaster Marisa Ricci ainda apontou o fator curiosidade como um fator que desperta o interesse das pessoas. “Querem saber quem foi aquela pessoa, tanto o autor quanto a vítima do crime, e entender como o caso funciona. Muitas pessoas também querem desvendar os casos e às vezes não tem nem solução. A pessoa que ser detetive e criar mil teorias na cabeça. Muito do meu público é movido pela curiosidade”.

Gênero e raça dos crimes

Muitos desses crimes tem mulheres como vítimas e homens como autores. Rafa também chama a atenção para a dinâmica dos crimes, apontando que mulheres, quando autoras desses crimes, utilizam artefatos mais próximas das vítimas, como uma faca por exemplo. Os homens, por outro lado, costumam utilizar revólveres para cometer os crimes, sendo mais elaborados e com outras motivações.

Sobre as motivações, Marisa ainda destacou que geralmente são sexuais quando os crimes são cometidos por homens. Em relação a questão racial ela também apontou uma diferença de tratamento. “Em muitos casos em que as vítimas são negras ou latinas elas não são escolhidas por acaso. É porque sabem que a polícia não vai ligar e não vai investigar direito. Você percebe em casos de serial killers que matam pessoas brancas as investigações são muito mais rápida. O caso Ted Bundy, por exemplo, foi relativamente rápido e outros casos não tinham a mesma rapidez e agilidade”.

True crimes

Durante a prosa nossos convidados destacaram que as maiores vítimas de crimes são mulheres; machismo seria a causa

Matheus ainda apontou uma diferenciação de gênero causada pelo machismo, mas destacou que existem sim assassinas mulheres, as chamadas lady killers. “Eu defendo que essas mulheres existem mas são menos identificadas inclusive pelo machismo. Até 1991 o FBI não considerava que mulheres pudessem cometer assassinatos em série e isso só mudou quando uma assassina utilizava métodos que se pareciam com os de homens. Ela utiliza armas de fogo e era brutal, então para uma mulher ser considerada assassina em série teve que se igualar aos homens em modus operandi. Em relação às vítimas as mulheres são as principais e isso é reflexo do machismo na sociedade”.

Lidando com os crimes

Durante a prosa Matheus também destacou que crimes sexuais ou que envolvam crianças são os mais pesados e que lhe causam os maiores desconfortos. Rafa também relatou que esse tipo de história já fez com que parasse de acompanhar um caso na metade, para apenas depois conseguir retomar. Ela também mostrou incômodo com a construção das narrativas de crimes reais.

“Uma das minhas grandes incomodações é que muitos dos materiais que existem são sobre o assassino. Ele não é mais importante do que a vítima! Quem é importante na verdade é a vítima, então nos casos que faço sempre procuro tratar do ponto da vista da vítima e não do assassino. Quem era aquela pessoa, o que ela fazia e quem eram seus amigos, por exemplo“.

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Sobre tipos de crimes ou casos Marisa contou que não sente uma limitação no sentido de qual história contar ou não. “Não tenho limitação para contar histórias, mas talvez eu não conte em determinados formatos. Já cheguei a chorar em uma Live contando o caso da Junko Furuta, que aconteceu no Japão”.

O episódio também abordou questões como racismo, misoginia, lady killers pelo mundo, casos marcantes, influência da internet nas histórias, início do interesse por crimes reais e muito mais!

Ficou curioso para saber o que mais rolou nessa prosa? Então aperta o play, sinta-se em casa e vem com a gente! Ah, também guardamos dicas culturais incríveis para você nesse episódio enquanto aprecia um café com um pão quentinho!

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Fotos: Getty Images


Gabryella Garcia
Gabryella Garcia é paulista, mulher trans, transfeminista e jornalista pela Unesp. Começou a carreira escrevendo horóscopos para o João Bidu e agora foca em escrever sobre direitos humanos e recortes de gênero. Já passou por veículos de São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo e também colaborou para veículos como Ponte Jornalismo, Congresso em Foco e Elle Brasil. Atualmente, além de produzir o podcast "Prosa", para o Hypeness, também colabora com o UOL. Além disso atua como voluntário no Projeto Transpor, um projeto que oferece consultoria profissional gratuita para pessoas transgêneros com montagem de um currículo assertivo, Linkedin e simulação de entrevistas de emprego.

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