Inspiração

Vila Itororó: a história da 1ª piscina de São Paulo no mais novo centro cultural da cidade

Gabriela Rassy - 14/09/2021

O Centro Cultural Vila Itororó acaba de ser plenamente inaugurado em São Paulo, depois de anos de espera. O complexo de edifícios históricos tombados reabre as portas ao público dentro do circuito cultural paulistano com a Jornada do Patrimônio, mas o local guarda histórias que datam do ano de 1922, quando aconteceu a Semana de Arte Moderna e envolvem a primeira piscina da cidade.

A metrópole pode não ter mar, mas poderia sim ser ainda banhada por seus incontáveis rios. E, claro, com tanta oferta de água doce à disposição, nem mar e nem piscina deviam fazer tanta falta à população.

 

Os rios, aliás, tinham papel importante nos esportes já que as competições de natação aconteciam em cercados flutuantes de madeira nos rios Pinheiros e Tietê, até péssimas decisões administrativas passassem a enviar o esgoto da cidade a eles, por volta dos anos 1940.

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Outro resquício de péssima administração da cidade marca a história da Vila Itororó e à conecta ao Thetro São José. A casa de espetáculo paulistana ganhou novo endereço após um incêndio, sendo reinaugurada próxima ao Viaduto do Chá. Ele funcionou até outubro de 1920 quando foi vendido para a Light e hoje é um grande… shopping.

Afinal o entulho do teatro foi reaproveitado em uma nova construção que nasceria entre a Liberdade e a Bela Vista com o nome de Vila Itororó. O lugar ganhou o nome em uma homenagem à nascente do Riacho do Itororó – hoje Avenida 23 de maio. Se as pedras que ali ganhavam novo formato haviam visto o rio aos seus pés, agora ele chegaria até o novo endereço para abastecer a primeira piscina particular que se tem registro na cidade.

Segundo pesquisa de Douglas Nascimento, editor do site São Paulo Antiga, a Vila ganhou estátuas e esculturas do antigo São José, o que fazia do lugar um ponto inusitado.

“Ainda se destacam no local vários vitrais circulares que decoram a mansão, cada um com um brasão real europeu, além dos brasões da cidade e do Estado de São Paulo, e do antigo império brasileiro. Na sala principal da mansão, gárgulas decoram o ambiente”, escreve Douglas.

Já no site da Vila Itororó é possível ler uma série de materiais sobre o espaço, com destaque para uma importante análise sobre o patrimônio histórico de São Paulo. Um espelho das brutais transformações que transformaram a cidade no que é hoje:

“A cidade cresceu apagando-se a si mesma e apagando assim a possibilidade que seus habitantes teriam de se lembrar das suas próprias histórias. Por isso, o trabalho de reflexão sobre o patrimônio hoje deve ser lido como uma luta para o direito à memória, luta que passa em grande parte pelo direito à cidade, ou seja, pelo direito de participar ativamente das mudanças do nosso entorno e, portanto, do nosso passado e do nosso futuro. O que deve ser restaurado? O que deve ser destruído? O restauro (…) é em primeiro lugar uma escolha crítica que participa de definir o que deve ou não ser apagado, discutido ou reabilitado”.

A restauração e inauguração da Vila Itororó

A Vila Itororó sempre teve como uso principal a moradia, mas foi tornada patrimônio histórico e desapropriada para fins culturais a partir de 2013.

Após a entrega da primeira fase do projeto de restauração em 2019, a Vila Itororó é inaugurada e aberta ao público com diversas atividades artísticas e culturais ativando os espaços já restaurados e as áreas comuns que foram revitalizadas para receber o público.

O conjunto ocupa uma área de cerca de 6.000 metros quadrados e foi tombado pelo CONPRESP em 2002 e pelo CONDEPHAAT em 2005. Porém, apenas o espaço do Galpão estava disponível para atividades culturais até o momento.

A programação, a ser divulgada em breve, ainda prevê a realização de shows intimistas, feiras gastronômicas e de artesanato, oficinas e exposições, e um café para que os visitantes possam se aconchegar ainda mais.

Por fim, o público também pode contar, desde a inauguração, com um acervo literário voltado, especialmente, para literatura infantojuvenil, mas que também envolve material relacionado a patrimônio cultural, arquitetura e história, incluindo conteúdo sobre a ocupação da Vila. Futuramente, a biblioteca será integrada ao Sistema Municipal de Bibliotecas de São Paulo.

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Fotos: Divulgação Secretaria de Cultura / Acervo Vila Itororó


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.