Debate

A estátua com roupas sensuais que escancara o machismo na Itália

Vitor Paiva - 06/10/2021

Vem causando intensa polêmica a inauguração de uma estátua na cidade de Sapri, povoado ao sul da Itália, em homenagem a um clássico poema político da região. O motivo da controvérsia, porém, não é a temática revolucionarias dos versos celebrados, mas sim a própria representação em bronze, já que a estátua representando uma personagem feminina do poema, ressalta ostensivamente o as formas do corpo da mulher: a estátua foi considerada excessiva e desnecessariamente sensual, e vista como um exemplo da sexualização da mulher e do machismo como mediador da representação feminina de modo geral.

A polêmica estátua na cidade italiana de Sapri

A polêmica estátua na cidade italiana de Sapri © Getty Images

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Criada pelo artista italiano Emanuele Stifano, a estátua mostra uma mulher com um fino vestido colado ao corpo revelando, por exemplo, as nádegas da mulher, e o braço direito sobre os seios para representas uma respigadora, camponesa responsável por recolher os grãos deixados pelos colhedores, a fim de celebrar o poema La Spigolatrice di Sapri (A Respigadora de Sapri, em tradução livre), escrito em 1857 por Luigi Mercantini. A historia conta que a respigadora largou o trabalho para se juntar a uma insurreição contra o então Reino de Nápoles, que terminou frustrada e com a morte de 300 pessoas, mas que se revelou acontecimento importante para o processo de unificação da Itália.

A estátua de Sapri

A representação foi considerada excessiva e desnecessariamente sexualizada © Getty Images

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“Mais uma vez temos que sofrer a humilhação de nos vermos representadas sob a forma de um corpo sexualizado, sem alma e sem conexão com questões sociais e políticas da história”, afirmaram, em nota, representantes da ala feminina do Partido Democrata, pedindo pela retirada do monumento. “Esta estátua da respigadora nada diz sobre a autodeterminação da mulher que optou por não ir trabalhar para se levantar contra o opressor Bourbon”, escreveu a senadora Monica Cirinnà, em seu perfil no Twitter, afirmando que a estátua não passa de um “um tapa na cara da história e das mulheres que ainda são apenas corpos sexualizados”.

O artista italiano Emanuele Stifano

O artista italiano Emanuele Stifano © Facebook

A estátua de Sapri

A polêmica fez o interesse pela estátua aumentar consideravelmente © Getty Images

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O prefeito de Sapri, Antonio Gentile, defendeu a obra, afirmando se tratar de uma criação “impecável”, e que a cidade nào iria questionar “seus valores, princípios e tradições”. O próprio Stifano veio à público para também se posicionar em defesa de sua criação, se dizendo “chocado e desanimado” com as reações negativas. Segundo o artista, o vestido foi retratado colado ao corpo para representar a “brisa do mar” e sugerir o local onde a estátua está. “Quando faço uma escultura procuro sempre cobrir o menos possível o corpo humano, sem distinção de género”, afirmou. “Neste caso, como a obra ia ficar na orla, aproveitei a brisa do mar para dar movimento à saia comprida, colocando assim o corpo dela em evidência”.

A estátua de Sapri

A obra fica à beira do mar, e o vestido colado, segundo o artista, representaria a brisa marítima © Facebook

A estátua de Sapri

Detalhes da estátua, à luz do dia © Facebook

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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