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Central Park, em NY, foi construído com destruição de bairro negro

Vitor Paiva - 04/10/2021 | Atualizada em - 06/10/2021

O racismo é de tal forma elemento estrutural das sociedades ocidentais que se faz visível em qualquer assunto – até mesmo em temas como urbanização e o desenvolvimento de grandes cidades como Nova York. Por trás de um dos mais célebres cartões-postais de Manhattan está um perfeito exemplo da perseguição racial e da violência contra a população negra que caracteriza todas as relações sociais em um país como os EUA: pois antes do Central Park ser construído existia a Seneca Village, um bairro essencialmente negro que existia no coração da ilha.

Central Park

Fundado em 1858, o Central Park é hoje o parque urbano mais visitado dos EUA © RawPixel

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A comunidade formada predominantemente por populações negras começou a ser levantada em 1825 por negros e negras libertas, na região compreendida entre as ruas 82 e 89 do lado oeste de Manhattan, hoje uma pequena parte do parque central da cidade – consta que a comunidade também era formada por algumas famílias de imigrantes irlandesas e alemãs. Até 1832 os 200 lotes originais, postos à venda pelos então proprietários John e Elizabeth Whitehead seriam vendidos por preços acessíveis para a população afro-americana, e assim nascia um refúgio contra o racismo dominante, longe da parte então mais populosa e abastada, na parte sul da cidade: vale lembrar que a escravidão foi abolida em Nova York em 1827.

Mapa mostrando o Seneca Village antes da construção do Central Park

Mapa mostrando o Seneca Village antes da construção do parque © Arquivo Municipal de NY

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Em 1855 o bairro de Seneca Village era formado por cerca de 225 moradores, metade deles proprietários das próprias casas, o que permitia inclusive que participassem das eleições. Pouco antes, porém, em 1853 foi aprovada a construção do primeiro grande parque público do país, sobre cerca de 3,4 quilômetros quadrados da rua 59 até a 106 – em perímetro que incluía, portanto, a comunidade. A tomada do espaço se deu através de apropriação, com o estado removendo e reposicionando a população e oferendo uma pequena compensação financeira aos proprietários: em 1857 as casas já estavam vazias e sendo postas ao chão, e no ano seguinte o Central Park foi inaugurado.

Ilustração mostrando parte da comunidade de Seneca Village em 1855

Ilustração mostrando parte da comunidade em 1855 © Biblioteca Pública de NY

Resto de construção localizada dentro do Central Park que precede a construção do parque

Resto de construção localizada dentro do Central Park que precede a construção do parque © Wikimedia Commons

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Ao todo, cerca de 1600 moradores foram removidos para a construção do parque, mas Seneca Village era a maior comunidade formal da região. Pouco se sabe hoje sobre como era a vida na comunidade ao longo de seus 32 anos de existência, mas algumas escavações e esparsos registros sugerem uma vida estável e até mesmo próspera entre as cerca de 50 casas que formavam o bairro com jardins, fontes de água, três igrejas e uma escola. Hoje o Seneca Village Project mantem viva a memória e a busca por maiores registros da história do bairro – mais um dos tantos, não só nos EUA mas em todo o mundo, na qual a população negra foi perseguida e teve sua comunidade destruída pelo racismo e a ambição.

Central Park

O parque cobre hoje cerca de 3,4 quilômetros quadrados de Manhattan © Wikimedia Commons

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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