Inovação

Como um dos mais graves naufrágios da história mudou a navegação e até a tecnologia pra sempre

Vitor Paiva - 08/10/2021

Na noite do dia 22 de outubro de 1707, quatro navios dos 21 que formavam o esquadrão inglês que retornava ao país viriam a naufragar em um ponto ao sul da costa da Inglaterra – entre eles o HMS Association, um dos mais famosos barcos a afundar na história da navegação, cujo fim viria a alterar a forma e até mesmo a tecnologia com a qual cruzamos os mares até hoje. Os acidentes com o Association, junto do naufrágio do Eagle, do Romney e do Firebrand, aconteceram entre as rochas do arquipélago das Ilhas Scilly, ponto onde centenas de navios afundaram ao longo da história, e custaram a vida de quase 2 mil pessoas, em um dos mais graves desastres da história, e a busca por uma solução para o ocorrido moveu a navegação, e seus instrumentos, a se modernizarem.

Ilustração com o HMS Association ao centro

Ilustração mostrando a trágica noite, com o HMS Association ao centro © Wikimedia Commons

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O motivo do naufrágio era tão complexo quanto compreensível: não havia então uma maneira efetiva dos navegadores saberem com maior precisão a longitude exata da embarcação no mar. Soma-se tal quadro ao péssimo tempo daquela noite, e o Capitão Edward Loades, que pensava estar navegando o Association na costa da Bretanha em direção ao Canal da Mancha, em verdade rumava na direção das rochas afiadas, conhecidas como Western Rocks, das Ilhas Scilly – e assim a tragédia sucedeu.

Uma das Western Rocks, das Ilhas Scilly, vista de perto

Uma das Western Rocks, das Ilhas Scilly, vista de perto © Getty Images

Ilhas Scilly

O pequeno porém mortal arquipélago das Ilhas Scilly © Wikimedia Commons

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A tragédia causou comoção nacional, e influenciou diretamente para que, em 1714, o parlamento inglês aprovasse a Lei da Longitude, que oferecia uma vistosa recompensa de 20 mil libras – uma verdadeira fortuna para a época – a quem desenvolvesse uma solução viável para a determinação no sentido leste-oeste dos navios no mar. Gigantes da ciência como Edmond Halley, astrônomo que decifrou o cometa que leva seu nome, e até mesmo Isaac Newton buscaram uma solução para o milionário desafio, mas quem o solucionou mesmo foi um carpinteiro e relojoeiro de Yorkshire chamado John Harrison.

Modelo do H4, relógio desenvolvido por John Harrison

Modelo do H4, relógio desenvolvido por Harrison © Wikimedia Commons

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A solução só veio em 1759, mas alterou a ciência da navegação para sempre – através do H4, um relógio de bolso capaz de calcular a longitude com precisão: em uma viagem de teste realizado até a Jamaica, o relógio de Harrison atrasou somente 1 minuto e 54 segundos, e se tornou modelo para o desenvolvimento de diversos medidores desde então, tornando as viagens marítimas de longas distâncias consideravelmente mais seguras. O Association permaneceu intocado no fundo do mar por 260 anos, só sendo descoberto em 1967, de onde mais de 2 mil moedas, um canhão e outros artefatos foram retirados – desse que é um dos mais trágicos naufrágios da história, mas que acabou por ajudar indiretamente a salvar muitas vidas futuras.

Um dos canhões resgatados do Association em 1970

Um dos canhões resgatados do Association em 1970 © Wikimedia Commons

Naufrágio do Association

Ilustração mostrando o naufrágio do navio © Getty Images

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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