Viagem

Consonno, a ‘Las Vegas italiana’ dos anos 1960, hoje se tornou uma cidade-fantasma

Vitor Paiva - 01/10/2021

Quem hoje vislumbra o cenário abandonado e arruinado na província de Lecco, subindo pela estrada ao sul dos Pré-Alpes Lombardos, na Itália, mal pode crer que a cidade-fantasma de Consonno, a cerca de uma hora de Milão, um dia recebeu intensas atividades turísticas, com festas infinitas, luzes espetaculares, jogatina, luxo e muito mais. Projetada como uma espécie de Las Vegas italiana, a “cidade de brinquedos”, como foi apelidado o local, era um projeto imaginado por um magnata e Conde chamado Mario Bagno que, no entanto, nunca chegou a ser totalmente concluída, se tornando uma cidade abandonada em poucos anos.

cartão-postal lembra os tempos áureos de Consonno

“Lembrança de Consonno”: cartão-postal lembra os tempos áureos da Las Vegas italiana © Amigos de Consonno/Facebook

Um dos muitos edifícios abandonados no cenário atual de Consonno

Um dos muitos edifícios abandonados no cenário atual de Consonno © Getty Images

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Até o início dos anos 1960, Consonno era simplesmente uma pequena e pobre vila a 600 metros de altitude com uma bela vista para os alpes na região da Lombardia, sem sequer uma estrada que permitisse a chegada de carros até o local. Foi quando o Conde Mario Bagno se encantou pelo local e, com a força da fortuna que fez como construtor de estradas e infraestrutura em Milão, decidiu simplesmente comprar toda a vila, expulsar os moradores, derrubar boa parte das antigas edificações para começar a construir sua “cidade de brinquedos”, enquanto também construía enfim uma estrada para que os turistas pudessem chega: até mesmo uma colina próxima foi explodida, a fim de melhorar a vista do local.

Conde Mario Bagno

O Conde Mario Bagno, que construiu Consonno © Amigos de Consonno/Facebook

A igreja da antiga vila de Consonno

A igreja da antiga vila, um dos únicos prédios que não foram derrubados © Getty Images

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A Las Vegas italiana seria um verdadeiro resort turístico, movido pelo boom econômico vivido pelo país no contexto após a segunda guerra mundial, oferecendo lazer e prazer no mais esplendoroso formato, com hotéis de luxo, salões de baile, restaurantes, castelos, campos esportivos, shoppings, parques de diversões, cassinos, zoológicos e até um autódromo para corridas. Dos prédios antigos só foram mantidos de pé uma igreja do século XIII, uma casa anexa e um pequeno cemitério: o plano era que a nova cidade crescesse cada vez mais, e no final dos anos 1960, conforme alguns dos espaços foram sendo inaugurados, Consonno começou a receber visitantes, e chegou a viver dias de glória, com shows e alta frequência.

Consonno vista de cima

O local em construção, visto de cima no fim dos anos 60 © Amigos de Consonno/Facebook

Consonno

A construção, à época que a cidade recebia turistas © Amigos de Consonno/Facebook

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No início dos anos 1970, porém, o interesse turístico pelo local começou a minguar antes mesmo de todo o projeto inicial estar concluído: as burocracias e o difícil temperamento de Bagno – que costumava ordenar uma construção em um dia e mudar de ideia em seguida, exigindo a demolição da mesma – atrasavam o processo, mas o golpe fatal veio mesmo dos céus. Em 1976, chuvas intensas somadas ao desequilíbrio geológico e hídrico provocado pelas tantas construções, causaram um imenso deslizamento, que destruiu a única estrada que oferecia acesso a Consonno: o sonho da “cidade de brinquedos” estava literalmente enterrado.

O pagode japonês em Consonno em 1967

O pagode japonês na cidade em 1967 © Wikimedia Commons

O pagode japonês abandonado em Consonno

O mesmo local, hoje abandonado © Wikimedia Commons

O interior da outrora imponente torre de Consonno

O interior da outrora imponente torre da cidade © Wikimedia Commons

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Em 1981 o Conde reabriu a estrada, e transformou o Grand Hotel Plaza, outrora preparado para receber turistas de todo o mundo, em uma casa de repouso, que viria a funcionar no local até 2007. Após o falecimento de Mario Bagno em 1995, aos 94 anos, a propriedade da cidade de seus sonhos foi passada a seus herdeiros, e desde então especulações sobre a possível venda do imenso terreno, bem como o futuro do local, seguem povoando o imaginário local. Para além de uma série de raves e festas ilegais que já tomaram o local ou de eventos realizados por uma associação de “Amigos de Consonno”, por enquanto, a “cidade de brinquedo” segue sendo somente uma cidade-fantasma, como um fóssil ou um esqueleto de um passado recente, um símbolo de desperdício e delírio livremente acessado por curiosos pela mesma estrada onde tudo começou e terminou.

estrada de consonno

Parte da famigerada estrada que leva à cidade © Wikimedia Commons

O hotel de luxo que nunca chegou a ser concluído em Consonno

O hotel de luxo que nunca chegou a ser concluído © Wikimedia Commons

A cidade abandonada de Consonno

Traços do passado luxuoso ainda se fazem visíveis no local © Getty Images

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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