Arte

Os Incoerentes: o movimento que em 1882 antecipou as mais importantes tendências artísticas do século 20

Vitor Paiva - 29/10/2021 | Atualizada em - 04/11/2021

Antes do modernismo e seus infinitos desdobramentos artísticos, antes do dadaísmo e sua iconoclastia conceitual, antes do futurismo imaginar a assim inventar o amanhã, havia Os Incoerentes. Fundada pelo escritor e editor francês Jules Lévy em 1882, o pequeno movimento artístico ao redor de um grupo de autores e artistas, apesar de sua curta duração, antecipou diversas tendências que se tornariam pilares dos grandes movimentos que surgiriam em seguida, no início do século XX: irreverente, satírica e rebelde, a “Arte Incoerente” apontou o futuro – da arte e da própria cultura, mesmo que hoje pouca gente se lembre do movimento.

Cartaz de uma das exposições dos Incoerentes

Cartaz de uma das exposições dos Incoerentes © Wikimedia Commons

-O charme absurdo do surrealismo erótico dos anos 1920

O momento fundador do Movimento Incoerente se deu em Julho de 1882 quando, aproveitando o espírito de um tempo inventivo e efervescente em descobertas científicas e inovações sociais, Lévy resolveu “desafiar” os estatutos da arte tradicional organizando em Paris uma exposição de “desenhos feitos por artistas que não sabem desenhar”.  O espírito era de sátira intensa, multiplicação de paródias, misturas de estilos e gêneros artísticos, e um exemplo incontestável do pioneirismo direto do movimento é a obra The Mona Lisa Smoking a Pipe, ou A Mona Lisa Fumando Um Cachimbo, de Sapeck, criada em 1887 mostrando a Gioconda de Da Vinci com um cachimbo na boca, prefigurando em mais de 30 anos a icônica apropriação da obra L.H.O.O.Q., na qual Marcel Duchamp pinta um pequeno bigode e uma barbicha no mais famoso quadro da história.

A Mona Lisa Fumando Um Cachimbo, de Sapeck (1887)

A Mona Lisa Fumando Um Cachimbo, de Sapeck (1887) © Wikimedia Commons

Arte Incoerente

Entrada de um dos eventos do movimento © Wikimedia Commons

-Valadon: a modelo de Renoir era na verdade uma grande pintora

Segundo Lévy, o trabalho dos artistas incoerentes era “deliberadamente irracional”, desafiador, tornando objetos aleatórios e esboços humorísticos em arte, peças sem sentido em posicionamento, trocadilhos em poemas, e mais: o que parecia ingênuo, banal e até mesmo ridículo, em verdade antecipava muitas tendências – ou não se encontram traços claros do surrealismo na arte incoerente também? A exposição de outubro de 1882 foi um imenso sucesso, como um grande happening ao estilo dos cabarets, com 2 mil visitantes na inauguração, incluindo a presença de nomes como Manet, Renoir, Camille Pissarro e Richard Wagner, em evento que debochava da pompa elitista dos salões de arte de então, foi compreendido pela imprensa à época como um “ataque à arte”.

Caricatura criada por Emile Cohl retratando Jules Lévy

Caricatura criada por Emile Cohl retratando Jules Lévy © Wikimedia Commons

La femme sans visage, ou A Mulher sem Face, de Marc Sonal, no catálogo de arte incoerente

La femme sans visage, ou A Mulher sem Face, de Marc Sonal, no catálogo de arte incoerente (1884)

-Fluxus, o grupo do qual fez parte Yoko Ono e que desafiou nos anos 1960 os parâmetros do que a arte pode ser

Nos anos seguintes, o movimento seguiu efervescente, apresentando diversos eventos caóticos e instigantes com grande sucesso – mas pouca renovação. Aos poucos, Lévy começou a ser alvo de críticas, acusado de estar usando o movimento para favorecimento pessoal e econômico. Cerca de uma década depois, a Arte Incoerente era ignorada pela imprensa e pela crítica que tanto a havia celebrado: 130 anos depois e praticamente ninguém mais lembrava que um dia o grupo formado por Lévy, Sapeck, Geffe, Marc Sonal e Alphonse Allais, entre outros, desafiou com sucesso o estatuto da arte do final do século XIX, e antecipou algumas das mais importantes facetas da arte do século XX.

“Des souteneurs, encore dans la force de l’âge et le ventre dans l’herbe, boivent de l’absinthe”, peça de Alphonse Allais, de 1897

“Des souteneurs, encore dans la force de l’âge et le ventre dans l’herbe, boivent de l’absinthe”, peça de Alphonse Allais, de 1897, descoberta no baú e considerada fundadora dos ready-mades dadaístas © Galerie Johann Naldi/Messy Nessy

“La tortue et les deux canards, d’après Lafontaine (Molière)”, de 1884, também encontrada no depósito e presente na exposição mais recente

“La tortue et les deux canards, d’après Lafontaine (Molière)”, de 1884, também encontrada no depósito e presente na exposição mais recente © Messy Nessy/reprodução

-Méret Oppenheim: mais uma mulher que, assim como Dalí, deveria ter sido um ícone do surrealismo

Curiosamente, uma exposição realizada no início de 2021 em uma pequena galeria em Paris celebrou o movimento, e reuniu 17 peças dos Incoerentes, descobertas recentemente dentro de um baú em um depósito na cidade – esquecidas há mais de 120 anos. Conforme reportou uma matéria no site Messy Nessy, o proprietário original das obras segue desconhecido, mas o que se espera é que o interesse pela Arte Incoerente cresça, e que essa lenda esquecida do passado seja enfim reconhecida como um capítulo importante da história da vanguarda e da própria modernidade.

Arte incoerente

Um dos primeiros cartazes do movimento © Wikimedia Commons

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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