Arte

Sada Yacco: artista que trouxe o teatro kabuki para o ocidente foi vendida aos 4 anos para pagar a educação do irmão

Vitor Paiva - 08/10/2021 | Atualizada em - 13/10/2021

Em 1900, após se apresentar na Exposição Universal, em Paris, com a companhia de teatro Kabuki que havia criado ao lado do marido, a atriz e gueixa japonesa Sada Yacco se tornou quase que instantaneamente uma estrela internacional. Era a primeira vez que o ocidente de modo geral assistia àquele tipo de interpretação de intensa estilização e dramatização combinada à dança tradicional, ao primor irretocável dos figurinos e à maquiagem feito verdadeiras obras de arte sobre a face dos atores. Foi, no entanto, o talento e a beleza de Yacco que mais impactaram as plateias na grande feira mundial realizada na capital francesa: quem poderia dizer que aquela mulher que se tornaria uma das mais celebradas e famosas no mundo de então, poucos anos antes havia sido vendida para pegar a educação de um de seus doze irmãos?

A artista japonesa Sada Yacco

A artista japonesa Sada Yacco se tornaria o maior nome do Kabuki – e um ícone internacional

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Em uma sociedade radicalmente machista como a japonesa, Sada Yacco nasceu em 1871, e com somente quatro anos foi enviada para trabalhar numa casa de gueixas, a fim de amortizar uma dívida do pai e permitir pagar pela educação de um de seus irmãos. Três anos depois e com a morte do pai, ainda criança Yacco seria adotada pela proprietária da casa, e aos 12 anos estrearia como gueixa. A jovem aprenderia a ler e escrever, raridade entre as mulheres da época, e estudaria artes marciais e artes em geral.

A jovem Yacco em cena no início de sua carreira

A jovem Yacco em cena no início de sua carreira

Sada Yacco junto de Kawakami Otojiro

Yacco junto de Kawakami Otojiro

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Sua beleza e seu talento como gueixa, mas também como atriz, eram especiais, e com somente 15 anos foi vendida para se tornar amante de Ito Hirobumi, o primeiro-ministro inaugural do Japão. Aos 18 anos ela conquistava sucesso nos palcos japoneses, para em seguida se casar com o ator Kawakami Otojiro, com quem viria a inaugurar um teatro no país e a companhia com a qual viajaria ao Ocidente: primeiro aos EUA com grande sucesso, depois para Paris e, em seguida, para o mundo. Foram diversas turnês internacionais, pelas quais nome como a bailarina Isadora Duncan, o pintor Pablo Picasso – que fotografou e até pintou a artista japonesa – o compositor Claude Debussy e outros gênios da época se declarariam admiradores do trabalho de Yacco.

Sada Yacco na capa da revista Harper's Bazar

A artista consagrada na capa da revista Harper’s Bazar

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Yacco se tornava o maior nome do teatro kabuki no mundo, em uma forma de arte quase que exclusivamente praticada por homens, cujo a participação feminina sequer era permitida por lei poucos anos antes – ironicamente, o kabuki foi criado por Izumo no Okuni, uma mulher. Ao voltar para o Japão, Sada Yacco não era mais somente uma gueixa ou uma atriz famosa, mas sim um verdadeiro ícone internacional – símbolo da mulher moderna e livre que começava a se afirmar no século XX que também começava. Otojiro viria a falecer em 1911, e um ano depois Yacco deixaria os palcos. A artista atravessaria a Segunda Guerra Mundial já doente, e viria a falecer aos 75 anos, em 1946 – mas se hoje tal arte e cultura japonesa são emblemáticas no mundo, isso se deve em muito ao talento dessa grande artista.

Sada Yacco

Yacco se tornou símbolo da mulher independente e livre que se formava junto com o século XX 

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© fotos: Messy Nessy/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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