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The Fool: o coletivo de artistas e designers místicos que levou os Beatles para o estilo psicodélico

Vitor Paiva - 22/10/2021 | Atualizada em - 09/11/2021

Todo grande fã dos Beatles que se preze já ouviu falar ao menos no coletivo The Fool, que trabalhou com a banda no final dos anos 60. Pra quem não é beatlemaniaco e não sabe recitar cada detalhe de cada página da história da maior banda de todos os tempos, o grupo de artistas e designers holandeses é um dos grandes responsáveis pelas cores explosivas e misturadas, as formas e temas que marcaram a psicodelia da época. Entre batas coloridas, sobreposição de cores e tecidos, estrelas, planetas e temas místicos, o The Fool foi pioneiro ao desenhar, colorir e decolar a estética que tanto marcou e influenciou o final da década de 60 em um dos mais emblemáticos momentos do século XX.

Barry Finch, Simon Posthuma, Yosha Leeger e Marijke Koger: os membros do The Fool em 1967

Barry Finch, Simon Posthuma, Yosha Leeger e Marijke Koger: os artistas do The Fool em 1967

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O nome veio da carta de tarô “O Louco”, e o grupo foi criado originalmente pelos artistas holandeses Simon Posthuma e Marijke Koger como uma dupla de estilistas assinando roupas e obras de arte. O grupo foi descoberto enquanto vivia em Ibiza em uma reportagem para o jornal The Times em 1967 mostrando suas roupas coloridas e criações. As cores e formas eram tão radicalmente diferentes da forma de se vestir dos jovens de então, que reza a lenda que no dia seguinte da reportagem o The Fool era o assunto entre a juventude de Londres – e naturalmente também chamou a atenção dos Beatles como líderes da geração.

Barry e Marijke recebem John Lennon em Londres em 1967

Barry e Marijke recebem John Lennon em Londres em 1967

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A parceria com os Beatles começou através do empresário da banda, Brian Epstein, que inicialmente contratou o grupo para desenhar as filipetas e pôsteres de divulgação, até que um dia, John Lennon e Paul McCartney apareceram sem aviso prévio no apartamento de Marijke em Londres: ela leu o tarô para os dois, e reza a lenda que foi de tal evento que Paul tirou a inspiração para escrever a clássica canção “The Fool on the Hill”. A arte do The Fool impressionou a dupla, que não teve dúvidas em contratar o grupo para criar o figurino das duas filmagens que a banda viria a fazer: a apresentação da música “All You Need is Love” na primeira transmissão via satélite ao vivo para todo o mundo – assistida por mais de 700 milhões de pessoas em 25 de junho de 1967 – e o filme Magical Mistery Tour.

Os Beatles vestindo figurinos criados pelo grupo no vídeo de "I Am The Walrus", em cena do filme Magical Mistery Tour

Os Beatles vestindo figurinos criados pelo grupo no vídeo de “I Am The Walrus”, em cena do filme Magical Mistery Tour

A banda vestindo The Fool apresentando "All You Need is Love"

A banda vestindo The Fool apresentando “All You Need is Love”

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A grande criação do The Fool em parceria com os Beatles, porém, foi a Apple Boutique, uma loja que vendia roupas e acessórios psicodélicos para a juventude londrina – e que se anunciava com impacto desde sua inauguração, em dezembro de 1967, não só por ter os Beatles como proprietários, mas também por um imenso mural colorido e que cobria todo o prédio 94 da Baker Street. E o The Fool assinava a criação de tudo, desde a decoração e mural, até as roupas e acessórios que moveram multidões ao local.

O mural criado para a Apple Boutique, que teve de ser pintado de branco pouco após a inauguração

O mural criado para a Apple Boutique, que teve de ser pintado de branco pouco após a inauguração

Os artistas do The Fool dentro da Apple Boutique

Os artistas do grupo dentro da Apple Boutique

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O sonho de “um lugar lindo onde pessoas lindas podem comprar coisas lindas”, como definiu McCartney, durou pouco: pouco tempos depois da abertura o mural teve de ser pintado por ordem da prefeitura de Londres, as peças eram muito caras para serem feitas, os roubos de roupas e acessórios eram constantes, o caos era quem cuidava das finanças e da administração do negócio, e a Apple Boutique fechou em julho de 1968.  A parceria, porém, seguiu, e o grupo desenvolveu diversas peças imortais para os Beatles: pinturas nos pianos de John e Paul, em um carro de George Harrison, assim como a arte do envelope interno do disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

George Harrison com seu carro pintado pelo The Fool

George Harrison com seu carro pintado pelo The Fool

A lareira na casa de Harrison

A lareira na casa de Harrison também foi estilizada pelo grupo

-Se você gosta de arte psicodélica, precisa conhecer esse artista

O grupo não trabalhou somente com os Beatles, tendo criado figurinos para a banda The Hollies, assim como a capa do disco Evolution, figurinos de show para o Procol Harum, assim como figurinos e desenhos especiais para os instrumentos da lendária banda Cream: a guitarra de Eric Clapton, o baixo de Jack Bruce e a bateria de Giger baker foram pintadas com as cores e a estética do grupo para a turnê de 1967, e muito mais.

Eric Clapton, à época do Cream, com sua Gibson SG também estilizada

Eric Clapton, à época do Cream, com sua Gibson SG também estilizada

Mural na parte exterior do teatro Aquarius

Mural na parte exterior do teatro Aquarius

O The Fool ainda lançaria um disco próprio. e realizaria, em Los Angeles, o maior mural do mundo até então, na parte exterior do teatro Aquarius para uma montagem da peça Hair, em 1968. Em seguida o grupo se separaria e cada um tomaria o próprio rumo: Marijke até hoje vive em Los Angeles, pintando e criando, como uma artistas e designer que ajudou a dar cor e cara à década de 60 como um dos períodos mais transformadores da cultura recente.

Marijke Koger em foto tirada por Linda McCartney

Marijke Koger em foto tirada por Linda McCartney

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© fotos: Messy Nessy/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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