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A história da jovem nigeriana que conseguiu fugir da prostituição forçada na Dinamarca

Redação Hypeness - 05/11/2021

Milhares de mulheres são traficadas todos os anos para cidades europeias, onde são exploradas sexualmente de alguma forma. Esse é o caso de Jewel (pseudônimo para proteger a sua identidade), uma jovem nigeriana que esperava se tornar uma cuidadora de idosos. Ela descreve sua chegada à Dinamarca como um sonho brilhante, já que estava acostumada com o escuro da sua cidade natal, sem energia elétrica. Lá, “tudo brilhava. Era muito lindo.”, diz.

Jewel pegou um voo da Nigéria pensando que iria trabalhar com idosos e em nenhum momento desconfiou que estava sendo levada por traficantes internacionais de mulheres. “As pessoas que são vítimas de tráfico passam pela Líbia e costumam pegar ônibus e barcos. Mas isso (o caso dela) foi tão bem organizado que não deu para suspeitar”.

Uma rua de Vesterbro, distrito do sexo, durante a noite

Quando chegou em Copenhague, ela foi recebida por uma mulher nigeriana, que a levou no dia seguinte a Vesterbro, o distrito conhecido pela prostituição na cidade. “Eu esperava ver algum tipo de hospital”, lembra. Elas caminharam juntas por um tempo e Jewel prestou bastante atenção nas ruas e arredores, como foi orientada a fazer.

Foi então que a mulher que a acompanhava deu a notícia. “Ela disse: ‘É aqui que você vai trabalhar’. Olhei em volta para ver se ela estava apontando para um prédio que eu não tinha notado. Mas não, ela estava se referindo ao local por onde estávamos andando. Foi quando ela disse que eu seria ser uma prostituta, e era aqui que eu procuraria clientes. Então, todo o peso da Dinamarca caiu em cima de mim.”

Ainda em choque, mas seguindo as ordens que recebia, Jewel continuou caminhando e encontrou rapidamente, passando por alí, uma mulher que mais tarde se tornaria muito importante. Michelle Mildwater, da ONG HopeNow – que apoia vítimas do tráfico de pessoas na Dinamarca – viu a tímida mulher de 20 e poucos anos e deu a ela um cartão com um número de contato. A chefe nigeriana de Jewel, sua “senhora”, disse a ela para não confiar na mulher inglesa em uma bicicleta.

 

Jewel ficou naquele local, vigiada, até aparecer seu seu primeiro cliente. “O homem deu a ela (sua “senhora”) o equivalente a 4 mil coroas dinamarquesas (US$ 620 ou R$ 3,4 mil) para que eu fosse à casa dele. Depois do pagamento ela foi embora”, diz.

“Ficamos no carro pelo que pareceu uma eternidade. Eu não falava o idioma na época e eu não tinha ideia do que ele estava dizendo; tivemos que usar o Google Translate para nos comunicar. Foi assustador.”

Nos meses que se seguiram, a atividade não ficou mais fácil para Jewel.”Eu não era boa nisso. Era muito tímida. Mas sempre tive trabalho porque os clientes regulares sabem quando uma nova pessoa está chegando e querem experimentá-la.”

Tráfico e exploração sexual na Europa

A exploração sexual continua a ser a principal fonte de lucro do tráfico. De acordo com a Comissão Europeia, e estima-se que, em um único ano, os rendimentos da prática criminosa alcancem a assombrosa cifra de US$ 16 bilhões (R$ 88,9 bilhões).

As mulheres são informadas de que devem grandes somas aos traficantes para despesas de viagem e acomodação. “Elas ficam presas pelas dívidas”, explica Sine Plambech, pesquisador sênior do Departamento de Migração do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais. “As mulheres nigerianas são um dos grupos de trabalhadoras sexuais migrantes com maior dívida, que pode variar entre 10 mil e 60 mil euros (aproximadamente R$ 65 mil a R$ 390 mil). E quando você tem esse tipo de dívida, precisa ganhar muito dinheiro rápido. E se você não tem documentos que permitem que você trabalhe, a maneira mais rápida de ganhar dinheiro é na indústria do sexo.”

As tentativas de reduzir a demanda pelos serviços sexuais fracassaram nos últimos 10 anos, segundo Comissão Europeia

Os traficantes de Jewel informaram que ela teria que pagar 42 mil euros (R$ 270 mil) em parcelas regulares. Para deixar isso claro, ela foi convocada para uma reunião terrível em um cemitério, um dia antes de ela sair da Nigéria. “Fui forçada a jurar que pagaria o dinheiro de qualquer maneira e que não revelaria quem estava me traficando. Se o fizesse, muitas coisas ruins aconteceriam a mim e à minha família.”

No momento em que Jewel chegou à Dinamarca, os traficantes ameaçaram sua família na Nigéria. “Eles entraram em minha casa e queriam que minha avó se livrasse de qualquer ideia de denunciá-los à polícia ou não pagar o dinheiro. Então, toda vez que eu ligava para ela, ela sempre chorava no telefone e me lembrava que eu tinha feito este acordo com essas pessoas. Eu tinha que pagar ou algo iria acontecer com eles.”

Jewel estava sob imensa pressão, por isso não sentia que poderia discriminar os clientes que atendia dentro dos carros e entre os carros estacionados nas ruas de Vesterbro ou em suas casas. “Você não pode dizer não. Você tem que dizer sim, porque há 10 ou 15 outras mulheres olhando para o mesmo cara querendo ganhar algum dinheiro naquela noite”, diz ela.

Mas ir com um cliente à sua casa pode ser extremamente arriscado. “Eu poderia ter morrido naquela noite em que fui forçada a permanecer na banheira”, lembra ela, ainda traumatizada. “O homem com quem eu tinha que ir para casa me pediu para entrar na banheira. E eu pensei, ‘OK – ele quer que eu me limpe ou algo assim.’ Então ele saiu e voltou com dois baldes de gelo. E ele começou a derramar esse gelo em mim na banheira. E eu estava lá nua e era no meio do inverno…”

Pessoas tentando ajudar

Nos fins de semana, as ONGs dinamarquesas oferecem serviços para as mulheres que vendem sexo. Uma delas, a Reden International, tem um café onde elas podem descansar, se recuperar e fazer um lanche nos intervalores entre clientes. E em uma das ruas laterais, um grupo de voluntários promove uma iniciativa de redução de danos como nenhuma outra.

É chamada de Van Vermelha, porque é isso que é – um veículo com uma cama na parte de trás iluminada por luzes de fada e um estoque pronto de preservativos e lenços umedecidos. É um espaço privado onde as trabalhadoras do sexo podem trazer um cliente em vez de ir a algum lugar potencialmente inseguro. Durante a noite, um fluxo constante de mulheres chega – homens a reboque – para usar as instalações da van, enquanto os voluntários ficam a uma distância respeitosa, mas perto o suficiente para ouvir se uma mulher está em apuros. Pode ser usado até 28 vezes em um turno de quatro horas.

Voluntárias da Red Van Pauline Hoffman Schroder, Sine Plambech e Aphinya Jatuparisakul

Uma das voluntárias da Red Van é Sine Plambech, pesquisadora acadêmica.

“Essas mulheres têm um problema que estão tentando resolver – dívidas, pobreza, família, filhos. Elas precisam trabalhar. Vão vender sexo, queiramos ou não, por isso oferecemos um espaço seguro para elas enquanto estão fazendo o que fariam de qualquer maneira”, diz ela. “A maioria das mulheres não venderia sexo se não precisasse. Você pode ter todas essas ideias morais sobre o que é bom para elas, mas elas precisam ganhar dinheiro.”

Comprar e vender sexo na Dinamarca não é ilegal, mas você precisa de uma autorização de trabalho. O precário sistema de migração e a situação ilegal de muitas das mulheres que vendem sexo em Copenhague as torna mais vulneráveis – e muito menos propensas a denunciar à polícia qualquer abuso ou violência contra elas.

A política da Dinamarca é deportar imigrantes sem documentação. Mesmo que as mulheres sejam identificadas como vítimas de tráfico de pessoas, espera-se que elas retornem aos seus países de origem após um curto período em uma casa segura patrocinada pelo governo.

Desenho de Jewel, expressando seus sentimentos de mulher traficada e explorada sexualmente

Depois de quatro meses nas ruas, desesperada, deprimida e tentada a tirar a própria vida, Jewel também relutou em denunciar às autoridades. Ela ainda tinha uma dívida enorme e temia por sua segurança e a de sua família na Nigéria. Então sua vida mudou. Jewel conheceu um dinamarquês e se apaixonou. No primeiro encontro, depois de uma refeição romântica, ela contou tudo a ele.”É um fardo que ele teve de carregar”, diz ela agora sobre o homem que se tornou seu marido.

Jewel parou de trabalhar nas ruas e ele a ajudou a fazer pagamentos semanais à sua senhora. Mas o casal precisava de aconselhamento. Conhece alguém que pode nos ajudar?, perguntou seu namorado.

Ela guardou o cartão que Michelle Mildwater lhe dera na primeira noite em que vendeu sexo em Vesterbro. Michelle aconselhou Jewel, ajudou-a a enfrentar seus traumas e deu-lhe confiança para parar de pagar sua madame. E, felizmente, não houve repercussões violentas para ela ou sua família – talvez porque seu traficante não pertencesse a nenhuma das grandes redes criminosas transnacionais.

Michelle Mildwater fundou a ONG HopeNow em 2007

Agora, Jewel aguarda o resultado de seu pedido de permanência na Dinamarca. Enquanto isso, seu dinamarquês tornou-se fluente e ela teve um bebê. Jewel e Michelle se tornaram grandes amigas. E quando Jewel se casou, a funcionária da ONG de HopeNow foi sua madrinha. “Esse é um dos momentos de maior orgulho da minha vida – o fato de que alguém me acompanhou até o altar e que foi Michelle quem fez isso”, diz Jewel.

Jewel espera que um dia ir para a escola de negócios. Ela também quer fazer trabalho voluntário para ajudar mulheres nas ruas. Pouco antes do lockdown, Michelle Mildwater, que é uma ex-atriz, encorajou Jewel a desenvolver uma peça – a história de uma mulher traficada – e apresentá-la para um público em Copenhagen. Jewel a chamou de The Only Way Out Is Through (em tradução livre, A única saída é através). “Isso foi uma terapia. Quando eu estava fazendo a apresentação, eu estava meio… fora do meu corpo. Era como se eu fosse parte do público, e fiquei muito tocada com o que vi”, disse Jewel.

“Porque isso não é apenas uma história – essa é a realidade das pessoas.”

Jewel apresentando sua peça em Copenhague

No Brasil

Por aqui, denúncias relacionadas ao tráfico de pessoas podem ser feitas por meio do Disque 100 ou do Ligue 180, no caso de mulheres. De acordo com o governo federal, os serviços funcionam 24 horas por dia, todos os dias, e possuem atendimento em português, inglês e espanhol. As denúncias podem ser anônimas.

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Crédito: Guadalupe Basagoitia

Reprodução/ Getty Images


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