Ciência

Antibióticos ineficazes podem causar a próxima pandemia. E o ‘kit covid’ piorou a situação

26 • 11 • 2021 às 15:28
Atualizada em 02 • 12 • 2021 às 10:01
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Enquanto a vacinação e os protocolos de segurança começam a amenizar a atual pandemia, uma espécie de próxima pandemia pode estar a caminho – mas não por conta de um novo vírus ou mesmo de outra doença, mas sim através da perda de eficácia de um dos mais importantes medicamentos já desenvolvidos.

Uma reportagem do jornal El País detalha o temor de um grupo de cientistas e médicos espanhóis, que vêm trabalhando para contornar uma ameaça que cresce de forma cada vez mais rápida e ainda sem solução: os antibióticos estão deixando de funcionar.

pílula

A próxima pandemia pode vir não de uma doença, mas da ineficácia dos medicamentos

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Para se ter uma pequena dimensão da importância do trabalho do Plano Nacional Frente à Resistência aos Antibióticos, iniciativa espanhola apresentada na reportagem pelo trabalho para conter o problema, a matéria lembra que, sem os medicamentos contra as bactérias, procedimentos como cesarianas, transplantes e tantas outras operações médicas se tornam praticamente impossíveis – e um simples ferimento pode passar a ser uma ameaça letal.

A gravidade do quadro é também ilustrada pelas doenças bacterianas como tuberculose, gonorreia e salmonelose, contra as quais os tratamentos vem se tornando menos e menos eficazes.

Cientista observando duas culturas bacterianas

Cientista observando duas culturas bacterianas

-DST desconhecida se espalha e preocupa médicos por resistir a antibióticos

A perda de eficácia dos antibióticas é resumida no texto como um passo atrás de quase 100 anos em avanços médicos e científicos  – mas o que está provocando essa perigosa tendência e o avanço das chamadas superbactérias, que resistem a maioria ou mesmo a todos os antibióticos disponíveis? Em parte a resposta está na própria multiplicação e mutação das bactérias, que podem apresentar escudos contra os medicamentos, transmitindo esses genes resistentes a outras bactérias.

O processo se revela especialmente perigoso visto que o investimento no desenvolvimento de novos antibióticos é, segundo a matéria, pobre e pequeno, especialmente diante do quadro que se apresenta futuro.

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Os chamados “Kit Covid” agravaram o quadro emergencial

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Segundo um relatório apresentado pelo governo do Reino Unido em 2016, as bactérias resistentes já eram responsáveis pela morte de 700 mil pessoas por ano no planeta, e os números poderiam alcançar cifras astronômicas até 2050, superando o câncer e chegando a 10 milhões de óbitos.

A atual pandemia da COVID-19, porém, agravou consideravelmente esse cálculo, e não pelos efeitos da doença: o uso desregrado e excessivo de antibióticos que não traziam benefícios contra o novo coronavírus, como a azitromicina e a doxiciclina – um crescimento que superou 400% na pandemia por conta da recomendação de kits e tratamentos precoces ineficazes – acelerou a situação em 10 anos, e hoje já alcançamos os números de resistência e óbitos por bactérias esperados para 2030.

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O desenvolvimento de novos e melhores antibióticos é determinante para reverter o quadro

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Segundo a OMS, somente 43 novos antibióticos encontram-se em desenvolvimento atualmente, mas o potencial de lucro menor que, por exemplo, o potencialmente alcançado com novos medicamentos contra o câncer, faz com que laboratórios praticamente abandonem essas pesquisas.

A necessidade de investimento público e massivo, portanto, em pesquisas é urgente, bem como de se deixar pra lá as crenças sem base científica e o compromisso irrestrito com o lucro, para assumir enfim e de uma vez por todas um outro compromisso: com a vida. Intitulada “A próxima pandemia já começou: covid-19 acelera a aparição de superbactérias” e assinada por Manuel Ansede, a reportagem do El País pode ser lida aqui.

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© fotos 1, 2: Getty Images

© foto 3: Flickr/CC

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