Arte

Artista transforma lixo encontrado na natureza em arte que alerta para crise climática

Vitor Paiva - 10/11/2021 | Atualizada em - 12/11/2021

A natureza sempre inspirou esteticamente aos artistas, enquanto a política é que costumava levar a arte ao protesto. As mudanças climáticas, o aquecimento global, a poluição e o impacto da ação humana sobre o planeta misturaram por completo e em definitivo essas barreiras éticas e estéticas na arte, e o trabalho da artista estadunidense Mariah Reading é um perfeito exemplo. Suas pinturas em princípio representam nada além da beleza de diversas paisagens naturais, mas o suporte que utiliza, no lugar de telas, para realizar as pinturas oferece um sentido profundo e contundente de sua arte: ela pinta sobre o lixo que encontra nas justas paisagens que retrata.

A arte de Mariah Reading

A garrafa plástica que era lixo se torna suporte para arte – e conscientização

A arte de Mariah Reading

Calçados são um dos lixos mais recorrentes no trabalho de Reading

A arte de Mariah Reading

Colete salva-vidas se integra à natureza pelas mãos da artista

-Artista une lixo à street art nas ruas de Lisboa e o resultado é fascinante

São garrafas plásticas, latas de metal, tampas, tecidos, madeiras e até mesmo chinelos e sapatos que, nas mãos de Reading, deixam de poluir as praias e parques que a artista visita, para serem transformados na base de suas criações. O trabalho, portanto, ao mesmo tempo celebra a beleza da natureza e denuncia as diversas crises ecológicas atuais – desde a poluição e o descarte incorreto, até as mudanças climáticas e a “morte” de diversas paisagens naturais por todo o mundo. “Boa parte do lixo que utilizo como tela eu mesmo coleto, mas às vezes alguns vizinhos e amigos me trazem lixo como presente”, comenta a artista, que também mistura pitadas de ilusão de ótica e sobreposição em seus trabalhos concluídos – e, por acaso, possui, como referências estéticas, nomes como M. C. Escher e René Magritte.

A arte de Mariah Reading

A eco-artista e pintora Mariah Reading

A arte de Mariah Reading

Uma tampa de metal integrada às montanhas

A arte de Mariah Reading

A artista vende as obras fisicamente e também pelas fotos sobrepondo as peças à paisagem

-Poluição está sendo transformada em ladrilhos elegantes na Índia

Concluída uma pintura, a artista fotografa o item perfeitamente alinhado com a paisagem na qual se baseou, sobrepondo desenho e realidade, permitindo que ao mesmo tempo a “presença” do lixo na natureza seja lembrada e a poluição “desapareça”. As imagens são então compartilhadas nas redes sociais, e postas à venda, tanto a pintura física quanto impressões das fotos, para galerias em na loja online da artista. “Por ser uma pintura de paisagens, tenho o privilégio de viver em ambientes dinâmicos e maravilhosos, mas que demonstram as evidências dramáticas das mudanças climáticas diante de meus olhos”, comenta.

A arte de Mariah Reading

O processo começa com a artista encontrando uma peça poluindo a natureza

A arte de Mariah Reading

A luva encontrada é transformada em arte, feito fosse parte da natureza

A arte de Mariah Reading

Pedras, águas e árvores sobre o chinelo pelo pincel da artista

-Este mural na Polônia tem o poder de purificação do ar equivalente a 720 árvores

Para artista, há uma boa notícia no fato da geração atual ser bastante consciente sobre as tantas questões ecológicas e, ainda que tal tomada de consciência possa provocar o que chama de “eco-ansiedade”, ela também determina um propósito importante para seu trabalho. “Como uma artista ecológica, meu objetivo é pintar as paisagens em constante mutação, registrando momentos como marcos históricos para protegê-los”, diz. “Não acho que conseguiria navegar pela vida sem buscar fazer do mundo um lugar ainda mais bonito”.

A arte de Mariah Reading

Até um croc é transformado em tela para receber as pinturas de Reading

A arte de Mariah Reading

É uma montanha ou uma lata amassada?

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© fotos: Mariah Reading/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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