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As misteriosas histórias de fantasmas em táxis japoneses após o tsunami de 2011

Vitor Paiva - 04/11/2021

A dimensão do terremoto seguido de um tsunami que arrasou o Japão em 11 de março de 2011 não é medido somente pelas mais de 20 mil vidas perdidas, mas também pelo impacto sobre toda a população que sobreviveu ao evento, em especial nas regiões mais afetadas pela tragédia. Foi para estudar um instigante e sobrenatural fenômeno que a estudante de sociologia Yuka Kudo viajou para Ishinomaki, um dos pontos mais afetados pelo ocorrido no país: na cidade que perdeu quase 6 mil moradores, entre mais 3 mil mortos e 2770 desaparecidos, tornaram-se célebres alguns relatos de taxistas, que afirmam terem vivido experiências fantasmagóricas na região. Trafegando por entre os mais de 50 mil prédios então destruídos em uma espécie de cidade-fantasma, alguns motoristas garantem terem se encontrado com fantasmas de fato – e até mesmo transportado alguns deles.

Bombeiros trabalhando no resgate em Ishinomaki

Bombeiros no resgate em Ishinomaki; horas após o Tsunami a neve começou a cair sobre a região

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Em um dos relatos colhidos por Kudo, um motorista contou que, poucos meses após o tsunami, em pleno verão viu uma moça vestindo um pesado casaco de inverno e acenando para seu carro. Após entrar, ela pediu para ir ao distrito de Minamihama, o que surpreendeu o motorista. “Aquela área está praticamente vazia. Tem certeza?”, disse. Após um momento de silêncio, uma voz trêmula do banco de trás perguntou: “Eu morri?”. Assustado, o motorista se virou, para descobrir que seu carro estava vazio: não havia ninguém além dele. O trabalho de campo em Ishinomaki foi realizado por Kudo em 2016, quando a cidade ainda estava em processo de reconstrução, e bairros inteiros ainda se encontravam em destroços e com pouquíssima movimentação.

Ishinomaki atingidas pelo tsunami

Ishinomaki foi uma das cidades mais fortemente atingidas pelo tsunami © Flickr

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A estudante entrevistou 100 motoristas no período e, segundo Kudo, a maioria a ignorou ou mesmo se irritou diante da pergunta haviam vivido alguma experiência inusitada ou mesmo inexplicável após o desastre – sete entrevistados, no entanto, lhe contaram assustadoras histórias de encontros com o que garantiram ser fantasmas da tragédia. Passageiros que entravam e não sabiam para onde queriam ir, ou que pediam por endereços destruídos, e todos, ao fim, simplesmente desapareciam dos carros é o roteiro de grande parte dos relatos extraordinários. A pesquisa se baseia na relação com os espectros ou yūrei dentro da cultura japonesa, folclore que afirma que pessoas que morreram deixando assuntos mal resolvidos, que não receberam o funeral devido ou as orações esperadas podem vagar ainda pelo mundo dos vivos.

Zona portuária destruída pelo terremoto seguido pela onda gigante

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Uma reportagem no site Ozy reúne diversas histórias de fantasmas que passaram a ser relatadas após o tsunami de 2011 – que, com magnitude de 9.1 e levando a vida de mais de 20 mil pessoas, foi o mais forte já registrado no Japão, e o quarto mais poderoso do mundo desde que os registros modernos começaram a ser feitos, em 1900. Espectros que deixam rastros de água do mar por onde passam, assim como estações de bombeiro de polícia recebendo chamadas de casas destruídas são alguns dos exemplos apontados na matéria. Em um dos casos relatados, as ligações para os bombeiros só teriam cessado após a própria equipe ir até as ruinas para rezar pelos mortos e desaparecidos.

As ruas de Ishinomaki

As ruas de Ishinomaki tomadas pelos destroços – e pela neve – nos dias seguintes à tragédia

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Para a psicologia, a resposta para tal fenômeno está na imensa e inevitável dificuldade de se lidar com o imenso vazio que a morte impõe – e, mais ainda, em uma tragédia imensa e coletiva, com milhares de mortes, como foram o terremoto e tsunami de 2011 no Japão. A visão e o encontro com supostos fantasmas traria esperança, continuidade e sentido de pertencimento diante da tragédia “Fantasmas, para algumas pessoas, são mais toleráveis que o vazio criado pela morte”, diz o texto. A matéria lembra, no entanto, que os motoristas que contaram as histórias para Kudo tinham registrado os causos em seus cadernos de notas, com direito a registros nos aplicativos de viagens que não foram pagas, sugerindo que, seja como for, eles realmente acreditaram, no dia e no momento, que havia um passageiro no carro – antes de simplesmente desaparecer.

Uma casa à deriva em Sendai após a grande onda em março de 2011

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© fotos: Wikimedia Commons/crédito


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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