Diversidade

Baiana do acarajé é chamada de ‘macumbeira’ e ‘preguiçosa’ por turistas em Salvador

Vitor Paiva - 16/11/2021

Um vídeo mostrando dois turistas em Salvador ofendendo uma vendedora repercutiu de forma extremamente negativa na internet, após aparentemente ser publicado nas redes sociais dos próprios turistas. Na filmagem, ofensas de cunho religioso e pessoal são proferidas contra a mulher, que está do outro lado da rua, vestindo o traje típico de baiana, originário da cultura do candomblé: o incidente aconteceu no período do último feriado pela Proclamação da República, e a vendedora não parece perceber que está sendo filmada.

Os dois turistas no vídeo ofensivo

Os dois turistas no vídeo ofensivo

A vendedora registrada e atacada na postagem

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Logo no início do vídeo, um dos homens pergunta se a baiana “não tem cara de macumbeira”, apontando para a mulher, que chega a ser filmada rapidamente. “Ela é o que, irmã? Preguiçosa, vai roubar o seu axé”, responde o outro indivíduo, rindo do comentário. “Ela vai roubar o meu colar para ela”, comenta o primeiro. O vídeo foi filmado no bairro do Pelourinho e publicado no último dia 13, e os homens que aparecem foram identificados como Ludwick Rego e Rômulo Souza e, após a repercussão, os dois voltaram às redes para pedir desculpas “ao povo da Bahia” e ao “povo do Pelourinho, ao povo do axé”.

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“Nós ali estávamos numa brincadeira de uma pessoa que estava vendendo axé, que a gente sabe que axé não se vende”, comentou Ludwick, que afirmou que também é “do axé” que no momento algum queriam ofender “a cultura” no pedido de desculpas. “Quem é realmente da religião sabe que axé não se vende. Você abençoa uma pessoa e ela dá aquilo ali que ela pode”, comentou. No vídeo, que afirma que tudo não passou de brincadeira, eles afirmam que a mulher ofendida não era uma vendedora de acarajé, mas sim uma pessoa que, segundo o vídeo, estava os “perturbando” a fim de benzer as guias que ele vestia.

Uma reportagem da TV Bahia encontrou a vendedora, chamada Eliane de Jesus, que trabalha no Pelourinho benzendo turistas e passantes. Em vídeo, Eliane afirmou estar indignada e ferida com o que apontou como uma situação de intolerância religiosa. “Ele bateu foto minha e eu não vi. Não fui até ele, eu nem sei quem é ele, eu vi depois que ficou rolando nas redes sociais e na internet…as pessoas falando sobre isso”, comenta a vendedora.

Eliane de Jesus, em seu vídeo de resposta

Eliane de Jesus, em seu vídeo de resposta

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“Eu trabalho no Pelourinho há mais de dez anos, benzo, e sou suspensa como Ekede [cargo no candomblé] em uma casa [terreiro]. Então não é certo ele me chegar e fazer isso com minha imagem. Isso é uma intolerância contra a minha religião”, afirmou. Os dois turistas fecharam seus perfis nas redes sociais após a repercussão negativa.

 

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© fotos: Youtube/Reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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