Ciência

Cartas em tupi do século 17 ganham tradução inédita e expõem guerra colonial entre Portugal e Holanda

Vitor Paiva - 09/11/2021 | Atualizada em - 16/11/2021

Pela primeira vez na história, uma série de cartas datadas do ano de 1645 e trocadas entre pessoas indígenas durante o período da invasão holandesa no nordeste do Brasil, foi traduzida do idioma tupi para o português. Concluída por Eduardo Navarro, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo (USP), a tradução revela diálogos entre indígenas potiguares em lados opostos da Insurreição Pernambucana, batalha travada entre portugueses e holandeses, que contou com a adesão dos povos locais – indígenas protestantes ao lado dos holandeses que invadiam o nordeste do país, e outros que lutaram em defesa dos portugueses.

Cartas em Tupi

As cartas são estudas desde o século XIX, mas sem nunca terem sido traduzidas

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Os diálogos registrados nas correspondências envolvem personagens centrais da Insurreição, principalmente Felipe Camarão, chefe dos indígenas que lutaram ao lado de Portugal, em troca com seus parentes Pedro Poti e Antônio Paraupaba, indígenas protestantes, que posicionaram-se na batalha do lado holandês. “Por que faço guerra com gente de nosso sangue, se vocês são os verdadeiros habitantes desta terra? Será que falta compaixão para com nossa gente?”, perguntou Camarão, em um dos trechos destacados em reportagem do site G1. “Não pensem que se poupa a vida dos potiguaras, da gente nossa, por esses terem sido feitos chefes. Não pensem que os holandeses livram vocês de nós. Somente a vida deles é poupada”, afirma o chefe, que pedia que seus parentes deixassem o apoio aos holandeses na batalha.

Carta de Felipe Camarão a Pedro Poti de 4 de outubro de 1645

Carta de Felipe Camarão a Pedro Poti, de 4 de outubro de 1645

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As correspondências já são estudadas desde o século XIX, e o próprio Navarro teve o primeiro contato com as cartas ainda nos anos 1990, mas a tradução se fez enfim possível a partir de um dicionário do idioma Tupi publicado pelo professor em 2013. Navarro trabalhou com reproduções em microfilme dos documentos originais, guardados na Biblioteca Real de Haia, na Holanda, e teve como primeira dificuldade a tarefa decifrar a letra e a ortografia das cartas. Por se tratar de idioma originalmente só falado, as primeiras representações escritas do Tupi foram desenvolvidas pelos jesuítas, e documentos escritos pelos próprios indígenas são extremamente raros.

Pintura retratando Felipe Camarão

Pintura retratando Felipe Camarão, que chegou a ser reconhecido como “Capitão-Mor de Todos os Índios do Brasil” © Wikimedia Commons

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Em outro trecho, Camarão comenta sobre um dilema que ainda hoje é central no debate colonial: o desaparecimento de ritos e culturas originárias por conta da invasão europeia – no caso, a dominação holandesa na região da Caatinga. “Nossas antigas terras, nossos velhos ritos, nossos parentes paraibanos, os de Cupaguaó, os de Uruburema, os de Jareroí, os de Guiratiamim, todos os antigos filhos dos habitantes da Caatinga, tudo e todos estão sob as leis dos insensatos holandeses, assim como seu corpo e sua alma também estão”, diz o chefe, em uma das cartas.

Outra carta de Felipe Camarão a Pedro Poti, de 19 de agosto de 1645

Outra carta de Felipe Camarão a Pedro Poti, de 19 de agosto de 1645

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Ainda que as respostas não tenham sido preservadas, através de um resumo realizado por um pastor holandês, foi verificado que Poti teria discordado de Camarão, afirmando que os portugueses não mereciam apoio, por terem escravizado e violentado os indígenas. “É a primeira vez que essa história é contada pela pena dos índios, e está ali o lado dos vencidos”, afirmou Navarro. A tradução completa e inédita será publicada em breve pelo Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, de Belém, no Pará.

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© fotos: Arquivo pessoal/Eduardo Navarro/crédito


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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