Futuro

Casal heterossexual é possível numa dimensão feminista mas requer transformações, segundo ativistas

Redação Hypeness - 04/11/2021

Depois de tanto tempo sem sequer autorização para questionar os abusos institucionais dentro das relações heterossexuais, mulheres em todo o mundo discutem as possibilidades e – muitas vezes – impossibilidades de apostar em relações afetivas entre homens e mulheres.

Para algumas ativistas feministas da atualidade, a heterossexualidade não faz mais sentido e, uma relação afetiva que tem um homem no centro, prejudica as mulheres.

Este é o caso de Virginie Despentes, ícone feminista francês, que em entrevista ao jornal Le Monde declarou que se sentiu aliviada quando deixou a heterossexualidade, aos 35 anos.

Contudo, muitas estudiosas sobre o assunto afirmam que essa “mudança” não é possível para todas as mulheres, uma vez que a orientação sexual é uma condição inerente ao ser humano e não uma escolha que pode ser abandonada.

A jornalista Lucile Quillet, autora do ensaio “Le prix à payer, ce que le couple hétéro coûte aux femmes” (“O preço a pagar, quanto custa o casal heterossexual às mulheres”) diz que “Questionar a heterossexualidade não significa abandonar o casal”.

Para as mulheres se sentirem plenamente realizadas sendo solteiras é muito bom. Mas propor a outras que se tornem lésbicas quando forem heterossexuais é impossível.

Para Quillet, o formato de casal heterossexual empobrece as mulheres, pois seguem recebendo menos do que os homens, têm redução do salário quando têm filhos, assumem grande parte das tarefas domésticas na casa, mas continuam contribuindo no mesmo nível que o parceiro nas despesas “O que quero mostrar é que apesar dos discursos sobre igualdade, as contas não batem. Sempre se pede mais das mulheres, principalmente no âmbito íntimo, sem que isso seja conhecido. Queria prestar contas”, explica.

 

Outro ponto importante é levantado pela escritora francesa Maud Ventura: “Vivemos em uma sociedade em que o casal heterossexual é majoritário. Portanto, vamos ser realistas e nos questionar mais sobre a questão do equilíbrio de forças do casal”. Ventura escreveu o romance “Mon mari”, em que relata a dependência emocional de uma mulher casada e independente, mas que vive inteiramente em função do marido. “É preciso escrever romances que contem um amor conjugal emancipatório e tranquilo, e se livrar dos clichês sobre o príncipe encantado e o mito da paixão de uma vez por todas. Amor não significa inquietação”, diz.

Segundo a escritora francesa Maud Ventura é preciso questionar mais sobre a questão do equilíbrio de forças do casal

Essa ideia também é corroborada pela jornalista Mona Chollet, em seu ensaio “Reinventando o amor: Como o patriarcado sabota as relações heterossexuais”, em que ela clama a mulheres e homens por uma mudança em seu “programa de amor” e assim iniciarem uma “revolução romântica” fazendo com que as mulheres se sintam iguais dentro do casal.

A filósofa a filósofa Manon Garcia vai ainda mais longe na discussão e no papel do homem nessa discussão: “Os homens têm que iniciar essa conversa com as mulheres e acima de tudo ouvi-las. Só assim será possível sair das normas que pesam sobre um casal e homens e mulheres poderão se sentir realizados”, comenta. Além disso, para Garcia, é necessária que seja instituída “educação para uma cultura erótica igualitária”.

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Reprodução/ Getty Images


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