Debate

Comentarista da Jovem Pan que associou riqueza alemã com Holocausto já ligou Umbanda ao ‘demônio’

Vitor Paiva - 17/11/2021

Causou espanto e críticas intensas um comentário antissemita emitido pelo jornalista e comentarista José Carlos Bernardi, durante o “Jornal da Manhã”, do canal Jovem Pan News, na última terça-feira, 16 de novembro. A fala aconteceu em conversa com a comentarista Amanda Klein sobre a participação recente do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em evento no Parlamento Europeu, quando Klein ressaltava a falta de prestígio internacional do atual presidente, Jair Bolsonaro.

Ao comentar sobre a realidade da Alemanha atual para discordar de Klein, Bernardi afirmou que o desenvolvimento econômico alemão teria se dado em cima do roubo da riqueza do povo judeu, e que se o Brasil queria desenvolvimento semelhante, era só reproduzir um extermínio como foi o Holocausto, cometido pelos nazistas.

O comentarista José Carlos Bernardi

O comentarista José Carlos Bernardi

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A sequência de preconceitos e inverdades históricas começa antes, quando Bernardi comenta sobre o impacto da presença árabe na Alemanha de hoje. “A Angela Merkel [chanceler da Alemanha] abriu o país para todo o mundo árabe. As alemãs estão sendo estupradas em praça pública.

Este é o país que você defende”, acusou o jornalista. Quando sua interlocutora afirmou que torcia para que o Brasil um dia chegasse próximo ao desenvolvimento econômico alemão, Bernardi respondeu: “É só assaltar todos os judeus que a gente consegue chegar lá. Se a gente matar um monte de judeus e se apropriar do poder econômico deles, o Brasil enriquece. Foi o que aconteceu com a Alemanha pós-guerra”.

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O comentário rapidamente viralizou, e se tornou alvo de críticas não somente pelo aspecto antissemita que reproduz, como pelo desconhecimento do processo histórico ocorrido após a Segunda Guerra Mundial.

“Essa fala do ‘comentarista cristão’ José Carlos Bernardi resume muito o negacionismo histórico que tomou esse país de assalto em 2018. Além da ignorância completa dos processos do pós-guerra, típica de um analfabeto em História, o sujeito incorpora referencias do antissemitismo”, escreveu Michel Gherman, professor de sociologia da UFRJ e diretor do Instituto Brasil-Israel, em seu perfil no Twitter. “O sujeito incorpora referencias do ‘judeu rico’ para justificar suas teses mirabolantes. Filhas do ‘nazismo de esquerda‘, essas bobagens transformam o genocídio dos judeus em um detalhe”, concluiu Gherman.

O comentarista José Carlos Bernardi

Bernardi já havia emitido opinião preconceituosa contra a Umbanda

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Comentarista comparou Umbanda ao ‘demônio’

Essa não é a primeira vez que Bernardi, que também trabalhava como assessor de imprensa do deputado Campos Machado (Avante), mas foi exonerado após a repercussão do comentário, dissemina preconceitos: em outubro passado, durante participação no programa “Os Pingos nos Is”, transmitido pela rádio Jovem Pan, o jornalista se referiu a uma entidade religiosa ligada às tradições da Umbanda como “demônio”, em comentário que pode ser visto como “crime de sentimento religioso” pelo artigo 208 do Código Penal. “É isso mesmo.

Este senador Davi Alcolumbre está mais para Tranca Rua, aquele demônio pra quais são feitas oferendas para trancar a rua, trancar caminhos!”, afirmou Bernardi.

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A comentarista Amanda Klein apontou as falas de Bernardi no “Jornal da Manhã” como “ultrajantes”, “obscurantistas”, “reacionárias” e “erradas”, e também foi às redes para reiterar seu repúdio. José Carlos Bernardi emitiu um pedido de desculpas em suas redes sociais.

“Peço desculpas pelo comentário infeliz que fiz hoje no jornal da manhã, primeira edição, ao usar um triste fato histórico para comparar as economias brasileira e alemã. Fui mal-entendido. Não foi minha intenção ofender a ninguém, a nenhuma comunidade, é só ver o contexto do raciocínio. Mas, de qualquer forma, não quero que sobrem dúvidas sobre o meu respeito ao povo judeu e que, reitero, tudo não passa de um mal-entendido. Obrigado”, escreveu.

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© fotos: Twitter/Reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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