Tecnologia

Computador humano: a profissão do passado que moldou o mundo moderno, era dominada por mulheres

Vitor Paiva - 05/11/2021 | Atualizada em - 09/11/2021

A ideia de um “computador humano” hoje pode nos remeter às próteses tecnológicas, utilizadas para ampliar as capacidades do corpo humano, ou à inteligência artificial, cada vez mais onipresente em nosso dia a dia: até meados do século XX, porém, o termo era, mais do que uma expressão, uma profissão de fato. A palavra “computador”, desde o século XVII, se referia a uma trabalho, e mais: uma área profissional quase que inteiramente dominada por mulheres. O filme Estrelas Além do Tempo, contando a história de Katherine Johnson, Dorothy Vaughn e Mary Jackson, cientistas  negras que tiveram papel fundamental no desenvolvimento do programa espacial da NASA,  revela as páginas mais recentes da história dos “computadores humanos”, mas esse é um ofício que remonta há séculos passados, como uma parte importante – e um tanto esquecida – da história da própria afirmação profissional feminina.

Mulheres trabalhando como computadores humanos em Harvard, em 1890

Mulheres trabalhando como computadores humanos em Harvard, em 1890

Jovem funcionária da IBM, programando um dos primeiros computadores da empresa

Jovem funcionária da IBM, programando um dos primeiros computadores da empresa

-NASA anuncia 1ª missão espacial 100% feminina que acontece neste mês

A primeira referência conhecida ao termo “computador” data de 1613, referindo-se a “alguém que computa”, ou uma pessoa capaz de realizar grandes cálculos matemáticos. Alan Turing, o inventor do computador moderno, explicou que “o computador humano tem de seguir regras fixas; ele não tem autoridade para desviar delas em qualquer detalhe”. Se no último século a expressão também se refere a pessoas com incríveis capacidades de cálculo e memória, o ofício propriamente era aplicado em áreas como astronomia, física, navegações, matemática em geral, e especialmente no desenvolvimento das tecnologias que desembocam nos computadores atuais.

Marlyn Wescoff, de pé, e Ruth Lichterman programando o ENIAC, considerado o primeiro computador moderno, em 1946

Marlyn Wescoff, de pé, e Ruth Lichterman programando o ENIAC, considerado o primeiro computador moderno, em 1946

Melba Roy

Melba Roy, diretora do grupo de mulheres computadores humanos da NASA, em 1964; sem o trabalho de Roy, não haveria o bom funcionamento dos satélites modernos

-Alan Turing, pai da computação, sofreu castração química e foi proibido de entrar nos EUA por ser homossexual

A presença feminina em tais ofícios é historicamente explicada pelo fato de que era possível contratar mulheres para o trabalho de “computador” por um salário menor do que a média masculina, mas talvez a natureza do ofício fosse vista com preconceito pelos homens de então. Aos poucos, porém, a oportunidade foi criando cada vez mais mulheres especializadas, e a área foi sendo dominada pela mão-de-obra feminina. Durante os períodos de guerra, desde o fim do século XIX até meados do século XX, com os homens em campo de batalha, tal predomínio se ampliou e se confirmou, em período em que o desenvolvimento das tecnologias de cálculos e dos computadores se desenvolvia em alta velocidade. Barbara “Barby” Canright foi a primeira mulher contratada pela NASA como “computador”, em 1939, mas, em poucos anos, departamentos inteiros na agência espacial seriam ocupados por mulheres, cujo trabalho era calcular utilizando máquinas rudimentares e a própria capacidade e talento: o trabalho era computar.

Katherine Johnson na NASA, em 1966

Katherine Johnson na NASA, em 1966 © Wikimedia Commons

Johnson, recentemente, diante do prédio da NASA que leva seu nome

Johnson, recentemente, diante do prédio da NASA que leva seu nome © Wikimedia Commons

-Cientistas descobrem segredo do computador de mais de 2 mil anos

Não é por acaso que Ada Lovelace, uma condessa inglesa nascida em 1815, é considerada a primeira programadora da história, que o wi-fi foi inventado pela atriz Hedy Lamarr, e que o poder dos primeiros computadores, no período da segunda guerra, era medido em horas de “kilo-girls”, ou somando as capacidade de trabalho das garotas que calculavam. Antes de se tornar mais um meio dominado por homens, nos anos 70 e 80 a programação era, portanto, um campo de trabalho para mulheres, e não houve página da história das tecnologias que hoje utilizamos em praticamente cada passo – e que tanto mudou o mundo atual – que não tenha sido escrito e calculada por mulheres: por computadores humanos femininos.

Annie Easley, uma das primeiras mulheres negras a trabalharem na NASA

Annie Easley, uma das primeiras mulheres negras a trabalharem na NASA

Publicidade

© fotos: Messy Nessy/Reprodução/Créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.