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‘Coquetéis de aditivos’: químicos dominam alimentos vendidos em mercados do Brasil, revela pesquisa

Vitor Paiva - 11/11/2021 | Atualizada em - 16/11/2021

No Brasil, quem busca fugir das químicas indesejadas em nome de uma alimentação saudável não tem muito para onde fugir: essa é a conclusão de uma nova pesquisa realizada pela nutricionista Vanessa Montera, mostrando que quatro de cada cinco alimentos vendidos nos supermercados brasileiros possuem ao menos um aditivo químico em seus componentes. De acordo com a pesquisa, o quadro não só é generalizado, como também se agrava pela quantidade de químicos presentes nos produtos: um quarto, ou 25%, dos itens presentes na pesquisa apresentaram seis ou mais aditivos.

tomate com químicos

Quatro em cada cinco produtos trazem químicos nos mercados brasileiros © Pixabay

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A pesquisa foi noticiada em reportagem da BBC Brasil, e estudou 9.856 itens presentes nos supermercados do país. E se a “intoxicação” dos alimentos é generalizada, alguns itens apresentaram quadro extremo: apontado como um verdadeiro “coquetel”, segundo a pesquisadora um produto de panificação trazia 35 aditivos químicos em sua composição. Trata-se de estudo pioneiro no Brasil, trazendo informações importantes para instituições como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que regula o uso dos aditivos, bem como suas quantidades, nos alimentos. A lei brasileira não exige que os alimentos tragam a quantidade de aditivos nos rótulos.

Sucos artificiais

Os sucos com poucos ingredientes naturais são os produtos mais químicos encontrados © Getty Images

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Os números da pesquisa impressionam: 79,4% de todos os itens traziam ao menos um aditivo entre seus ingredientes, mas somente a minoria dos alimentos estudados (11,6%) traziam somente um químico: a maioria (24,8%) possuía seis ou mais aditivos em sua composição. As bebidas de fruta saborizadas, que apresentam teor de suco de 30% ou menos ou concentrados para refrescos, foram os produtos com mais químicos encontrados: 79,7% de todos os ingredientes listados, em tais casos, eram aditivos químicos. Composições semelhantes apresentaram os refrigerantes (74,5%), produtos lácteos não adoçados (51,1%) e doces e sobremesas (45,4%).

Refrigerantes

Refrigerantes são também campeões de aditivos nas prateleiras © Wikimedia Commons

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Outro dado que chama atenção na pesquisa é o fato de que quatro dos cinco aditivos mais encontrados eram do tipo cosmético: aromatizantes foram os mais comuns, presentes em 47,1% dos produtos, seguidos de corantes (em 27,8%), estabilizantes (27,6%) e emulsificantes (em 19,4%). Entre os mais utilizados, o único químico que não é considerado cosmético – incluído para alterar a aparência, a consistência, o cheiro ou o sabor de um produto – eram os conservantes, presentes em 28,9% dos produtos estudados. Enquanto os conservadores ao menos possuem o propósito de ampliar a duração dos alimentos nas prateleiras, os químicos cosméticos não precisam ser utilizados.

produtos lácteos

51,1% dos produtos lácteos trazem ingredientes químicos © Getty Images

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“Os conservadores têm um propósito, porque a indústria precisa fazer com que esses produtos possam ficar mais tempo na prateleira, mas os aditivos cosméticos só servem para deixar o pão mais fofinho, fazer o iogurte ficar rosa, deixar o creme de leite mais branco” afirmou a pesquisadora, na matéria da BBC News Brasil. “Seu único propósito é tornar o produto mais atraente para o consumidor e, por isso, não são estritamente necessários. “Tinha um produto que tinha um umectante [que previne a perda de umidade] e um antiumectante [que impede a absorção de umidade]. Qual é o sentido disso?”.

biscoitos

Cerca de 45% dos doces e sobremesas trazem um ou mais aditivos químicos © PxHere

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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