Sustentabilidade

Deserto do Atacama vira lixão da moda com toneladas de roupas descartadas pelo 1º mundo

Vitor Paiva - 12/11/2021

O mais alto e mais seco deserto do mundo vem se tornando também um dos mais poluídos: no Deserto do Atacama, no Chile, as salinas e a areia cada vez mais se misturam a imensas montanhas tóxicas de lixo, que anualmente crescem em toneladas. Não se trata, porém, de qualquer poluição, mas sim de verdadeiras colinas formadas por peças de roupa desperdiçadas, que entram no país através da zona franca de Iquique, porto localizado a 1.800 quilômetros de Santiago. São calças, camisetas e outras peças que não foram vendidas em mercados como o europeu, asiático ou estadunidense, enviadas ao Chile para serem revendidas para a América Latina – boa parte, porém, acaba no local no deserto apelidado de “lixão da moda”.

Parte da região de Alto Hospicio, no Deserto do Atacama

Parte da região de Alto Hospicio, no Deserto do Atacama

-Como Gana se tornou ‘lixão’ de roupas de má qualidade dos países ricos

Segundo relatório realizado pela AFP, estima-se que, das cerca de 59 mil toneladas de roupas de segunda mão que o porto chileno recebe anualmente, em torno de 39 mil toneladas acabem nas montanhas de roupas na região do Atacama conhecida como Alto Hospício, ao norte do país. São peças fabricadas principalmente na China e em Bangladesh, que chegam ao Chile de todas as partes do mundo, compradas em outras zonas francas e enviadas ao porto de Iquique, onde revendedores chilenos selecionam produtos para suas lojas: o que não é enviado para ser comercializado em Santiago ou em outros países da América Latina termina no deserto.

-Reciclagem circular: máquina permite que indústria têxtil utilize roupas velhas como matéria prima para novas

As imagens assombram, e ilustram o gigantesco impacto que a indústria da moda impõe sobre o meio-ambiente em todo o mundo: o material que forma o “lixão da moda” no Atacama leva ao menos 200 anos para se desintegrar, após utilizar imensas quantidades de água e produtos químicos na fabricação. Além do desperdício concreto e da intoxicação do deserto, o componente humano se faz inevitável diante das montanhas de roupa, já que também se acumulam as denúncias de trabalho escravo, trabalho infantil, salários abaixo da linha da miséria e exploração contra a indústria da moda justamente para a fabricação massiva de seus produtos anualmente. O Chile é o maior importador de roupas usadas na América Latina.

A cidade de Iquique, onde fica a zona franca que cria o lixão da moda

A cidade de Iquique, onde fica a zona franca que cria o lixão da moda

-Como moradores do RJ transformaram lixão em um parque ecológico

Segundo consta, muitas pessoas viajam até as colinas de roupa de Alto Hospício para coletarem peças que serão revendidas em suas comunidades, ou simplesmente para escolherem roupas para si e para a família, a fim de, por exemplo, enfrentarem o frio do inverno. São imagens semelhantes às cenas, terríveis e recorrentes, ocorridas em lixões tradicionais por todo o mundo: no lugar, porém, de buscar por alimentos, no Atacama as pessoas mergulham em montes de casacos, bolsas, camisetas, sapatos e mais, a fim de encontrarem um pouco de sustento ou proteção contra o clima. Pois, assim como na indústria alimentícia, a verdadeira palavra de ordem da indústria têxtil é o desperdício em nome do lucro: de acordo com a ONU, a produção de roupas, responsável por 20% de toda a água desperdiçada do planeta, dobrou entre 2000 e 2014.

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© fotos: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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