Debate

Documentos comprovam que suástica nazista era usada para marcar gado no Pará

Vitor Paiva - 18/11/2021

Uma série de documentos históricos analisados recentemente comprovou que a suástica nazista era utilizada como símbolo para marcar o gado na região de Santarém, a oeste do estado do Pará. Datados de janeiro de 1938, os documentos são autos criminais, registrando o furto de cabeças de animais pertencentes à firma Liebold & Cia., de propriedade do brasileiro Pedro da Silva Motta, e do alemão Artur Johannes Liebold, e o estudo é parte do trabalho de conclusão do curso de história de Joanderson Mesquita. Intitulado “Liebold & Cia.: os rastros da suástica na Amazônia”, o trabalho investigou a imigração alemã na região e na época a partir do uso do símbolo nazista.

A suástica grifada em um dos documentos estudados

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Os documentos pertencem ao Tribunal de Justiça do Estado do Pará (TJ-PA), e estão sob custódia da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em Santarém, onde Mesquita estudava e apresentou o trabalho. Segundo os registros, um homem de nome Francisco Machado Freire comandou o roubo de uma cabeça de gado da empresa, marcada a ferro em brasa com a suástica, e a vendeu por duzentos e vinte mil réis para Antônio José Fernandes, que era dono da charqueada Cravo Roxo. Ao fim, porém, o animal foi abatido em um matadouro local, e teve sua carne vendida no mercado municipal.

Os autos apresentando o caso, também com o emblema nazista desenhado no documento

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O registro, portanto, apresentou o sinal nazista como uma forma de identificação do animal, através do exame de corpo de delito do couro, para incriminar Francisco Freire: o emblema nazista foi apresentado como prova de que se tratava de um animal roubado. À época, o Partido Nazista alemão possuía seções espalhadas por todo o mundo, inclusive no Pará, onde, de acordo com a pesquisa de Mesquista – que atualmente cursa o mestrado na Universidade Federal do Pará (UFPA) – contava com 27 filiados, entre Belém, Santarém, e as cidades de Maracanã e Prata.

Anúncio da empresa em jornal local de Santarém, alguns anos depois do ocorrido

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A conexão de Liebold ou da empresa com o braço do nazismo no estado ou no Brasil, no entanto, é incerta. “Não foi possível indicar que Liebold tinha vinculação com a seção do partido nazista estabelecida no Pará em 1938, mas sabemos que houve filiados à seção do Partido na cidade de Santarém”, afirma Mesquita. Para a professora Lorena Lopes, orientadora do TCC de Mesquista, o trabalho descobriu um documento muito importante para se repensar o passado da região e mesmo do mundo de então. “Neste caso, vemos por um lado a riqueza documental do Centro de Documentação Histórica do Baixo Amazonas, e, por outro, vemos como nascem as novas perguntas que fazemos para o passado, tido, muitas vezes erroneamente, como conhecido”, afirmou a professora.

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© fotos 1, 2: Joanderson Mesquita/Arquivo Pessoal

© foto 3: ICBS/Reprodução Jornal de Santarém Ilustrado


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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